André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Um bem cultural pode ser frágil, mas cultura é indestrutível

Descaso com patrimônio público não apaga o que de mais essencial a arte traz

Pedro Mastrobuono*, Colaboração para o Estado

27 Maio 2017 | 16h00

 

O Arquivo Público do Distrito Federal armazena projeto titulado Memória da Construção de Brasília, composto de entrevistas gravadas. Reporto-me ao depoimento do escultor Bruno Giorgi, entrevistado por Georgete Medleg Rodrigues. Durante uma hora e meia de gravação, o escultor modernista brasileiro fala, de modo pormenorizado, de sua militância política e dos vários anos em que permaneceu preso na Itália fascista de Mussolini, entre tantos outros fatos de sua vida.   

Merece reflexão, o relato sobre suas esculturas em Brasília, com especial ênfase na buscada integração entre arquitetura, pintura e escultura. Descreve, de modo prolongado, a concepção e realização da escultura Meteoro do Palácio Itamaraty. Aparentemente abstrata, a obra reflete elementos sobrepostos, que também podem ser vistos na arquitetura de Oscar Niemeyer e em afresco de Alfredo Volpi. Note-se que o nome original da edificação era Palácio dos Arcos.

Bruno acompanhou de perto sua instalação. Estava bem ao lado da base, quando o guindaste baixava, aos poucos, a escultura de mármore de Carrara. Emocionado, relata: “Eu estava embaixo, mas, sabe, que num certo momento, despencou quase de 1 metro. A 20 centímetros de minha cabeça parou a escultura. Eu teria sido esmagado.”

Prossegue sua narrativa, contando que Oscar Niemeyer, em meio a um longo e forte abraço, disse: “Bruno, você superou a você mesmo, superaste tudo. Gostei demais da tua escultura.” Refere-se, também de modo carinhoso, a Juscelino Kubitschek e Lucio Costa. Quanto a Volpi: “era muito amigo meu, era amigo fraternal mesmo.” Os mesmíssimos arcos do Meteoro de Bruno, como já mencionado, podem ser vistos na fachada de Niemeyer e, ainda, no afresco O Sonho de Dom Bosco executado por Volpi. 

Aliás, Volpi homenageou Niemeyer, pintando o rosto do amigo arquiteto, neste painel alusivo ao patrono de Brasília. Referindo-se especificamente ao afresco, em seu depoimento, Bruno afirma ser otimista em relação à importância cultural da nova Capital Federal: “Dom Bosco, que previu o lugar exato onde Brasília iria surgir... certamente será a cidade do futuro. Vai esmagar outras cidades que andam por aí, com muito nome, inclusive Roma e Paris.”

A Capital seria símbolo da importância da Arte da Cultura no processo decisório da nação. Bruno Giorgi relata que Juscelino ria muito satisfeito quando ouvia dele: “Presidente, para mim Brasília é uma segunda Atenas.”

O Instituto Histórico do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em seu arquivo, possui linda foto de Bruno Giorgi ao lado de Mário de Andrade, logo quando retornou da Itália e decidiu fazer parte do Movimento Modernista Brasileiro. O mesmo Iphan, agora em fevereiro de 2017, realizou vistoria no mural O Sonho de Dom Bosco, executado por Volpi no Palácio Itamaraty, sendo que a responsável, Sra. Ana Claudia Magalhães, encontrou no mínimo 10 (dez) problemas no afresco, frisando que “o painel encontra-se em mau estado de conservação, apresentando degradações no suporte e na policromia.”

Não é demasiado lembrar que o Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna vem denunciando, desde 2013, os danos a este bem cultural tombado. O próprio Iphan indicou o Instituto Volpi para acompanhar a restauração necessária. Não obstante, após exaustiva troca de correspondências, elaboração de laudos e toda sorte de providências burocráticas, recebemos a desalentadora mensagem do Ministério das Relações Exteriores (MRE), firmada pela Ministra Sônia Regina de Guimarães Gomes, nos seus exatos termos: “devido ao contingenciamento imposto a todos os ministérios, estamos impossibilitados de dar continuidade à contratação dos serviços de restauração no momento.”

Resposta que cai, como o meteoro de Bruno Giorgi, sobre cabeças, especialmente as nossas que, como fundadores do Instituto Volpi, temos o dever legal de zelar pela preservação e divulgação da memória e da obra artística do pintor. O afresco, desde 2013, segue – e pelo visto assim seguirá – sem restauração. E nós sem uma politica pública que nos garanta eficácia no acesso e na proteção de nossos bens culturais, mesmo aqueles formalmente tombados.

Bravatas e bazófia. Tantos e tantos discursos, nas bocas de políticos, que se revezam e não pestanejam em verbalmente defender a Cultura, como se fosse algo frágil. Perecíveis são alguns bens culturais, como o já sofrido afresco de Volpi. Isso sim. Agora, Cultura? Ah, não! Cultura é elemento constitutivo da identidade de um povo. O nosso é marcado pela resiliência. Continuaremos, pois, clamando pelo cumprimento desse dever do Estado.   

*Pedro Mastrobuono é presidente do Instituto Volpi, presidente da Aamac (MAC/USP) e vice-presidente da Comissão de Direito às Artes da OAB/SP 

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