Editora Vestígio
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Um historiador reconta o Holocausto em linguagem simples

Laurence Rees, em 'O Holocausto: Uma Nova História', mostra preocupação didática e raro dom de síntese

Marcos Guterman *, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2018 | 16h00

Quem se propõe a escrever uma “nova história” a respeito de fatos já muito conhecidos deve saber que corre o risco de não conseguir cumprir a promessa – não ser que tenha algum documento inédito revelador de aspectos desconhecidos do acontecimento que pretende tratar e que, por isso, mude até mesmo o entendimento daquela história. Não é o caso do livro O Holocausto - Uma Nova História, do historiador e documentarista inglês Laurence Rees, que acaba de sair no Brasil pela editora Vestígio. Rees não produz uma “nova história”, pois nada do que está em seu livro é realmente novo.

Seria no entanto um erro descartar a obra em razão disso, pois se trata de uma extraordinária síntese desse que foi o maior crime já cometido na história da humanidade – o assassinato sistemático de 6 milhões de judeus pelos nazistas durante a 2ª. Guerra Mundial. Pode-se lê-lo como se estivéssemos a ver um documentário esclarecedor, no qual informações cruciais para o entendimento desse complexo acontecimento são intercaladas pelos depoimentos de algozes, vítimas e observadores, dando ao estudo de dados históricos e de seus entrelaçamentos necessariamente frios e metódicos o traço humano que lhes é subjacente. 

Nesse sentido, o volumoso estudo de Rees tem o frescor de uma novidade, pois combina, como raras vezes se vê na historiografia do Holocausto, uma linguagem simples com forte preocupação didática e grande capacidade de síntese, tudo isso aliado ao recurso de contar a história por meio de seus personagens.

A opção preferencial do autor Laurence Rees pelo lado humano da tragédia dos judeus europeus o distancia, por exemplo, da obra fundadora dos estudos do Holocausto, A Destruição dos Judeus Europeus, do historiador austríaco Raul Hilberg. Naquela monumental pesquisa, Hilberg tratou de descrever meticulosamente o processo de aniquilação dos judeus, desde a formulação das leis que retiraram direitos dos judeus na Alemanha pouco tempo depois que o ditador Adolf Hitler chegou ao poder, em 1933, passando pela segregação dos judeus em guetos e campos de prisioneiros, até chegar ao extermínio quase completo, a partir de 1941.

Rees descreve todo esse processo do Holocausto, mas dentro de um contexto social, político e econômico amplo. Sua obra, embora bem menor e menos ambiciosa que a de Hilberg, é mais acessível. Está longe de ser a única com tais características – A Alemanha Nazista e os Judeus, de Saul Friedländer, e o mais recente The Final Solution (A Solução Final, sem edição no Brasil), de David Cesarani, são duas referências incontornáveis e, em vários sentidos, melhores que a de Rees. No entanto, essa “nova história” é muito bem contada e não evita as principais controvérsias historiográficas que o tema suscita, a começar pela escolha do termo “Holocausto”.

Como se sabe, “Holocausto” remete ao ritual hebreu de sacrifício a Deus pelo fogo. Esse é um dos motivos que levam alguns judeus a rejeitar o termo, por relacionar a morte nos campos de extermínio a alguma forma de oferta a Deus, preferindo a palavra hebraica “Shoah”, que significa, simplesmente, destruição. Mas foi como “Holocausto” que o genocídio dos judeus europeus passou à História, e Rees não só opta por manter o termo como escolhe referir-se a ele, no título do livro, como algo singular, precedendo-o de artigo definido – ou seja, não é de qualquer holocausto que trata a obra, mas do único Holocausto, o massacre dos judeus durante a 2ª. Guerra. 

Rees, aqui, arrisca-se em campo minado, pois convencionou-se chamar de “Holocausto” o massacre não apenas de judeus, mas de minorias como ciganos e testemunhas de Jeová, sem falar dos prisioneiros soviéticos. Essa abrangência semântica permite que o termo seja usado também hoje em dia para qualificar qualquer massacre. Subtrai-se assim aos judeus a “propriedade” sobre o Holocausto, numa espécie de ato final de crueldade contra um povo que, em seu momento de maior fragilidade e em meio a um massacre sem precedentes, viu as portas de todos os países se fecharem para eles, sob os mais diversos argumentos.

Rees levanta esse aspecto, entre outros, para mostrar que o Holocausto poderia ter sido evitado se o mundo não tivesse virado as costas para os judeus. Várias foram as ocasiões em que os interesses políticos prevaleceram sobre os humanitários, mesmo quando já havia informações suficientes sobre o que se passava nos campos de extermínio.

O autor também não se furta de comentar o igualmente controvertido papel de algumas lideranças judaicas no morticínio. Ele mostra, sem meios termos, como esses dirigentes colaboraram para facilitar o trabalho dos nazistas em sua tarefa de aniquilar o povo judeu. No entanto, não deixa de salientar que as decisões tomadas naquelas circunstâncias não podem ser analisadas fora daquele contexto infernal – e mesmo um personagem execrável, como o tirano líder judeu do gueto de Lodz, Chaim Rumkowski, merece um julgamento menos moralista.

É disso, afinal, que o Holocausto é feito: colapso moral. Algozes e vítimas estavam todos sob os efeitos da “revolução social” empreendida pelo regime nazista, em que criminosos eram valorizados, e inocentes, perseguidos. Todos foram despidos de seu caráter humano, transformando-se em seres amorais vivendo um experimento totalitário. 

Cada passo desse processo de destruição – que, como mostra Laurence Rees, está longe de ser linear e que poderia ter sido interrompido bem antes de sua funesta conclusão se o mundo não cedesse às conveniências políticas e ao antissemitismo – é explicado com competência neste livro que, se não apresenta novidade, é certamente uma honesta introdução histórica a um tema inesgotável.

* É doutor em História pela USP, autor do livro 'Nazistas Entre Nós - A Trajetória dos Oficiais de Hitler Depois da Guerra' (Editora Contexto)

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