Um ataque ao império de kronos

Quando o planeta esperava uma explosão de riqueza, o que explodiu foi a bolha do capital virtual

Maria Rita Kehl*, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2008 | 22h14

Uma crise é uma cambalhota na experiência subjetiva do tempo. O império de kronos, tempo linear que experimentamos como uma seqüência de minutos, horas, dias, é interrompido por kairós, instante brusco e disruptivo do acontecimento. O que o sujeito faz da oportunidade que se abre nesse momento, o rumo que escolhe tomar na chamada hora H, decide o desenlace da crise. Daí a tendência, mil vezes enfatizada pelo imaginário dos filmes de ação, de associar as crises a velocidade e precipitação. A menos que... a menos que a crise em questão seja provocada, como esta que hoje vivemos, por alguns excessos de velocidade.Tomemos as ressonâncias subjetivas do vocabulário econômico que caracterizou o último período (anos? décadas? Tudo foi tão rápido que a medida se perdeu). Do que se falava no longínquo semestre passado? De uma espantosa aceleração na concentração planetária do capital. O dinheiro se reproduzia em um irreal "mercado de futuros". Fortunas se acumulavam da noite para o dia. A perspectiva do tempo, tal como a conhecíamos no remoto século 20, foi subitamente abolida. O presente, único tempo que existe porque ao menos o corpo está nele, virou fichinha no pôquer incerto das apostas globais. O passado, substância da memória e da transmissão, tornou-se um entrave à disponibilidade permanente exigida do sujeito, vulgo consumidor, para as novidades instantâneas do mercado. Modernidade líquida, escreveu Zygmund Baumann, que logo a seguir foi tomado pela volúpia da velocidade e lançou outros livros em ritmo compatível com o que acabara de criticar: amor líquido, sujeito líquido, e por aí vai. A primeira idéia era boa, embora Marx tenha enxergado mais longe: na modernidade, o sólido se desmancha no ar. Dinheiro sem lastro, sujeito sem história, experiência sem tempo, presente comprimido.A revolução industrial já havia promovido uma aceleração espantosa do tempo, que começou a ser regulado em função do trabalho mecânico e da produtividade. Minutos passaram a fazer diferença no que se refere ao rendimento do trabalho mecanizado, como os décimos de segundo fazem diferença hoje diante dos instrumentos do trabalho computadorizado e dos relógios de precisão digital que medem as oscilações dos investimentos nas bolsas de valores ao redor do mundo. É evidente que algo do valor da vida se perde quando o tempo, matéria do vivido, passa a ser 100% empregado a serviço de um Mestre que reina sobre quase todo o planeta na forma dos caprichos, sempre misteriosos aos olhos do homem comum, do capital financeiro globalizado. Paradoxalmente, na medida em que o presente se desvaloriza ante o futuro, "aproveitar bem o tempo" tornou-se um dos imperativos da vida privada nas sociedades liberais, em que o indivíduo dispõe de uma enorme variedade de escolhas quanto ao desfrute de seu tempo (supostamente) livre. Só que o ritmo do trabalho, de forma desproporcional à oferta efetiva de empregos, invade cada vez mais a experiência da temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, esta forma de passar o tempo desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer marcadas pela compulsão de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão que tornam a vivência do lazer tão cansativa e vazia quanto a produção. Nada causa tanto escândalo hoje quanto o tempo vazio. É preciso "aproveitar" o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso. Essa forma contemporânea de temporalidade acelerada, em que a oferta de objetos se antecipa ao desejo e atropela a própria fruição, também produz seus desajustados. São os depressivos. A aliança entre ideais de precisão científica e eficiência econômica conduz à idéia de que a vida é um investimento no mercado de futuros cujo sentido depende de se conseguir garantir, de antemão, os ganhos que ele deverá render. É evidente, de acordo com a lógica subjacente a esse projeto, que o campo incerto da subjetividade deve ser reduzido a sua dimensão mais insignificante a fim de que nenhum rodeio inútil se interponha entre cada projeto de vida e sua meta final. Tal desvalorização dos meios em favor de uma finalidade urgente e inquestionável favorece o sentimento, genuinamente depressivo, de desvalorização da vida. O que existe no futuro, afinal? Nada além da morte certa. Tudo o mais depende do que construímos no presente - e também do acaso insondável.Em maio passado, pesquisadores ingleses do King?s College divulgaram os resultados de uma investigação a respeito dos efeitos psíquicos das profissões que exigem respostas velozes a estímulos ininterruptos. A pesquisa concluiu que as profissões que exigem atenção constante e ações rápidas durante muitas horas diárias - lideradas pela de pregadores da bolsa de valores - provocam depressão entre os que se dedicam a elas. Desânimo, falta de prazer na vida, sentimentos de vazio e de inutilidade estão entre os sintomas mencionados por esses trabalhadores deprimidos. A lentidão dos depressivos, mergulhados em uma temporalidade estagnada e angustiante, opõe uma espécie de resistência passiva a essa corrida em direção ao futuro. Eis que de repente, na mesma velocidade em que o planeta parecia caminhar para uma verdadeira explosão de riqueza futura, o que explodiu foi outra coisa: a bolha do capital financeiro virtual. Com temor de devotos ante a ira dos deuses, governos de grandes potências empregam a palavra temível: desaceleração. Nações inteiras parecem escorregar de seus postos avançados no futuro de volta às vicissitudes do presente. A rigor, seria a hora de reduzir a velocidade - não sem algum alívio, aliás. Voltamos a viver em nossa matéria mortal; não haverá pão sem suor e trabalho - ao menos para os que se alimentam de pão. Mas como diminuir a velocidade e repensar a rota da nau dos insensatos sem ter que largar milhares, milhões de pessoas ao mar?De acordo com a OMS, o crescimento das depressões no século 21 tem proporções de epidemia. Os depressivos serão os primeiros segregados da crise econômica? Ou não. Quem sabe, por ironia, à custa deles a indústria farmacêutica ainda ofereça um último fôlego produtivo ao capitalismo global. *Maria Rita Kehl, psicanalista, escreveu, entre outros, A Fratria Órfã (Olho d?Água) e O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões, que será lançado em 2009, pela editora Boitempo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.