Um escândalo sufocado por outro

O bombardeio no Camboja promovido pelo governo Nixon morreu diante do caso Watergate. Morreu de tédio

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2009 | 09h00

Durante 37 anos o ex-jornalista do New York Times e há tempos advogado Robert M. Smith invejou de longe o sucesso e o enriquecimento que o escândalo Watergate proporcionou à dupla Bob Woodward-Carl Bernstein; sem dar bandeira de que tivera tudo para usufruir a fama e os milhões em direitos autorais contabilizados pelos dois repórteres do Washington Post. Há dias o próprio Times tornou público o segredo de Smith, liberando-o de um fardo, o segundo mais pesado de sua vida. O primeiro, obviamente, foi perder para Woodward & Bernstein o furo da invasão, em junho de 1972, da sede do Partido Democrata no edifício Watergate por meliantes ligados ao governo de Richard Nixon.

 

Dois meses depois da invasão, Smith, então repórter da sucursal do Times em Washington, almoçava num restaurante chique da capital americana com o diretor do FBI, L. Patrick Gray III, quando este, sem mais nem menos, revelou que o presidente e seu secretário de Justiça (John Mitchell) estavam "metidos num crime". À parte mencionar nominalmente um destacado integrante do comitê de reeleição de Nixon, Donald Segretti, mais não disse.

 

Sem saber como qualificar a revelação de Gray, se denúncia patriótica ou casca de banana, Smith seguiu direto para a sucursal, relatou tudo ao chefe de redação, Robert Phelps. Como no dia seguinte se ausentaria do jornal por três meses, para concluir um curso de direito, resumiu a conversa do almoço numa fita cassete, entregue a Phelps para as devidas providências. Na semana seguinte, Phelps saiu de férias, sem repassar as anotações de Smith à sua equipe de repórteres ou mesmo informá-la da inconfidência do chefe do FBI. E pensar que Seymour Hersh, o maior repórter investigativo em atividade naquela época, fazia parte dela.

 

No vácuo criado por esse conluio de coincidências, falta de sorte e inércia, o Washington Post entrou e lavou a égua. O resto vocês viram em Todos os Homens do Presidente. Detalhe irônico: Mark Felt, vulgo "Deep Throat", o informante misterioso de Bob Woodward, era subordinado de Gray no FBI. Enquanto Felt liberava informações para Woodward numa garagem, seu chefe incinerava documentos que pudessem comprometer Nixon.

 

Até Watergate, o Post não era páreo para o Times. Todos os segredos do poder chegavam antes à redação da Velha Dama Cinzenta. As atas "secretas" da Conferência de Ialta, em 1945, com as negociações entre Stalin, Roosevelt e Churchill, foram publicadas em primeira mão pelo Times, graças ao furão James Reston. Os sigilosos Documentos do Pentágono sobre a guerra no Vietnã, contrabandeados por Daniel Elsberg, saíram primeiro no Times; o Post pegou o bonde andando. A partir de Watergate, e sem um jornalista com o faro e a estamina de Reston chefiando a sucursal de Washington, o fiel pendeu para o outro lado. O Post também passaria a perna no concorrente ao revelar o escândalo Irã-Contras.

 

No caso dos bombardeios clandestinos do Camboja, de março de 1969 a maio de 1970, o Times levou a melhor. Muitos analistas consideram esse episódio bem mais condenável que a invasão da sede do Partido Democrata. Watergate foi um crime interno, a rigor, mero ato de espionagem, amadoristicamente executado e mal administrado pelo seu principal beneficiário, ao passo que o ataque ao Camboja foi uma violação das leis internacionais, uma agressão à população civil de um país oficialmente neutro, um desrespeito à Constituição e ao Congresso, pois planejado e realizado na surdina, por ordem expressa do próprio presidente. Em nome da "segurança nacional".

 

Foram 3.630 ataques com aviões B-52. Total de bombas despejadas sobre o leste do Camboja: 100 mil toneladas. Tudo meticulosamente articulado e abafado por uma falange militar-tecnológica cuja obediência ao chefe do Estado Maior, general Earl Wheeler, era monitorada todos os dias pelo presidente. Nem o segundo na hierarquia da Força Aérea ficou sabendo da operação. Para todos os efeitos, as bombas estavam sendo despejadas no Vietnã.

 

A primeira menção aos bombardeios saiu no Times de 9 de maio de 1969, assinada por William Beecher, pau-mandado (e depois funcionário) do Pentágono. Ninguém a levou a sério, por desconfiar que Wheeler estivesse ajudando Nixon em sua propaganda de guerra, exibindo o presidente como disposto a tudo para forçar Hanói a uma negociação. Em 2 de junho, a coluna Periscope da revista Newsweek publicou uma nota sobre os ataques, incriminando Nixon - mas ficou nisso. O próprio autor da nota, Lloyd Norman, veterano correspondente da revista no Pentágono, amorteceu-lhe o impacto: "É um fato menor na guerra".

 

Não era. Mas, até porque blindado pelo governo e pelos militares, não apresentava desdobramentos, não expunha culpados, não tinha "apelo jornalístico". E o silêncio perdurou por mais quatro anos.

 

Até ser quebrado pelo Times. Na edição dominical de 15 de julho de 1973, um furo de Seymour Hersh: o major da Força Aérea Hal M. Knight revelaria a um comitê do Senado como ajudara a esconder os relatórios sobre os bombardeios, no início de 1970. Hersh ainda escreveria mais seis reportagens de primeira página sobre o escândalo, naquela semana. Escolada pela cobertura de Watergate, a mídia, com outra disposição, correu atrás.

 

Mas, em três semanas, o assunto voltou a sumir do noticiário. A opinião pública só tinha olhos para as investigações sobre Watergate e sua fartura de implicados. A pá de cal foi um discurso de Nixon, assumindo toda a responsabilidade pelos bombardeios. "Quem iria processar Nixon pela morte de alguns camponeses cambojanos?", perguntou Clifton Daniel, chefe da sucursal do Times em Washington. Com um só culpado, além do mais previamente "indultado", o escândalo do Camboja morreu sufocado pelo tédio.

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