Rijksmuseum
Rijksmuseum

Um balanço da exposição dos 350 anos da morte de Rembrandt na Holanda

Nos 350 anos da morte do pintor, o Rijksmuseum expôs todas as 22 pinturas e 60 desenhos dele em seu acervo

Philip Kennicott, The Washington Post

15 de junho de 2019 | 16h00

AMSTERDÃ - Há quase quatro meses, as galerias de exposições especiais do Rijksmuseum estão lotadas de visitantes, tanto é preciso enfrentar filas para ver algumas das obras mais populares. A se julgar pelas multidões, pelos ingressos esgotados e pela necessidade de horas extras, a extraordinária exposição Todos os Rembrandts, tem sido um sucesso.

Em homenagem ao 350.º aniversário da morte do grande pintor, em 1669, o museu holandês escolheu uma maneira não convencional de honrar o mestre que dominou a arte do país no século 17: eles mostrariam tudo em sua coleção, todas as 22 pinturas e 60 desenhos, e se não todas as ilustrações (há muitas duplicadas entre as 1.300 no acervo), pelo menos um exemplo de cada.

É uma forma tipicamente democrática de apresentar o trabalho do artista, sem curadoria para transmitir um tema ou tese acadêmica particular, mas exposto em toda a sua extensão e profundidade. E o impacto foi impressionante. De pequenas gravuras, algumas pouco maiores do que um selo postal, ao orgulho da coleção do museu, o retrato de grupo de 1642, A Ronda Noturna, que tem mais de 4 metros de largura, é possível maravilhar-se mais uma e outra vez na economia, urbanidade e inteligência da visão de Rembrandt.

“Nada humano é estranho para mim”, disse o dramaturgo romano Terence, um homem que nasceu escravo; e nada humano parecia estranho a Rembrandt, filho de um moleiro, que durante algum tempo foi homem rico e morreu na pobreza, apesar de ser aclamado como o maior artista de sua época.

A exposição, marcada para se encerrar na segunda-feira, começa com autorretratos, uma sala cheia deles, incluindo uma pintura feita por volta de 1628, quando Rembrandt tinha 22 anos, e outra feita em 1661, quando tinha mais de 50. O retrato juvenil molda seu rosto suave à sombra de cabelos grossos e rebeldes, enquanto na imagem mais antiga ele olha para o espectador com as sobrancelhas levantadas bruscamente, como se para dizer o que muitas vezes sentimos quando olhamos para nós mesmos: dá para acreditar em quantos anos eu envelheci? Mas as imagens pintadas são quase estáticas comparadas com a miríade de autorretratos menores, com o artista fazendo caretas em frente ao espelho, usando roupas extravagantes e fantasias estranhas, experimentando chapéus diferentes e esforçando-se para transmitir, com o acréscimo de finas linhas pretas, os contornos e sombras do mundo tridimensional.

Aceitamos sem discutir que não existe um único e verdadeiro eu, apenas uma variedade de “eus” diferentes que servem a propósitos diferentes, e essa sensibilidade perturbadora e distintamente moderna parece totalmente presente na autorrepresentação de Rembrandt. A autenticidade disso reside na sua multiplicidade.

Após esta galeria introdutória, a exposição segue temas comuns com um layout cronológico vago, cobrindo seu tempo como um jovem pintor em Leiden, sua mudança para Amsterdã, seu sucesso como retratista, sua ambição de ser um grande pintor da história, a morte de sua amada esposa em 1642, a evolução de seu estilo para algo singularmente apreensivo e nervoso, numa superfície esboçada e sugestiva ao invés de polida e precisa, através de suas dificuldades financeiras e finalmente, seus últimos anos, nos quais ele lutou para se conectar com um público que preferia um tipo de pintura mais vivaz, mais acabada e colorida.

Apenas em seus primeiros trabalhos, incluindo um de 1626 chamado Companhia Musical, se percebe qualquer debilidade como artista (as figuras são desproporcionais, os detalhes da anatomia estranhos e as cores pouco agradáveis). Mas seu trabalho mais tardio só cresce em força, incluindo um retrato tocante de 1660 de seu filho Tito vestido de monge, e A Noiva Judia, um retrato duplo de um homem mais velho e sua amante mais jovem (talvez uma referência ao relacionamento de Rembrandt com sua amante, Hendrickje, que anteriormente fora sua empregada).

O Rijskmuseum alega ter a maior e mais abrangente coleção de Rembrandts do mundo, embora grande parte só tenha sido reunida séculos após a morte do artista. Mesmo hoje em dia, não há uma grande pintura da década de 1650, e outros museus (como o Hermitage) têm coleções menores, mas talvez mais poderosas, de importantes obras-primas. Pedro, o Grande, cuja coleção se tornaria parte do Hermitage, em São Petersburgo, adquiriu o primeiro dos seis Rembrandts do museu em 1716. O Rijksmuseum acrescentou seus dois primeiros (incluindo A Ronda Noturna) à sua coleção em 1808. Como Jonathan Bikker, autor de uma nova biografia publicada em conjunto com a exposição, explica, o museu holandês levou muito tempo do século 20 para reunir seu acervo.

Mas Bikker diz que a tendência durante esse período foi o de buscar trabalho autobiográfico, com menos foco na grande quantidade de trabalho feito sob encomenda, para promover sua carreira, ou feito simplesmente porque um assunto chamou a atenção do pintor. Somente na década de 1970 eles adquiriram obras significativas desde seus primeiros anos. A abordagem autobiográfica sem qualquer originalidade está fora de moda hoje e, quando se trata de exposições, é mais comum se concentrar não apenas em um único artista, mas em um contexto social maior (a exposição de 2017 da Galeria Nacional com Vermeer e os Mestres da Pintura de Gênero é um bom exemplo). Se há uma debilidade na mostra do Rijksmuseum, é precisamente essa: que Rembrandt aparece em isolamento, sem contexto, aparentemente sem concorrentes, precedentes, influências ou acólitos.

E, no entanto, essa queixa parece mais um escrúpulo intelectual do que um demérito real. O grande volume de gravuras de Rembrandt reafirma o ponto maior da exposição, que é a fonte inesgotável de sua invenção e observação. Cenas bíblicas são imaginadas e reinventadas, a iluminação reconfigurada, os principais participantes enfatizados ou obscurecidos. Em 1632, ele imagina a criação de Lázaro como a cena no clima de uma grande ópera e, 10 anos depois, apresenta-a intimamente, como música de câmara. Em vários casos, ele reutiliza suas placas de gravura à medida que elas se desgastam, adicionando manchas de escuridão para apagar as partes desgastadas, transformando o dia em noite e evocando grandes tempestades para esconder o que não estava mais produzindo uma impressão limpa. Esta não é apenas uma concessão pragmática ao declínio natural de uma placa de cobre – ela também produz narrativas inteiramente novas, novos humores e novas ideias, todas tão empolgantes e atraentes quanto a original.

“Seu interesse é inteiramente humano”, diz Taco Dibbits, diretor geral do Rijksmuseum. “Ele se limita a isso. Não há interesse em arquitetura. Mesmo suas paisagens são humanas em sua obsessão em revelar o mundo em torno dele.” Ele também foi “o primeiro artista a nos deixar ver seu quarto.”

E ele fez isso, de fato. Vemos a mulher dele, Saskia, na cama, às vezes parecendo abatida e talvez perto da morte (ela sucumbiu ao que provavelmente foi tuberculose, aos 29 anos de idade). Também vemos pessoas ao ar livre, mas com grande intimidade, incluindo um homem urinando, um monge rompendo seus votos com uma mulher em um milharal e outra mulher agachada no chão e defecando. Isso pode ser chocante, dada a proximidade de narrativas bíblicas e retratos psicológicos detalhados. Mas quanto mais você reconhece as dimensões ilimitadas desta categoria – coisas que ele viu, coisas que ele acha que vale a pena lembrar – mais coerente parece o seu trabalho de vida. Nada humano era estranho para ele.

O impacto dos autorretratos, especialmente o jovem com cabelo solto feito no final da década de 1620, parece desvanecer-se, de alguma forma, durante toda a mostra. Outros artistas que se descreveram permanecem jovens em nossa memória coletiva – a exuberância de sua inicial transformação em um personagem mítico persiste como sua imagem definidora. Mas perto do final desta exposição, há imagens de São Jerônimo, feitas ao longo da vida de Rembrandt. Eles transmitem tal variedade de invenção e emoção, que não podemos deixar de sentir alguma identidade compartilhada entre o artista e o santo.

Se assim for, então a exposição termina assim: com a vida de um homem resumida como as coisas que viu, sua inteligência toda voltada para a percepção dos detalhes, sua sabedoria definida por um amplo senso de curiosidade, tolerância e aceitação. Ele era nós antes de sermos nós, ou seja, no 350.º aniversário de sua morte, o Rijksmuseum reinventou Rembrandt mais uma vez, como um artista contemporâneo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Tudo o que sabemos sobre:
Rembrandtartes plásticas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.