Um dia a casa cai: apagar a história é uma prática de regimes autoritários, mas não só deles

Apagar ou revisar a história, como na decisão de demolir o casarão onde Hitler passou seus primeiros anos, é prática imemorial de regimes autoritários, mas não só deles

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2016 | 17h00

Faz sempre bem à alma testemunhar o opróbrio daqueles que no apogeu pareciam só mandar menos do que Deus e só perder em malignidade para o Diabo.

Desculpe por decepcioná-los: não me refiro à nacionalmente festejada prisão do ex-deputado Eduardo Cunha, mas aos últimos revezes infligidos à memória de dois supervilões históricos (Adolf Hitler e o Generalíssimo Francisco Franco) e ao primeiro justiçamento revisionista imposto a um punhado de prebostes do colonialismo alemão na África, anunciado no último fim de semana.

Hitler teve sua primeira casa, em Braunau am Inn, norte da Áustria, condenada à demolição pelo governo austríaco. Uma estátua equestre de Franco recebeu vaias e ovos ao reaparecer numa exposição ao ar livre em Barcelona. O terceiro exemplo é o único merecedor de um irrestrito Schadenfreude (a alegria provocada pela desgraça alheia, em alemão), pois não é menos que auspiciosa e didática a notícia de que a prefeitura de Berlim decidiu “descolonizar” o espaço urbano da capital substituindo os nomes de antigos colonizadores homenageados nas ruas do bairro “mais africano” da cidade pelos de heróis e mártires da resistência ao colonialismo e ao racismo, no início do século passado.

Em breve, não haverá mais em Berlim a Petersallee (homenagem a Karl Peters, que mandou executar milhares de nativos na África Oriental) nem a Lüderitzstrasse (preito a Adolf Lüderitz, que pilhou a Namíbia e lá patrocinou um genocídio), tudo isso quando Hitler e Franco ainda vestiam calças curtas. A glorificação de Peters, Lüderitz e outros colonizadores do império teutônico nas ruas da Berlim Africana era mais perniciosa e ofensiva do que seria a manutenção da primeira casa de Hitler, devidamente transformada em centro cultural ou numa simples repartição pública – quem sabe, num pequeno museu do Holocausto.

A hipótese chegou a ser aventada pela prefeitura de Braunau, que cinco anos atrás já havia cassado a cidadania do filho mais célebre e execrado da cidade. O casarão amarelo de três andares onde Hitler, nascido numa aldeia ali perto, passou seus primeiros anos, foi o mais recente ato oficial da execração pública a que o führer tem sido submetido desde o final da guerra. Conviver com o casarão incomodava a maior parte da população, mas o motivo principal do prometido bota-abaixo foram as constantes romarias de neonazistas por ele atraídas. Na terça-feira, o ministro do Interior austríaco Wolfgang Slobotka deu um passo atrás: o prédio será apenas remodelado. Mas de alto a baixo, a ponto de ficar irreconhecível.

Apagar a história ou seus vestígios mais incômodos, quando não reescrevê-la ao sabor das conveniências do momento, é prática imemorial, de que são useiros e vezeiros os regimes autoritários, mas não apenas estes.

Trocar nomes de ruas e inverter homenagens me parece justo, dependendo de quem perde com a troca e a desonra. Os cruéis colonizadores europeus merecem, no máximo, as páginas dos livros de história e as referências cabíveis em museus, não sua perpetuação nominal em logradouros e monumentos. E o mesmo se diga dos que entre nós patrocinaram ou acobertaram atrocidades, antes e durante a ditadura militar, e tiveram seus nomes imortalizados em praças, pontes, avenidas, ruas e viadutos.

Em 2007, a Espanha promulgou a lei da Memória Histórica, que obrigava a remoção de espaços públicos de todo e qualquer símbolo do franquismo. A anistia política assinada 30 anos antes não incluía a preservação daqueles fantasmas da ditadura de Franco. Os nostálgicos do velho regime espernearam, a faxina cívica sofreu algum retardo, mas em 2011, finalmente, aquele monumento de bronze com 4 metros de altura, intitulado Vitória, erguido em 1940 pelos vitoriosos fascistas espanhóis, saiu da avenida Diagonal, em Barcelona. Algumas das relíquias recolhidas voltaram às ruas da capital da Catalunha no início da semana, como parte de uma exposição temporária: “Franco, Vitória, República, Impunidade e Espaço Urbano”. Antes não tivessem voltado.

Organizada com a melhor das intenções pelo prefeito Gerardo Pisarello (“Queria chamar atenção para os crimes do franquismo e a impunidade que perdura mesmo numa democracia como a nossa”), muitos catalães a viram como uma provocação. Aos gritos de “Nada de fascistas em nossas ruas!”, dezenas de universitários e separatistas as hostilizaram desde a abertura, na segunda-feira.

Sua maior atração era uma estátua equestre de Franco, esculpida em 1963 por Josep Viladomat, instalada no castelo de Montjuïc e, depois, toda suja e grafitada, recolhida a um armazém por motivos de segurança onde, há 8 anos, vândalos decapitaram a figura do caudilho. Recebida com vaias e ovos, adornada com uma cabeça de porco onde ficava a do generalíssimo e até por uma boneca inflável, a estátua acabou derrubada e quebrada na noite de quinta-feira por três jovens iconoclastas, no sentido mais puro da palavra.

Por mais polarizada que ainda esteja a Espanha, o antifranquismo venceu a batalha final (ou póstuma) entre republicanos e monarquistas, democratas e fascistas, progressistas e tridentinos – no imaginário, então, foi um triunfo absoluto. Um novo Franco parece hoje tão inimaginável, na Espanha, quanto um novo Hitler na Alemanha ou um novo Stalin na Rússia e um novo Mussolini na Itália, a despeito dos esforços em contrário de Berlusconi e Putin.

O avatar italiano caiu em desgraça, o russo continua dominando todas as estepes. Mês que vem Putin irá celebrar os 75 anos de um dos mais exaltados feitos da União Soviética na resistência à invasão nazista. Em novembro de 1941, 28 soldados sob o comando do general Ivan Panfilov defenderam Moscou sem armamentos adequados e destruíram 18 tanques alemães. A epopeia rendeu um dos maiores blockbusters do cinema russo, Os 28 Homens de Panfilov, a ser lançado daqui a três semanas, com Putin sentado na melhor poltrona da sala exibidora. O enfrentamento ocorreu, mas os exageros heroicos foram inventados por um militar jornalista, com incentivo de Stalin, que na época precisava criar um Leônidas soviético para levantar o moral das tropas e da população.

Como Stalin, Putin prefere o mito à história. Resta aguardar para ver de que lado surgirá, se surgir, um novo Panfilov, se falando sírio ou ucraniano.

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