FEDERICO PARRA/AFP
FEDERICO PARRA/AFP

Um favor a Maduro

Elevar a Venezuela à categoria de ‘ameaça aos EUA’ deve fortalecer no curto e médio prazos o fragilizado governo de Caracas, avalia diplomata brasileiro

Marcos Azambuja, O Estado de S. Paulo

14 Março 2015 | 16h00

Nas últimas semanas, à medida que o velho contencioso entre Havana e Washington parecia (como ainda parece) entrar em uma fase de superação depois de mais de 50 anos de um enfrentamento largamente estéril e, no fim das contas, inútil e, para muitos cubanos, cruel e doloroso; e quando as relações interamericanas pareciam poder entrar em um novo ciclo mais construtivo e desanuviado, as relações entre Caracas e Washington se deterioraram de forma abrupta nos últimos dias e são candidatas a ocupar o lugar deixado vago por aquela interminável tensão entre Cuba e os Estados Unidos, cansado resíduo da Guerra Fria que nos leva de volta, na busca de suas origens, às décadas de 1950 e 60 do século passado. 

Foi surpresa para mim a linguagem adotada faz poucos dias pelos Estados Unidos ao caracterizar, em um ato do Poder Executivo, o regime de Caracas como uma “extraordinária ameaça para a segurança dos Estados Unidos”. A linguagem me pareceu tão distante da realidade que fui buscar uma explicação para sua utilização. Esse tipo de linguagem e conceituação seria indispensável, pelo que estou informado, para que os Estados Unidos possam aplicar sanções contra a Venezuela e, para tanto, era preciso elevar os gestos e as atitudes de Maduro do nível de meros irritantes em que habitualmente são colocados para o patamar quase absurdo de atos que representariam uma verdadeira ameaça para Washington.

A reação imediata e, em boa medida, quase automática de vários governos de países latino-americanos foi colocar o episódio na moldura das tensões habituais entre os vizinhos deste hemisfério.

De minha perspectiva, penso que a iniciativa dos Estados Unidos tenderá, paradoxalmente, a fortalecer no curto e no médio prazos o governo de Maduro, que estava bastante fragilizado tanto politicamente quanto do ponto de vista econômico.

A iniciativa de Obama permitiu que Maduro se valesse de sua herança “bolivariana” e voltasse a utilizar, embora com menos verve e talento, alguns dos recursos retóricos e histriônicos que tanto serviram – e por tantos anos – a Hugo Chávez.

Minha avaliação – e vejo que é compartilhada por muitos analistas – é de que Washington, ao retomar uma linguagem enfática e ameaçadora, cancelou algumas vantagens que sua política de moderação e acomodação havia conquistado na América Latina e o governo norte-americano volta a ser percebido por muitos, em particular pelos que compartilham em maior ou menor grau o ideário chavista, como um grande bully truculento em suas relações com seus vizinhos hemisféricos, especialmente aqueles que, por boas ou más razões, entram em rota de colisão com os objetivos da superpotência.

De onde me coloco, o governo da Venezuela parecia estar perdendo força e altitude atingido pela grande queda dos preços do petróleo (de que depende em mais de 90% de suas exportações) e, enfrentando uma situação crítica de desabastecimento e pressões inflacionárias, não parecia ter fôlego para grandes aventuras em seu espaço geográfico e em seu entorno imediato e preocupava-se sobretudo em procurar evitar que a insatisfação cada vez mais generalizada ameaçasse o próprio mandato de Maduro.

As explicações para o gesto norte-americano, acredito, devem ser procuradas no âmbito da política interna daquele país e possivelmente como uma jogada de Obama para se fortalecer como um líder que pareça mais decisivo e menos hesitante – e com isso procurar satisfazer grandes setores conservadores do país e seu complexo industrial-militar, que reclamam que os Estados Unidos usem de maneira mais vigorosa seu imenso poder geopolítico e militar como resposta a qualquer provocação ou atitude que possam parecer um desafio. Serviria, também, como um gesto do presidente para fortalecer uma candidatura democrática a sua sucessão buscando evitar ser visto por indecisão ou inércia apenas como um lame duck, a rotulação cruel que recebem os líderes americanos que, pelas regras do jogo, não podem ter mais futuro político ao se aproximar o fim de seu segundo e último mandato.

O episódio surpreendeu quase todos os observadores pela elevação do nível de tensões entre Caracas e Washington, por parecer não estar em sintonia fina com o estilo Obama e porque as medidas propostas pelos americanos até agora parecem ser mais inócuas do que verdadeiramente eficazes, já que não afetam o mercado do petróleo venezuelano e, isso não ocorrendo, tudo o mais parece supérfluo e acessório.

O governo Maduro, embora evidentemente fragilizado, não parece às vésperas de um colapso. Contaria ainda com a fidelidade das Forças Armadas, que não parecem dispostas a se engajar em um novo golpe semelhante àquele que fracassou contra Chávez em 2002. O regime conta ainda com um apoio popular não negligenciável e a ação norte-americana deverá produzir uma reposta previsível de veemente caráter nacionalista e anti-ianque.

Por outro lado, é igualmente evidente o desgaste da situação em Caracas que, deixada a si mesma, deveria levar a um alteração do regime em prazo mais ou menos breve, sobretudo, como se presume, se os preços do petróleo ficarem nos patamares muito baixos de agora.

Para o Brasil, o que acontece é, ao mesmo tempo, inoportuno e incômodo. O Brasil deve buscar uma reaproximação pragmática com Washington depois de alguns episódios (escutas telefônicas clandestinas, etc.) que nos distanciaram. A diplomacia presidencial que funcionou tão bem entre FHC e Clinton e entre Lula e Bush não parece operar nos mesmos níveis de cordialidade entre Dilma e Obama. O Itamaraty, com Mauro Vieira e Sérgio Danese, está em boas mãos e, se não sofrer interferências externas, levará o barco de nossos interesses a bom porto O momento reclama sobriedade, profissionalismo e uma avaliação lúcida de nossos interesses. A Venezuela, como vizinho e como mercado, importa muito. Os Estados Unidos são o parceiro decisivo para que possamos superar o momento difícil econômico e comercial que atravessamos.

O Brasil atravessa um momento delicado. Nossas margens de erro se estreitaram e cabe evitar que qualquer imbróglio externo provoque uma turbulência adicional e agrave os riscos a que já estamos sujeitos na passagem delicada que enfrentamos.

MARCOS AZAMBUJA É DIPLOMATA, FOI EMBAIXADOR DO BRASIL NA FRANÇA E NA ARGENTINA, SECRETÁRIO-GERAL DO ITAMARATY, COORDENADOR DA CONFERÊNCIA RIO 92 E CHEFE DA DELEGAÇÃO DO BRASIL PARA ASSUNTOS DE DESARMAMENTO E DIREITOS HUMANOS EM GENEBRA

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