'Um governo de assassinos'

É hora de o mundo mostrar a Assad que ele está sozinho, pede advogada síria que fugiu do regime

O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h05

CAROLINA ROSSETTI

Agitávamos ramos de oliveira sobre as cabeças, mas as forças de Assad abriram fogo". É assim que a advogada Catherine Altalli se recorda da manifestação em Harasta, leste da Síria, que terminou em massacre. Era a sexta-feira antes da Páscoa, em abril, e os eventos da Tunísia e Egito já começavam a contagiar, ainda que timidamente, os sírios. "Pedíamos liberdade, democracia e justiça", diz a ativista de direitos humanos e defensora de presos políticos desde 2007. Era só o início. Oito meses depois, as manifestações contra o ditador Bashar Assad continuam, a reação do regime se tornou mais dura e os mortos, segundo relatório das Nações Unidas, já são 4 mil.

Catherine Altalli fez parte de um grupo organizado pela Anistia Internacional de ativistas que se reuniu nessa semana com representantes da Rússia e Índia, dois países que têm votado a favor do regime sírio no Conselho de Segurança (CS) da ONU, para pedir mudanças na postura diplomática desses países. "É hora de a comunidade internacional mostrar que Assad está sozinho", diz ela. Presa em maio por participar de uma manifestação em Damasco, a advogada ficou em poder da polícia política por dois dias. Foi libertada, mas logo se viu impedida de continuar trabalhando. Sob constante vigilância do regime, em setembro decidiu deixar o país para se juntar a outros opositores exilados. Catherine é membro do Conselho Nacional Sírio, grupo reconhecido pela França como legítimo representante dos dissidentes. Nesta entrevista, ela imagina o futuro pós-Assad e diz que "a única opção é uma Síria livre, democrática, pluripartidária e secular. Não seremos mais governados por assassinos".

Até quando Assad aguenta

"Se continuar recebendo apoio de aliados-chave como a Rússia, ele conseguirá se manter ainda por alguns meses. Isso seria desastroso. Precisamos ouvir do CS uma condenação contra Assad, uma mensagem clara e incisiva de que atos de violência não serão mais tolerados. A comunidade internacional não pode mais ser cúmplice, por falta de ação, dos crimes cometidos. É hora de mostrar a Assad que ele está sozinho.

A demora do Ocidente

"Temos informação de que o número de mortos é o dobro do que a ONU conseguiu contar. Só teremos a real do banho de sangue cometido nesses nove meses, depois que o ditador for deposto. Ele é um assassino e precisa ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional como criminoso de guerra. Não podemos ceder nisso. A comunidade internacional demorou a agir e só agora começou a pressionar seriamente o regime com sanções econômicas. É importante estabelecer uma zona de exclusão aérea. Um bombardeio do regime a Homs, no leste, matou opositores e governistas. A população não tem como se proteger. Pessoas estão fugindo desesperadas para o Líbano, Turquia e Jordânia. Se conseguirmos estabelecer, com ajuda da comunidade internacional, zonas de segurança dentro do país, desertores das forças do regime terão para onde ir. Hoje, os que tentam fugir são executados.

Judiciário? Mero teatro

Quando Assad liberta 900 presos políticos, como fez quarta-feira, é porque prendeu outros mil. Esse é o jogo dele: enganar a comunidade internacional. Assad quer ganhar tempo e impedir uma decisão desfavorável do Conselho de Segurança. Só em Homs pelo menos 4 mil estão presos por participar das manifestações. O Judiciário é completamente corrupto e os julgamentos, mero teatro. Os juízes são cooptados pelo regime e só cumprem ordens. Por isso a reforma do Judiciário é uma das principais demandas dos opositores.

Lealdade pelo medo

"O pai de Bashar, Hafez Assad, usurpou o poder no golpe de 16 de novembro de 1970. Livrou-se de todos os oficiais do Exército e das forças de segurança que não fossem leais a ele. A lealdade pelo medo é o que mantém o poder dessa família. Assim Hafez se sustentou por mais de três décadas e deixou o filho como sucessor. Quando tomou o poder, Hafez reescreveu a Constituição para que servisse a seus interesses. Determinou que o Partido Baath, o dele, seria o líder do Estado e da sociedade. Permitiu que houvesse os Partidos da Frente Nacional, com cinco legendas, mas apenas de aliados. A oposição foi proibida. A Constituição determinou que o presidente seria também chefe do Partido Baath, da Frente Nacional e da Suprema Corte. E assim, os Assads mantêm o país nas mãos.

O massacre silencioso acabou

"Assad pai era um líder sanguinário. Em 1982, ele destruiu a cidade de Hama, no oeste, sem que o mundo soubesse. Em 2011, o filho fez o mesmo, só que não entendeu algo essencial: não é mais possível cometer massacres silenciosamente como seu pai fazia. Crimes agora são registrados por câmeras de celular e divulgados pela internet. O mundo todo está vendo, ao vivo, a carnificina. Não sabemos o que acontece nas prisões políticas, mas um dia saberemos.

Quem é a elite que apoia o ditador

"Os homens de negócio que estão do lado de Assad não são empresários de verdade. Se tornaram empresários porque o regime é corrupto e permitiu que eles o fizessem. Um dos maiores empresário sírios é um primo de Assad que pegou dinheiro do regime. Assad criou a elite abonada que o apoia corrompendo esferas da política e da economia. As sanções da Turquia, da Europa e dos árabes vão drenar os recursos financeiros que mantêm a estrutura do regime.

Quem são os opositores

"O Conselho Nacional Sírio (CNS) é o grupo de oposição mais bem organizado que melhor representa os manifestantes dentro e fora da Síria. Há outros grupos, mas são menores, como a Irmandade Muçulmana. O CNS é composto por todos os setores da sociedade: curdos, árabes, persas, muçulmanos, cristãos, alauitas, drusos, ismaelitas. O Conselho atua a partir de sedes fora da Síria, uma na Turquia e outra na França. Dentro do país não há como organizar a oposição. O Exército de Libertação da Síria, de dissidentes das forças de Assad, também nos apoia. Não seremos mais governados por assassinos, mas por homens da lei. O primeiro passo é depor o regime. Depois, a oposição vai montar um governo de transição. Queremos diálogo, não com Assad, e sim com algumas pessoas de seu regime, aquelas que não tiveram as mãos manchadas com sangue ou corrupção. Teremos um Parlamento, o primeiro verdadeiramente representativo do povo.

Violência que não se esquece

"Estávamos andando pelas ruas de Harasta.Era uma manifestação de cristãos e muçulmanos. Agitávamos ramos de oliveira sobre nossas cabeças em sinal de paz. As forças de segurança começaram a nos cercar. Homens Assad surgiram de todos os lados. Estavam bem perto quando começaram a atirar diretamente contra a multidão. Cinco pessoas morreram na minha frente. Dez ficaram feridas. Tentamos nos esconder. Um tempo depois voltamos para recolher os corpos e buscar os feridos. Eu lembro de um menino, um adolescente, que estava machucado. Toda vez que a gente tentava chegar perto dele, as forças de segurança vinham na nossa direção. Estavam brincando com o garoto. Até que um homem acabou dando um tiro nele. Os manifestantes choravam, gritavam "traidores, traidores" para os mercenários. Levamos os feridos para um hospital, mas os homens de Assad chegaram logo depois e os sequestraram. Não havia mais o que fazer. Eu e um pequeno grupo fugimos."

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