Um grande mercado pequeno

Faltam jogadores excepcionais e carismáticos para atender ao enorme apetite financeiro do futebol

Hans Urich Gumbrecht*,

08 de junho de 2009 | 10h27

Notícias sobre "recordes no valor de transferências" surgem com a temporada, ano após ano, e com tranquilizadora previsibilidade, assim que os campeonatos europeus de futebol são decididos no final de maio. Mas por que as notícias de quebras de recordes estão quebrando recordes agora? A reposta não poderia ser mais simples e elementar. Um dos grandes clubes europeus, o Real Madrid, historicamente falando e na sua autoavaliação o maior de todos, ficou estranhamente para trás nos últimos anos, o que levou à reeleição e ao retorno de seu fabulosamente rico velho novo presidente, Florentino Pérez, que, por sua vez, prometeu trazer para a capital espanhola qualquer jogador eminente que pudesse ser tentado, fosse qual fosse seu preço - e alguns comentaristas acrescentam: fosse qual fosse sua utilidade para o clube. O Real Madrid e Florentino Pérez estimularam o mercado e excitaram a mídia.

 

Isso porque, diferentemente dos já antigos "velhos tempos" quando parecia proibido (ou ao menos marginal) falar sobre dinheiro no esporte, a cobertura sobre a situação e a competição financeira de clubes há muito se tornou um meio de participação e até de identificação para muitos torcedores. De fato, cada vez mais eles tornam suas expectativas dependentes das reservas de caixa dos times, até um ponto em que o melhor desempenho de alguns jogadores, ao menos para clubes secundários nas ligas dominantes e nos clubes dominantes nas ligas secundárias, é visto mais como um potencial para lucros financeiros do que como promessa de vitórias. O futuro atual de clubes brasileiros é estimado principalmente em função dos jogadores que eles podem negociar - e só depois em função dos jogadores que podem colocar em campo. Uma maioria impressionante de torcedores admira essas práticas, seus atores e as quantias financeiras não raro gigantescas envolvidas - em certa medida, eles até o fazem, eu temo, independentemente das consequências atléticas.

 

Outros torcedores, ao contrário, sobretudo aqueles com ambições intelectuais ou muito velhos, veem nesse mercado um sintoma do declínio do futebol. Eles acreditam que as matérias sobre riqueza de jogadores produzam um horizonte perigoso de ilusão para os jovens que sonham em se tornar o próximo Kaká, Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi, em vez de aprender uma profissão.

 

Alguns críticos simplesmente sentem que os grandes jogadores são financeiramente supervalorizados. Além das contas produzidas da sua ocasional mudança de time, alguns jogadores ganham, por exemplo, na Divisão Principal britânica em que os pagamentos são semanais, até £ 150 mil a cada sete dias, o que significa, numa semana britânica normal entre dois jogos, mais de R$ 200 mil por atuação. De novo, o que exatamente significaria ser "financeiramente supervalorizado"? Por que os grandes jogadores de futebol deveriam ganhar menos que altos executivos de corporações internacionais se existe um mercado que pode pagar sua renda e levando em conta que o tempo que eles podem permanecer ativos é bem menor que o daqueles executivos? Não será sempre e invariavelmente um sinal de ressentimento abordar a situação financeira de outrem de um ângulo moralista?

 

Pessoalmente, eu não tenho muito problema com esses números - em especial quando os vejo relacionados a meus jogadores e meus clubes favoritos. Afinal, quantos seres humanos podem tocar na bola como Cristiano Ronaldo e driblar seus adversários como Lionel Messi? E será que não deveríamos, em vez de reclamar, ficar felizes porque os jogadores de hoje mais provavelmente não compartilharão o destino do maravilhoso (eu não hesito em chamá-lo "o divino") Mané Garrincha, que dominou o futebol no início dos anos 60 e, por falta de conselheiros competentes, foi tão grotescamente mal remunerado que caiu no vazio social? Mais que imoral, eu acho o mercado internacional de futebol estranho como fenômeno econômico.

 

"Estranho" porque, em primeiro lugar e diferentemente das quatro grandes ligas profissionais nos Estados Unidos (beisebol, futebol americano, basquetebol e hóquei sobre o gelo), ele não tem regras que possam ser confiavelmente aplicadas; nenhum time de beisebol, por exemplo, fará uma oferta por um jogador antes que seu contrato com outro time expire, enquanto os contratos no mundo do futebol internacional são menos compulsórios que declarações românticas de amor. Isso parece indicar que, mais que tentar proteger coletivamente sua saúde financeira e sua sobrevivência atlética no longo prazo, os clubes de futebol se comportam como adolescentes prepotentes que acreditam em triunfos imediatos e pouco se importam com o futuro distante. Ademais, há pouquíssimos atores "reais" - se é que há algum - nesse mercado. Por "atores reais" quero dizer times que, dentro da racionalidade econômica média, podem dispor e conseguem lidar com as quantias envolvidas. O Manchester United provavelmente tem uma receita combinada de direitos de TV, ingressos e souvenirs que é mais ou menos proporcional a seus investimentos em jogadores (não por acaso, esse clube é da propriedade de americanos). Mas em vez de proprietários que agiriam nas linhas de seu interesse econômico, o novo Real Madrid, o velho AC Milan, o Inter e, até recentemente ao menos, o FC Chelsea, dependem das inclinações e do narcisismo de patrocinadores extraordinariamente ricos que, a qualquer momento, podem se retirar e assim arruinar "seus" clubes sem consequências legais. Quem pagaria o novo salário garantido de Kaká se o Real Madrid tivesse duas temporadas ruins, se Florentino Pérez morresse e seus herdeiros decidissem investir toda sua fortuna na produção de filmes de vanguarda?

 

Sobretudo, porém, o mercado internacional de futebol é muito estranho pela escassez de itens que podem ser negociados no nível de preço tabelado - em outras palavras: hoje, menos do que nunca, há jogadores excepcionais e carismáticos suficientes para o apetite dos patrocinadores, proprietários e clubes concorrentes. O fluxo tradicional de novos talentos marcantes vindos do Brasil e da América Latina desacelerou; curiosamente, há pouquíssimos jogadores africanos capazes de amadurecer até o nível da visibilidade internacional, como o grande Didier Drogba; Europa e Reino Unido juntos parecem produzir cerca de um jogador com qualidades de astro cada cinco anos (e as qualidades requeridas não são exclusivamente atléticas, é claro). Há Messi e Ronaldo sobre um nível - solitário - só deles; se por Kaká, o meio-campista francês Franck Ribéry (que em razão de um acidente de carro na infância não tem, muito literalmente, o rosto de um astro) e Alexandre Pato estão oferecendo quantias próximas da renda de Messi e Ronaldo, isso só ocorre em razão da escassez de talentos no mercado. Florentino Pérez, Roman Abramovich e Sílvio Berlusconi estão sob pressão para cumprir suas promessas - e se não há jogadores suficientes cuja capacidade atlética lhes permita fazê-lo, então eles têm de fabricar astros falsos pagando por jogadores menos capazes salários próximos aos dos verdadeiros astros. Um mercado muito estranho, de fato.

 

* Professor de literatura na Universidade de Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Cia. das Letras)

Tudo o que sabemos sobre:
Aliásfutebolcraque

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.