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Um Chernobyl na Amazônia equatoriana

Crime ecológico da antiga Texaco sobrou para a herdeira Chevron, interessada no pré-sal brasileiro

Sérgio Augusto,

05 de setembro de 2009 | 14h53

De olho no pré-sal, a petrolífera americana Chevron Corporation fez saber ao governo brasileiro, na quinta-feira, que tem tecnologia e experiência para descobrir petróleo em qualquer profundidade. Já operando em dois pontos da Bacia de Campos, ela de fato tem know-how comprovado, ao menos em prospecções no pós-sal. Quem, porém, acompanha o noticiário atento a questões ambientais anda meio com o pé atrás com a Chevron. Por causa de um escandaloso processo, envolvendo a floresta amazônica. Não o nosso lado da floresta, mas o equatoriano, o que faz pouca diferença, pois em ecossistemas as fronteiras traçadas pelo homem são ainda mais relativas.

 

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A Chevron, em si, nada fez; herdou o crime, perpetrado pela antiga Texaco, que a Chevron encampou em 2001. Os advogados, relações-públicas e lobistas que há oito anos se ocupam do caso, estes sim trabalham para a gigante do petróleo, a quinta maior empresa do mundo. E como jogam pesado, nos bastidores da Justiça e na mídia! Contra 30 mil habitantes da floresta amazônica (5 tribos e 30 comunidades), desde 1993 à espera de uma punição pelas desgraças que a Texaco lhes causou.

 

Quase 70 bilhões de litros de água contaminada e 64 milhões de litros de crude (o petróleo em estado bruto, antes do refino) sistematicamente despejados nas águas do Lago Agrio, perto de mil pontos de lixo tóxico deixados ao léu no solo da floresta, epidemia de câncer, abortos - foi esse o saldo da devastação causada pela Texaco, depois de quase 30 anos de exploração da bacia de petróleo na Amazônia equatoriana. Nem a barbeiragem do petroleiro Exxon Valdez, no Alasca, em 1989, cujos efeitos sobre o meio ambiente ainda hoje são sentidos, produziu estrago de tamanha envergadura.

O Valdez derramou 41 milhões de litros de crude na costa do Alasca. A tragédia ambiental que a Texaco provocou no Equador, por fazer uso de equipamento obsoleto e procedimentos técnicos inadequados, e assim ampliar sua margem de lucro, é a maior do gênero. Não exagerou quem a comparou a um acidente nuclear como o de Chernobyl.

 

Face à ameaça de desembolsar US$ 27 bilhões para indenizar as vítimas da Texaco, a Chevron montou uma blitzkrieg jurídica e marqueteira. No desespero, anunciou ter em seu poder um vídeo comprometedor do juiz Juan Nuñez, escalado para o caso. Gravado com uma microcâmera por um empreiteiro a soldo da empresa, o tal vídeo afinal não comprometia o magistrado com qualquer esquema de corrupção. Pura farolagem diversionista ou protelatória, que, presumo, poderá enfraquecer um bocado a defesa.

 

A Exxon levou duas décadas apelando para chicanas de toda sorte para escapar dos US$ 10 bilhões que um juiz a condenara a pagar aos nativos e ao Estado do Alasca pelos danos causados pelo Valdez, e acabou conseguindo um desconto considerável. Ao que tudo indica, a Chevron não terá a mesma sorte. Primeiro, porque a luta em favor do meio ambiente ganhou, nos últimos tempos, cruzados mais poderosos e perseverantes. Segundo, porque só os J. R. Ewings da Chevron não parecem estar solidários com a causa dos indígenas equatorianos.

 

E ainda há o fator cinema. Um badalado e premiado documentário sobre as malfeitorias da Texaco na Amazônia equatoriana e a épica batalha forense que ensejou pode empurrar o fiel da balança a favor das vítimas, caso repita nos cinemas o impacto que provocou no Festival de Sundance deste ano e em outras mostras. Sua estreia no IFC Center de Nova York, quarta-feira próxima, e, na semana seguinte, na Costa Oeste, está sendo aguardada com suspense e otimismo por todos aqueles comprometidos de variadas formas com a missão histórica de submeter uma corporação do porte da Chevron aos rigores da lei.

 

Produzido, dirigido e fotografado por Joe Berlinger, que nele trabalhou durante três anos, Crude não deve ser confundido com um documentário homônimo, feito pelo australiano Richard Smith, sobre o crude e suas implicações geológicas e econômicas, tão inofensivo que a rede de televisão ABC exibiu-o em capítulos em 2007. A julgar pelo trailer, disponível em www.crudethemovie.com, é uma alentada peça de acusação. Nada apelativa, segundo os críticos a que tive acesso.

 

"Um thriller jurídico de enorme força e profundidade", opinou Stephen Holden, do New York Times. "De uma honestidade intelectual absoluta", escreveu outro crítico. Berlinger, consagrado na década passada pelo documentário Paradise Lost, procurou expor todos os ângulos da questão e deu voz aos dois lados da disputa. Ou seja, a Chevron tem ampla oportunidade de defesa. Inútil cortesia, já que ela não tem o que defender.

 

Duas figuras sobressaem em Crude: Pablo Fajardo, ex-petroleiro equatoriano que se formou em direito por correspondência e hoje é o principal advogado das tribos do Lago Agrio, e um cacique cofán que atravessa a floresta a pé, de canoa, ônibus, trem e avião para levar as queixas de seu povo a uma reunião de acionistas da Chevron, em Houston (Texas), onde se defronta com um advogado que parece ter sido o modelo da Tilda Swinton em Conduta de Risco.

 

Por sua atuação no processo, Fajardo já ganhou dois prêmios: o CNN Heroes Award e o Goldman Environmental Prize. Outros mais poderá receber independentemente do que decidir a Justiça, pois seu heroísmo já foi sancionado em instâncias superiores.

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