David Hockney
David Hockney

'Um Homem Só', de Christopher Isherwood, é reeditado décadas após esquecimento

Livro, que serviu de inspiração para o filme homônimo, estrelado por Colin Firth, virou referência

Matheus Lopes Quirino, Especial para o Estadão

23 de outubro de 2021 | 15h00

George Falconer é um típico inglês perfeccionista. Tamanho zelo se revela em suas abotoaduras, terno bem cortado e barba impecável. Da casa no Beco da Canforeira, onde mora há anos, ele observa o mundo exterior com a curiosidade de estrangeiro, mas não por ser forasteiro na ensolarada Los Angeles. Ele é um homem solitário de meia idade e homossexual, discreto, vivendo entre a casa e o trabalho. 

Embora tenha construído parte da vida onde está, a visão descortina para além dos olhos o típico sonho americano: crianças barulhentas e seus pais invasores daquele bolsão idílico. George precisa se levantar do trono, seu refúgio para refletir e espionar sem ser visto, começar o dia e ir para a ribalta, onde dará um discurso inspirador sobre medo e Aldous Huxley. O medo, segundo ele, é o instrumento de controle da sociedade americana. Não por acaso, o livro foi lançado nos EUA em 1964, década que vivia os efeitos colaterais do macarthismo e da crise dos mísseis. 

Em Um Homem Só, romance de Christopher Isherwood relançado depois de décadas no esquecimento, o leitor percorre um dia na vida desse professor de literatura, que foi interpretado no cinema pelo também inglês Colin Firth. Conhecido por retratar uma Berlim lendária, no período anterior à 2ª Guerra, Isherwood foi um escritor itinerante. Nascido há quase um século na Inglaterra, o escritor viveu parte da juventude na efervescente capital da República de Weimar, tendo retratado Berlim como centro do cosmopolitismo no velho continente. Ele acompanhou de perto a eclosão das vanguardas e a libertação sexual. 

O escritor perscrutou o submundo berlinense dos cabarés e bares intelectuais, tendo escrito, em 1939, Adeus a Berlim, romance tão bem-sucedido que inspirou o diretor Bob Fosse a realizar o clássico musical Cabaret. Nele transitavam mulheres e homens insinuantes, prostitutas e intelectuais. É essa atmosfera glamourosa que se lê no livro, adaptado nas telonas com Liza Minelli no papel da dançarina Sally Bowles e Michael York, como o alter ego do escritor.

Enquanto Adeus a Berlim diz muito sobre a juventude de Isherwood, o leitor que tem em mãos Um Homem Só, agora em tradução de Débora Landsberg, notará um escritor maduro que refinou o retrato do solitário, agora na meia idade. Ambientado em Los Angeles, onde Isherwood terminou seus dias nas montanhas de Santa Mônica, a história joga luz à autodestruição traiçoeira que a depressão provoca em George, após perder seu companheiro de anos. O périplo de um dia na vida do professor é um artífice recorrente na literatura, Isherwood, para os padrões da época, inova ao eleger um protagonista queer. Do autor, a Companhia das Letras também vai relançar em breve Adeus a Berlim. 

Isherwood inspirou contemporâneos a escrever sobre a homossexualidade de seu tempo, alguns deles seus amigos, como Stephen Spender, autor de O Templo, e o poeta W.H Auden. Mesmo hoje, escritores aclamados como Alan Hollinghurst (A Biblioteca da Piscina) e Garth Greenwell (O Que te Pertence) revelaram ter Isherwood como referência.

Em Um Homem Só, a angústia interior é o motor da narrativa. Isherwood trouxe para a literatura complexos que atormentam os gays, como a questão do culto à imagem, a solidão, a busca por um ideal perfeito de beleza, como queriam os gregos. Na trama, o professor se envolve com um de seus alunos, tema não inusual na literatura do gênero, contudo, se tratado com frescor, como fez Greenwell, é impossível não perceber a silhueta de Isherwood na história de Mitko. 

As imagens evocadas no romance são pensadas com cuidado para dar tom de contraste em um único dia, como o jogo de tênis que exala uma carga homoerótica e instiga o professor, à luz da manhã, bem como o trânsito dele pelas suas reminiscências na juventude e na academia local.

Do Eros, ele decai ao nauseante, simbolizado pela incursão em um hospital, ocasião em que George vai visitar Doris, uma conhecida. É interessante notar essa disputa entre a vida pulsando, emanando de determinados personagens, versus o fétido, que contamina o ambiente. A morte, essa personagem insubstituível na obra do escritor, é uma espécie de fim que se alastra ao longo do livro, que cede espaço ao breu, ao luar. 

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