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Silvana Garzaro/Estadão
Silvana Garzaro/Estadão

'Um Estudo em Branco e Preto', de Mafra Carbonieri, é um suspense que examina a morte da moral

O narrador e protagonista principal deste estranho romance é um advogado outrora culto e bem posto na vida que vai se deteriorando física e moralmente

Aurora Bernardini*, Especial para o Estado

23 de janeiro de 2021 | 16h00

O narrador e protagonista principal deste estranho romance é um advogado outrora culto e bem posto na vida que vai se deteriorando física e moralmente, presa dos males de uma terrível esquizofrenia que não lhe tira a sapiência, mas a torna terrivelmente pungente e – principalmente – o torna potencial assassino de sua própria mulher, testemunha de seu desfazimento.” Informo que tenho duas mentes “ – diz ele – “ uma que raciocina e outra que sabe. Nasci assim e não me queixo. Posso ver o que a maioria não enxerga”.O ponto alto do livro, como costuma ser em Mafra Carbonieri, é a linguagem, riquíssima e cativante, destilando essências que configuram estória e história: “A sociedade contemporânea educa o homem para o anonimato. Mas pouco me importa sair da sombra pela fresta fluorescente do crime. Ou então: “A covardia de transmitir a paixão a um ato do acaso...os hipócritas que desprezam a covardia se esquecem de que só ela substitui a coragem. De resto, só há acaso: a vida não passa de acasos assimétricos”... “A coragem começa pelo medo”, “O absurdo sempre eriça os pelos”, e assim por diante. 

Muitas vezes, a memória atilada e o acaso premente levam-no de volta a suas leituras: citações do passado mais do que presente, como esta do velho Eça: “ O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos”.

Mas não só. Há visões do protagonista que raiam o paranormal e nos surpreendem por sua veracidade. Como no capítulo inteiro dedicado ao gato, em que o protagonista, de volta de uma estada no hospital e assistido pela mulher que o irrita, servindo-o “ indisfarçavelmente, com um prazer conjugal”, revive uma das fantasias em que ele a teria matado. Obviamente, a mulher está viva. Mas o gato, “peludo, enorme, pardo, com estrias negras e brancas, farejou caprichosamente o lugar onde tropecei no machado, depois de esquartejar minha mulher e arrastar seus restos para o quintal. Tentei me aproximar, receptivo e sedutor, mas ele me ameaçou com um chiado enquanto rosnava encolhendo e desencolhendo as unhas”.

Quando, após um curioso jogo de espelhos com seu duplo, a mulher desaparece, ele é considerado responsável, submetido a duas “ entrevistas” e internado numa clínica. Lá, esquiva-se a qualquer cura (o paciente pode ser médico de si mesmo) e através dos processos de sua lógica interna ajuda a descobrir o movente e desvendar o mistério da morte de uma outra paciente.

O autor, Mafra Carbonieri (1935-) detentor de mais de doze prêmios nacionais e internacionais para prosa e poesia, e que também é juiz criminalista e que estudou a fundo os meandros dos esquizofrênicos, sabe levar-nos, através de um suspense que eclode e se desdobra no final, a críticas alucinadas, mas atualíssimas de nossa realidade de hoje.

*AURORA BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE LITERATURA RUSSA NA USP

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