Um buraco negro na Europa

A história não está mudando em Kosovo - está se repetindo. Se for apenas como farsa, ficaremos no lucro

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 20h52

"A história está mudando", pontificou o comentarista Roger Cohen, do International Herald Tribune/NYTimes, referindo-se à aposentadoria de Fidel, à ascensão política de Obama e, principalmente, ao que aconteceu domingo passado no Kosovo. A história pode estar mudando em Cuba, nos EUA, mas no Kosovo, definitivamente, plus ça change... Se mudou, foi para pior. E não apenas para os sérvios, eternos vilões de uma história quase sempre mal contada pela mídia internacional. Quando a Otan bombardeou Kosovo, em 1999, jornais e revistas do Ocidente só se referiam aos refugiados albaneses, como se os sérvios fossem imunes a bombardeios. A desastrada e cruenta intervenção de Slobodan Milosevic fez menos estragos que as operações antiinsurrecionais ocorridas na Colômbia, Sri Lanka, Chechênia, Irlanda do Norte, Tailândia, Filipinas, mas a trataram como um caso único de limpeza étnica, sem paralelos desde o holocausto nazista.Não acaba de nascer, na antiga Iugoslávia, um "novo país independente". O que efetivamente houve, no dia 17, foi uma declaração de dependência. O que concretamente nasceu (de cesariana) na província sérvia foi uma república parlamentar de proveta, um protetorado europeu (ou melhor, da Otan), de duvidoso status internacional, reconhecido por alguns países, refutado por outros e sem chances de vaga na ONU, negada pela Rússia, que tem poder de veto e é aliada histórica da Sérvia. Limbo colonial, protegido por 16 mil guardiões da paz de 34 países, Kosovo, legalmente, pertence aos sérvios. Mas só legalmente. O que é legal nem sempre é legítimo, realejam os defensores do separatismo albanokosovar. Passando por cima da Ata Final de Helsinque, que em 1975 declarou inamovíveis as fronteiras européias, os separatistas apóiam-se, exclusivamente, em argumentos de natureza étnica, lingüística e religiosa. Nada mais velho do que isso. A história não está mudando, está se repetindo. Se apenas como farsa, estaremos no lucro. Os Bálcãs ainda padecem das mesmas doenças de um século atrás; nenhuma tão degenerativa quanto o fanatismo nacionalista. O nacionalismo dos albaneses não é melhor, mais puro ou justificável que o nacionalismo sérvio, ao contrário do que insinuam Cohen e outros analistas tendenciosos. Argumentos demográficos tampouco justificam o que está ocorrendo naquela pobre e infeliz província. Mas há quem equacione a situação da seguinte maneira: se os kosovares de origem albanesa somam 2 milhões de almas (ou 92% da população), os incomodados (120 mil sérvios) que se mudem - ou metam o pé na estrada ("hit the road"), para traduzir literalmente o desalmado conselho dado por Cohen num artigo publicado três dias antes da "independência" do Kosovo. Com base nesse parâmetro, poderíamos alterar todo o mapa-múndi, sem excluir sequer Blumenau, que se transformaria num Estado independente, de sangue alemão, encravado em Santa Catarina. Por enquanto, sorte nossa, só territórios do outro lado do Atlântico, como os países bascos, Chechênia, Ucrânia, Abkzia e Ossétia do Sul (na Geórgia), Moldávia, Azerbaijão, Armênia e outros enclaves balcânicos, afora os asiáticos, estão de fato sujeitos a um efeito dominó. Para desassossego da Espanha, Rússia, China, Grécia, Romênia, Bulgária, Eslováquia e Chipre, que se recusam a ungir a Kosova albanesa, defendida, com especial zelo, pelos EUA. Por dois motivos: os americanos precisam limpar sua barra com os islâmicos do Oriente Médio (a maioria albanokosovar é predominantemente muçulmana) e reforçar a base militar de Camp Bondsteel, no leste de Kosovo. A invocação de razões históricas esbarra, invariavelmente, numa pergunta, em geral irrespondível: quem chegou primeiro? Os sérvios alegam que lá já estavam quando chegaram os primeiros albaneses. É fato que o Kosovo ganhou esse nome em homenagem a uma histórica batalha de servos contra turcos otomanos, em 1389. Também é verdade que os albaneses tomaram o partido dos turcos e búlgaros, quando estes invadiram e trucidaram milhares de sérvios, facilitando, assim, o crescimento demográfico dos albaneses, que, não bastasse, sempre tiveram um índice de natalidade superior ao dos sérvios.Nada disso justifica o nacionalismo sérvio, fator opressivo nos Bálcãs desde a Idade Média e combustível usado por Milosevic para concretizar seus delírios de grandeza no final dos anos 1980. De todo modo, se os soldados de Milosevic massacraram milhares de albanokosovares, os albaneses étnicos manipularam dinheiro público e regulamentos para se apossar de terras de cidadãos serviokosovares. Acabo de citar uma reportagem de David Binder, publicada no New York Times, em 1º de novembro de 1987, na qual o jornalista dava conta, ainda, de ataques albaneses a igrejas ortodoxas, queima de bandeiras, poços envenenados, colheitas queimadas, jovens eslavos apunhalados e moças sérvias violentadas. Binder arrematava seu relato com a seguinte observação: "Kosovo está se tornando o que os nacioanalistas étnicos albaneses reivindicam há anos e, com mais vigor, desde os sangrentos distúrbios provocados por eles em Pristina (capital da província), em 1981 - uma região albanesa ?etnicamente pura?." Em 2004 centenas de serviokosovares foram perseguidos, outros mais foram assassinados e tiveram suas casas destruídas por albanokosovares, que também invadiram 30 igrejas ortodoxas, dois mosteiros e um convento medieval. No final das contas, metade da população sérvia foi banida para Sérvia e Montenegro. As pessoas que hoje mandam em Pristina, a começar pelo primeiro-ministro Hashim Thaci, são as mesmas que em 1995 formaram o Exército de Libertação do Kosovo (Elk), responsável por incontáveis assassinatos e atos terroristas. Robert Gelbard, enviado especial do governo Clinton ao Kosovo, em fevereiro de 1989, foi taxativo: o Elk "é, sem sombra de dúvida, um grupo terrorista". Detalhe: financiado pelo tráfico de heroína e com ligações com a al-Qaeda. Meses depois, Gelbard confraternizava-se com líderes do Elk, e a organização sumia, como por encanto, da lista negra de Washington. No fim daquele ano, foi a vez de o diplomata Richard Holbrooke, o mesmo que na última quinta-feira acusou a Rússia de estar por trás do ataque de sérvios à embaixada americana em Belgrado, tirar fotos ao lado dos chefões do Elk. Promessas de respeito e proteção à minoria sérvia foram feitas nos últimos meses e reiteradas ao longo da semana passada. É ver para crer. Há duas décadas, Milosevic também chegou ao Kosovo falando em linguagem conciliatória, em respeito mútuo, e saiu com as mãos sujas de sangue. Tomara que os céticos, desta vez, estejam equivocados. E que o Kosovo posto na incubadeira no dia 17 afinal se esforce para não ser um buraco negro dentro da Europa. DOMINGO, 17 DE FEVEREIROEx-província torna-se país A província sérvia de Kosovo, de maioria albanesa, declarou-se independente, ignorando as advertências da Sérvia. Rússia, China, Grécia e Espanha protestaram. Na quinta-feira, manifestantes sérvios em Belgrado incendiaram a embaixada americana.

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