Um grita, o outro não escuta

Zelaya e Micheletti travam seu diálogo de surdos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2009 | 03h09

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Bigodão latino, botas de caubói, sombrero Stetson, Manuel Zelaya mais parece um vaqueiro daquelas antigas películas rancheras do cinema mexicano do que um presidente deposto. Não irradia simpatia, parece muito vaidoso, soberbo e gabola, mas nada disso importa diante do fato irretorquível de que ele foi deposto por um golpe militar, condenado no mundo inteiro.

 

MR. STETSON - Vaidoso, soberbo, gabola. Mas nada muda o fato de que foi deposto por um golpe condenado

 

Golpe sem futuro. Zelaya e seu "sucessor", Roberto Micheletti, já atravessaram o Rubicão, para um diálogo de surdos à beira do abismo. Ilhada, pressionada e boicotada pela comunidade internacional, entregue aos caos e à violência, corroída por um prejuízo diário de R$ 38 milhões, Honduras não tem outra saída senão retornar ao que era antes do último domingo de junho, com Zelaya de volta ao palácio presidencial, Micheletti ao Congresso e os militares golpistas aos quartéis. As eleições presidenciais de 29 de novembro seriam mantidas, Zelaya concluiria seu mandato em dezembro e passaria a faixa ao sucessor em janeiro; tudo voltaria ao status quo ante, com a direita insistindo em conspirar, caso não conseguisse eleger um candidato de sua confiança, ou nas encolhas, caso houvesse alguma chance de os golpistas serem exemplarmente punidos por desrespeitarem a Constituição.

 

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Os conservadores tinham Zelaya como um dos seus. Estrela da elite agrária, o vaqueiro de Catacamas concorreu à presidência pelo Partido Liberal, de centro-direita, com uma plataforma neoliberal: lei & ordem, redução dos gastos públicos, apoio à Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Empossado em janeiro de 2006, revelou-se um reformista enrustido: deu força aos sindicatos e outras organizações sociais, aumentou o salário mínimo em 60% ("para obrigar a oligarquia empresarial a pagar o que é justo aos seus empregados"), deu leite e lanche grátis às crianças e pensão aos velhinhos, peitou os mandachuvas acostumados a controlar a mídia, a Justiça, o Congresso e até a pauta presidencial. Já o acusavam de populista e demagogo quando, seduzido pelo petróleo subsidiado da Venezuela, trocou a Alca pela Alba bolivariana liderada por Hugo Chávez. Aí virou "traidor da pátria", "corrupto", "lacaio do socialismo e do narcotráfico".

Santo ele nunca foi. Fez algumas bobagens na presidência; combateu o oligopólio midiático hondurenho com o veneno errado (obrigando as emissoras de rádio e TV a transmitirem duas horas diárias de propaganda oficial), pressionou radialistas que se opunham sistematicamente ao governo, dizem até que tentou subornar um repórter do jornal El Heraldo. Tudo isso é café pequeno perto do que fizeram outros governantes hondurenhos, muitos dos quais alçados ao poder por uma quartelada, invariavelmente apadrinhada pelo governo americano e a United Fruits (atual Chiquita, ex-United Brands), a multinacional da banana. Como de hábito, a solução agora está nas mãos do Exército, a esta altura bem menos coesamente unido em torno dos golpistas.

A desculpa de "golpe preventivo" é furada porque baseada numa hipótese, em mera especulação, segundo a qual Zelaya usaria o plebiscito agendado para o dia 28 de junho para mudar a Constituição e reeleger-se presidente. Zelaya precisaria, primeiro, convencer o eleitorado da necessidade de uma nova Constituição, que só poderia ser redigida por uma assembleia constituinte, cujos trabalhos seriam inevitavelmente concluídos muito depois da posse do novo presidente. Ou seja, Zelaya não tinha como se beneficiar do "crime" que os golpistas, matreiramente, lhe imputaram. Eles, na verdade, não se preocupavam com a "perpetuação" de Zelaya na presidência, mas com outras mudanças, sobretudo socioeconômicas, eventualmente embutidas na nova Constituição.

Mesmo que Zelaya de fato tencionasse dar um golpe, "rasgar" a Constituição, e coroar-se rei do bananal, o general Romeo Vásquez não tinha o direito de sequestrá-lo e despachá-lo, de pijama, para a Costa Rica. Não que a Constituição de Honduras chegue ao requinte de proibir o embarque, em aeronaves, de presidentes depostos com roupa de dormir. Ela apenas proíbe que qualquer cidadão hondurenho seja entregue a autoridades estrangeiras. O general Vásquez e seus prepostos é que, concretamente, desrespeitaram as leis do país.

O governo americano, com razão sempre visto por trás de todos os golpes na América Latina, vacilou feio, deixando espaço livre para as fanfarronices de Hugo Chávez. É compreensível o pisar em ovos de Obama, avesso à diplomacia unilateral e de confronto, mas seu excesso de cautela e o chove não molha de Hillary Clinton só beneficiaram os golpistas.

O New York Times revelou que a Casa Branca fora informada do golpe com alguma antecedência e tentara em vão dissuadir os militares hondurenhos. Conforta saber que Obama não age como Bush, mas por que não foi mais rigoroso e vigoroso com a derrubada de Zelaya, se desde dezembro sabia das intromissões do embaixador americano em Honduras, Hugo Llorens, nos assuntos internos do país? Zelaya contou-lhe tudo numa carta. O mínimo que Obama poderia ter feito era afastar Llorens e outros diplomatas da era Bush da política externa americana.

Zelaya já esteve seis vezes em Washington depois do golpe. Nunca conseguiu encontrar-se com o presidente americano. Em 11 de agosto, 16 congressistas americanos enviaram carta a Obama, pedindo-lhe que "condenasse publicamente o uso de violência e repressão contra manifestantes pacíficos, a morte de militantes políticos e todas as formas de censura e intimidação dirigidas contra os meios de informação pelo governo hondurenho". Obama não se mexeu. Seria isso um sinal de que a Casa Branca não estava disposta a atritar-se com o governo Micheletti e, no fundo, achava conveniente que o impasse em Honduras perdurasse até o fim do mandato de Zelaya?

Especulações desse teor circulam freneticamente pela internet. Em seu visitadíssimo blog, a advogada Eva Golinger revelou ter ouvido do porta-voz do Departamento de Estado americano, Phillip Crowley, que seu governo "não considerava o que aconteceu em Honduras um golpe de Estado". E o que foi então? E o que devemos concluir dessa interpretação?

Golinger, e também Bill Weinberg (World War 4 Report) e Nikolas Kozloff (Counterpunch), inocentam o atual governo americano mas não os "agitadores" (como Otto Reich) e think tanks sediados nos Estados Unidos (International Republican Institute, Arcadian Foundation), que antes serviram aos interesses diplomáticos e corporativistas dos republicanos. É uma praga continental, que só as democracias plenas conseguem combater eficazmente.

SEXTA, 25 DE SETEMBRO

Máscaras na embaixada

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, acusa militares de atacar a embaixada brasileira com gas tóxico. Zelaya e seus seguidores sentiram náuseas, irritação nos olhos, dor de garganta e enjoo. O governo de facto considera a denúncia "totalmente falsa".

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