Um furo n'água que deu certo

Com o insucesso da prospecção em terra, fomos procurar no mar. Havia muito óleo

Giuseppe Bacoccoli*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 22h14

Italiano por nascimento, brasileiro por opção, geólogo por vocação, encantei-me pela exploração de petróleo depois de um estágio de campo realizado, ainda como estudante de geologia, no verão de 1964, na Petrobrás. Mais precisamente, em Santo Amaro da Purificação, no coração do Recôncavo Baiano.Sempre vi algo de épico e mitológico na exploração de petróleo. Afinal, ele encerra em si a energia do sol, e explorar petróleo significa arrancar das trevas do subsolo e libertar a luz do sol que outrora brilhou na superfície do planeta. Visão poética esta, provavelmente um tanto dissonante daquela, por exemplo, dos ambientalistas.Em 1965, ingressei na Petrobrás como geólogo e lá fiquei até 1997, exercendo várias atividades sempre estritamente ligadas à exploração de petróleo. Comecei pelo Recôncavo Baiano. Depois, convocado para trabalhar no mar, acompanhei a perfuração do primeiro poço offshore do Brasil, em 1968. Presenciei, da sede da Petrobrás, no Rio de Janeiro, a chegada dos primeiros dados geofísicos e geológicos das bacias marítimas brasileiras: novas e desconhecidas fronteiras exploratórias. Entre tantas, a da Foz do Amazonas, as do Nordeste, as do Sudeste (Espírito Santo, Campos, Santos) e Pelotas. Cada qual surgia como oportunidade, nova perspectiva, fonte de esperança, potencial expectativa de sucessos animadores ou grandes decepções.Participei, com orgulho, dos trabalhos exploratórios que antecederam as primeiras descobertas na prolífica Bacia de Campos, em 1974. Tornei-me gerente de exploração, ganhando postos que facilitavam a visão de todo o processo em todo o Brasil. Torci, sofri e vibrei: a descoberta na Amazônia, a Bacia Potiguar, os campos gigantes das águas profundas e as tantas bacias que seguem improdutivas... Mesmo fora da Petrobrás, continuei e continuo acompanhando a epopéia desta grande jornada.Apesar de meu otimismo e entusiasmo juvenil, não foi fácil trabalhar em exploração de petróleo no começo. O Brasil, considerado durante muito tempo um país sem petróleo, era, na década de 60, apenas um país com pouco petróleo, dada a modesta produção terrestre, oriunda dos campos do Recôncavo e da Bacia de Sergipe-Alagoas.Nos EUA, o poço do coronel Drake, na Pensilvânia, revelara petróleo em 1859. Ainda no século 19 havia petróleo jorrando abundantemente também na Rússia, no Oriente Médio e aqui mesmo na América Latina, em vários países vizinhos do Brasil, como o México, a Venezuela, o Peru, a Colômbia. Mas o Brasil - rico em ouro, pedras preciosas e muitos outros minérios - continuava sem petróleo. Em 1939, ocorre a primeira descoberta subcomercial em Lobato. Mas a primeira descoberta comercial, ainda no Recôncavo Baiano, só ocorreria em Candeias, em 1941, mais de 80 anos depois do poço do coronel Drake.Em que pesem os esforços do Conselho Nacional do Petróleo e, depois, da Petrobrás, o petróleo brasileiro continuou raro e escasso durante muito tempo, praticamente até a expressiva contribuição da fantástica Bacia de Campos, mais de um século depois do poço da Pensilvânia. Oriundo do Rio de Janeiro, fui obrigado a trabalhar inicialmente na Bahia. Dizia meu chefe na Petrobrás: "O petróleo está lá e é para lá que você vai". Em 1968 chamaram-me de volta ao Rio de Janeiro para trabalhar na exploração no mar. Com o insucesso das bacias terrestres, já preconizado pelo norte-americano Walter Link, quando chefe da exploração da Petrobrás (1954-1961), finalmente decidira-se iniciar a exploração na água, em finais dos anos 60. Logo nos primeiros poços, descobriram-se muitos campos em águas rasas, principalmente em Sergipe (Caioba, Guaricema etc.), mas também na Bacia Potiguar (Ubarana) e no Espírito Santo (Cação). Embora numerosos, eram campos relativamente pequenos, alguns certamente subcomerciais, com o petróleo ainda a menos de US$ 2 o barril. Paradoxalmente, e apesar de tantos esforços em transferir e adaptar ao Brasil a tecnologia de exploração de petróleo no mar, éramos premiados apenas com acumulações semelhantes às terrestres, ainda incapazes de garantir a auto-suficiência nacional, a preços competitivos. Nem o mar dera certo, e o pessimismo a todos abatia. Lembro a frase de um colega: "Melhor sair da Petrobrás e procurar trabalho na área de mineração, muito mais promissora".A situação somente começaria a se alterar em 1974, com as primeiras descobertas na Bacia de Campos. Eram acumulações "diferentes", bem maiores quanto aos volumes de reservas e potencial de produção, mas, desde o início, situavam-se em águas profundas, sucessivamente mais profundas, no limite das tecnologias então disponíveis. O primeiro choque do petróleo, em 1973, já elevara o preço do barril para mais de US$ 10. Com o segundo, em 1979, o preço saltaria para mais de US$ 35, em moeda da época. Isso trazia conseqüências muito negativas para o País e nos forçava a criar e desenvolver tecnologia e intensificar esforços no aumento da produção das descobertas da Bacia de Campos. Em 1980 traçamos um plano extremamente ousado, desenhado para atingir em 1985 uma produção nacional de 500 mil barris/dia. Com persistência, ousadia e tecnologia, a meta foi atingida, mesmo antes do previsto. O Brasil não seria mais um país com pouco petróleo.Depois vieram os campos marítimos de Santos, do Espírito Santo e de outras bacias. Até as bacias terrestres voltaram a responder positivamente. Em 1997, com a abertura do setor brasileiro do petróleo, multiplica-se o número de operadoras de exploração no Brasil e aumenta a competitividade. Nesse ambiente a Petrobrás se solidifica e cresce, apesar da perda da condição do monopólio.Mais recentemente, com uma incrível produção de mais de 2 milhões de barris por dia, comemoramos a auto-suficiência em petróleo deste mesmo país durante muitos anos considerado carente. Esta semana recebemos a notícia de mais uma grande e fantástica descoberta, desta vez na Bacia de Santos, com potencial de levar o Brasil à condição de exportador de petróleo, num novo salto de escala.Restam ainda muitos desafios. O primeiro é o de busca de auto-suficiência também em gás natural, livrando definitivamente o País de incômodas dependências externas. O segundo é o de estabelecimento da produção em tantas bacias brasileiras ainda de fronteira, para não dizer secas. O terceiro e último é o de manter um mercado de petróleo aberto e saudavelmente competitivo. Para quem chegou com um século de atraso e hoje é reconhecido como destacado produtor e futuro exportador, esses desafios certamente serão vencidos com a mesma garra, persistência e competência que tanto caracterizaram nosso passado. * Giuseppe Bacoccoli, geólogo, trabalhou mais de 30 anos na área de exploração da Petrobrás. Foi consultor da indústria e hoje é pesquisador da Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia da UFRJ

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