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Um 'autorretrato' de Fidel traçado sob medida para ratificar as suspeitas do biógrafo-desafeto

Personagem do romance é egomaníaco, discípulo de Maquiavel e leal apenas à própria ambição

Michiko Kakutani, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2009 | 03h02

A multidão de ditadores, déspotas e revolucionários que se tornaram autoritários mais ao sul da fronteira produziu um gênero de literatura que poderíamos qualificar de romances sobre homens fortes latino-americanos - que inclui obras baseadas em figuras históricas reais, como o deslumbrante A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa, em que ele aborda o governo devastador de Rafael Trujillo na República Dominicana, e outras criações, como o Outono do Patriarca de Gabriel Garcia Marques, que usou a bruxaria do realismo mágico para criar tiranos fictícios quase míticos numa panóplia de crueldade, audácia e corrupção.

O romance mais novo seguindo essa tradição é o fascinante livro de Norberto Fuentes A Autobiografia de Fidel Castro, que se propõe a contar a longa história do líder cubano em suas próprias palavras. O "autorretrato" que surge dessas páginas é de um sobrevivente de Maquiavel: um egomaníaco que se identifica com a revolução, mas é leal não a uma causa, a uma ideologia, ou a seus compatriotas, mas somente à própria ambição.

Esse Fidel é narcisisticamente prolixo, como seu contraparte na vida real. É também um agente da mudança que se considera mitológico e consegue se tornar o "centro neurológico de uma nação inteira" - um astuto agente nietzschiano que acredita na força da própria vontade, sentindo ao mesmo tempo que "o camaleão vai durar mais tempo sob sua rocha que o leão, apesar dos seus músculos e dos rugidos". Ele é um mestre cínico da manipulação e da manobra estratégica, um hábil praticante das artes negras da propaganda e do estratagema que sempre desejou "manter o povo sempre imaginando".

Jornalista e estudioso de Hemingway, Norberto Fuentes outrora foi um entusiasta da revolução e fez parte do círculo mais íntimo de Fidel Castro. Ele acabou se desiludindo com o líder cubano depois que dois oficiais do Exército foram executados em 1989, com base em acusações que muitas pessoas acreditam terem sido falsas. Norberto Fuentes caiu em desgraça, passou a ser vigiado pelo governo e foi detido depois de uma tentativa fracassada de fugir de Cuba por barco. Depois de uma greve de fome e da intervenção de García Márquez, ele foi autorizado a deixar o país em 1994. Desde então tem denunciado Fidel pela sua "ditadura pessoal absoluta" e o desejo de "fazer qualquer coisa para permanecer no poder".

Quão bem Norberto Fuentes enquadra seu antigo camarada e atual inimigo? Até que ponto o romance reflete seu ódio pelo líder cubano e quanto reflete seu conhecimento em primeira mão de Fidel Castro e dos primeiros dias da revolução?

Embora algumas das conjecturas de Fuentes sobre a ascensão de Fidel Castro ao poder e os triunfos do seu grupo diante de dificuldades enormes, às vezes ridículas, pareçam ser muito autênticas, muitos dos acessos ruidosos do Fidel da ficção soam como discursos bombásticos artificiais da figura de um demagogo, concebidos pelo seu criador para incorporar nele tudo o que existe de angustiante e megalomaníaco: um niilista que fomentou a morte e a revolução para satisfazer sua sede pessoal de poder e fama.

O Fidel de Norberto Fuentes declara-se "o grande arquiteto da destruição. E o grande provedor da morte".

"Ruínas e sangue são nosso trabalho", ele diz. "Anos antes, tive uma noite de desespero, fome e solidão. Vi-me nas escadas na universidade de Havana e sabia que o único caminho para apaziguar meus desejos seria uma revolução do povo cubano. Todas as oportunidades que me foram oferecidas até então tinham feito de mim uma pessoa de segunda classe: advogado, radio-jornalista, representante do Partido Ortodoxo, gângster de universidade, lançador de time de beisebol americano, ídolo das mulheres." E assim, para evitar um destino medíocre, esse Fidel fictício faz "um pacto com o diabo", e paga pela sua "entrada para a história", com "destroços e sangue".

Quando Norberto Fuentes deixa de tentar colocar em itálico as vilanias do seu herói e, em vez disso, concentra-se na narrativas da sua história, podemos deixar de tentar imaginar quão historicamente acurado o seu Comandante pode ser, e desfrutar da sua criação como um personagem fictício convincente - sucessivamente arrogante, divertido, pomposo, lascivo, egoísta e que se engana.

É uma pessoa ansiosa para contestar teorias segundo as quais seu ódio do capitalismo provém do fato de ser filho bastardo de um próspero fazendeiro e sua cozinheira. Ele exulta quando conta como a crise dos mísseis e seus laços com a União Soviética o tornaram uma parte permanente da história e levou o mundo à beira de um Armagedon nuclear. E se estende sobre a importância estratégica de escolher os inimigos certos e sobre a arte e o ofício da propaganda. Alardeia suas conquistas sexuais e elogia a própria beleza: seu perfil grego, sua altura de herói, seus lábios sensuais.

Ao mesmo tempo, esse Fidel é imensamente inseguro e uma figura perigosamente passivo-agressiva. Critica seu irmão Raúl e ataca continuamente Che Guevara, que vê como um competidor e uma ameaça.

Na verdade, a relação entre Fidel e o Che anima os capítulos mais apaixonantes deste romance. O Fidel de Norberto Fuentes queixa-se, com inveja, da aura carismática do Che e seu rosto tão fotografado, lamentando que "foi um canalha sortudo que sempre mostrou uma face séria nos momentos decisivos". Fidel afirma que as ações do Che "favoreceram a promoção da própria imagem, não a da Revolução Cubana" e declara que "a ilha era pequena demais para os dois".

Finalmente, ele decidiu que "tinha que se livrar dele". Quando Che Guevara viaja para o Congo, o Fidel de Norberto Fuentes diz que "fiz todo o possível para a CIA encontrar seu paradeiro, mas eles nunca conseguiram". E quando Che foi morto na Bolívia, ele lamenta também que o seu rival se tornou "nosso último santo"

"Foi assim que ele me derrotou no decorrer do tempo", lamenta o Fidel de Fuentes. "Aparentemente, o dilema de grandes homens da história continua o mesmo. Vida ou glória." O Che transformou-se num ícone póstumo do idealismo revolucionário e da rebelião juvenil, enquanto Fidel se tornou um governante envelhecido de um anacronismo comunista de um pequeno país.

Com esse livro de memórias, que ele descreve como "parte história, parte pedagogia", o Fidel fictício posa para a eternidade, reconhecendo que "cada autobiografia é uma segunda oportunidade para justificar o passado por meio de palavras, racionalizar o sangue e a violência e transmutar isso para a história".

Quanto a Norberto Fuentes, ele também usou o formato da autobiografia - neste caso, uma autobiografia falsa - para tentar tecer a história segundo as próprias crenças, de modo a criar um fac-símile de Fidel Castro que confirme suas suspeitas do ditador cubano.

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