Um herói para chamar de seu

Mesmo sob as conspirações do mundo e a desconfiança de Darwin, há quem ouse se sacrificar pelo outro

Andrea Kauffmann Zeh*,

21 de junho de 2009 | 00h29

O heroísmo é um dos últimos enigmas do comportamento humano. Quando se trata de entendê-lo por meio de explicações racionais, é tão incompreensível quanto sua gêmea maligna, a brutalidade.

Os psicopatas são mais transparentes do que os heróis. Pelo menos já descobrimos o que os tornam perigosos: sua incapacidade de sentir qualquer empatia pelos outros. Já o heroísmo extremo é de difícil explicação científica. Trata-se de um impulso ilógico que desafia a biologia, a psicologia e o bom senso. Charles Darwin tinha dificuldades em explicar a ideia de se expor para salvar a vida de um estranho. "Aquele disposto a sacrificar a sua vida, como muitos selvagens fazem em vez de trair seus companheiros, frequentemente não deixam descendentes para herdar sua nobre natureza", observou Darwin, que consequentemente não conseguia encaixar o heroísmo na teoria da sobrevivência do mais forte.

Morrer pelos próprios filhos? Perfeitamente lógico. De acordo com Darwin, nossa única razão de existir é a de passar nossos genes para a próxima geração. Mas e morrer pelos outros? Contraproducente. Afinal, não importa quantos heróis fossem gerados, bastaria somente uma besta egoísta atleticamente sexual para minar toda a linhagem heróica. Os filhos dos egoístas se multiplicariam, enquanto os filhos do super-herói que seguissem o exemplo de seu superpai se sacrificariam até a extinção. Não é difícil de entender por que o comportamento heróico é raro.

Se o heroísmo é raro, a brutalidade, segundo Hannah Arendt, a teórica política alemã, é disseminada, como pôde constatar com o julgamento de Adolf Eichmann, acusado do genocídio de judeus. Hannah revelou à humanidade a banalidade do mal: a conclusão dos estudos psiquiátricos foi que Eichmann era terrivelmente normal, um novo tipo de monstro parecido com todos nós. O mal que vemos nos filmes é facilmente distinguível, mas, quando o inimigo não tem rosto nem endereço, isso o torna aterrorizante.

Gostamos de pensar que a linha entre o bem e o mal é impermeável, que as pessoas que cometem atrocidades estão no lado mal, nós no lado bom e que jamais cruzaremos a fronteira. Philip Zimbardo, da Universidade de Stanford, realizou em 1971 um controverso experimento sobre a banalização do mal conhecido como Experimento da Prisão de Stanford.

Para o experimento, foram escolhidos somente jovens inteligentes que não tinham história de envolvimento com crimes, drogas ou violência. Os voluntários foram submetidos a condições similares às desumanizantes das prisões, com um grupo selecionado aleatoriamente como guardas, outro como prisioneiros. Mas o que havia sido planejado para ser um experimento controlado tomou um rumo sinistro. Depois de rebeliões no 2º dia, os guardas começaram a utilizar formas de punição cada vez mais degradantes e os prisioneiros se tornaram cada vez mais passivos. Cada grupo absorveu o comportamento associado com seu papel mesmo não havendo recebido qualquer instrução. O experimento foi abortado após seis dias e somente graças a um ato heróico. Zimbardo considera esse ato a face mais importante do experimento.

Segundo Zimbardo, na ocasião, todos os pesquisadores envolvidos, inclusive ele próprio, além de um padre e um defensor público, foram incapazes de perceber as atrocidades que estavam acontecendo. Somente uma pessoa lembrou Zimbardo das condições inaceitáveis: uma subordinada que preferiu colocar sua carreira na reta a tomar parte na atrocidade.

O Experimento de Stanford revelou que os melhores indivíduos podem ser corrompidos, dependendo das circunstâncias. E que as situações que nos corrompem estão em qualquer lugar: no trabalho, na escola, em casa. Aqueles poucos indivíduos que resistem à banalização do mal são os que Zimbardo chama de heróis. Fica a pergunta que intriga cientistas como Zimbardo: e as circunstâncias capazes de trazer à tona o herói que vive em nós?

Existem heróis que dedicam sua vida a uma causa - Madre Teresa, Betinho, Chico Mendes. Essas pessoas são formidáveis. Mas é por acharmos que heróis são indivíduos superextraordinários, vestem farda de soldado ou de bombeiro, ou se comportam como o Super-Homem ou o Batman, que criamos a falsa impressão de que nenhum de nós pode ser um. No entanto, embora o heroísmo seja um comportamento raro, a maioria dos heróis são mais parecidos comigo ou com você.

Foi o que demonstraram os registros do Carnegie Hero Fund, criado por Andrew Carnegie, o empresário e filantropo escocês. Desde 1904, o Carnegie Hero Fund premia pessoas que espontaneamente praticaram atos de heroísmo extremo. O Fundo já avaliou mais de 80 mil casos de heroísmo e premiou quase 9 mil heróis, a maioria deles pessoas comuns que à primeira vista não tinham nada para serem heróis. Eram indivíduos que se encontraram nas mesmas situações em que outras pessoas fingiam não saber o que estava acontecendo ou que colaboravam com o avanço do mal, mas que optaram por reagir à situação dramática de outro ser humano, ou por desafiar o mal diretamente, mesmo se expondo e/ou expondo os seus. Um grande exemplo: o "mero" sargento Joe Darby foi o herói que expôs os abusos da prisão das forças armadas americanas em Abu Ghraib, no Iraque, e que, pelo "feito", ele e sua família sofreram toda espécie de ameaças. O auto-sacrifício depende fortemente dos valores morais que internalizamos: Um homem não se auto-sacrificará por dinheiro, mas pode fazê-lo gratuitamente, concluiu Carnegie.

Então, se todas as forças evolutivas e consequências desvantajosas conspiram contra o heroísmo, por que tal comportamento existe? Segundo o biólogo Lee Dugatkin, o heroísmo, uma forma de altruísmo, provavelmente data da época em que vivíamos em tribos nômades, onde as pessoas tinham entre si alguma conexão familiar. Ao cometer um ato heróico elas estariam salvando uma parte do seu pool genético.

Estamos cercados de situações que fomentam a banalização do mal. Para banalizar o bem precisamos construir circunstâncias contrárias àquelas que insidiosamente nos corrompem: uma sociedade detentora de sistemas que permitam a contestação, a crítica e a verdade.

Quem sabe assim não precisaremos de super-heróis até para garantir direitos básicos de cidadania, notáveis brasileiros que, por denunciar abusos nos corredores do poder, ainda sofrem com tramas de punição e descrédito - sinais enviados por pseudopoderosos a qualquer um que se atreva a se comportar heroicamente neste país.

*Geneticista, assessora de Relações Institucionais da Fundep, com pós-doutorado pelo Imperial Cancer Research Fund, em Londres

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