JILL ZUCKMAN/REUTERS
JILL ZUCKMAN/REUTERS

Um lugar no céu

Nos anos 60, minha mulher via seus amigos deixando Cuba de avião e achava que o destino deles, NY, flutuava nas nuvens

Anthony DePalma, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 16h00

Durante muitos meses antes de minha mulher, Miriam, então apenas uma garota, sair de Cuba, em 1960, ela viu vários de seus colegas da escola elementar desaparecerem subitamente. Quando ficou sabendo que tinham partido para Nova York e viu aviões cruzando o límpido céu azul caribenho, ela imaginou que Nova York fosse algum lugar lá no alto, flutuando nas nuvens.

Ao chegar o momento de empreender a própria fuga para Nova York, Miriam foi socada num velho avião a hélice no aeroporto José Martí, em Havana. Sua avó, que estava voando com ela, havia prometido que iriam por apenas seis meses, tempo suficiente para os problemas em Cuba amainarem, e para o homem que causara os problemas, Fidel Castro, receber o que o esperava. Apesar de ter de dizer a Miriam que Nova York não ficava exatamente no céu, ela disse para a menina não se preocupar que estariam de volta a Cuba antes de ela completar 10 anos.

As coisas não saíram assim. Alguns meses depois de elas desembarcarem em Nova York, o velho presidente americano Eisenhower, irritado com a insolência de Fidel Castro e suas palavras ameaçadoras sobre comunismo, cortou relações diplomáticas com Cuba. Depois, o novo presidente americano, John Kennedy, lançou a desastrosa invasão da Baía dos Porcos. Fidel, temendo outra invasão, pediu ajuda à União Soviética e Kruchev enviou mísseis nucleares que colocaram o mundo à beira de uma guerra nuclear. Miriam nunca usou a palavra exílio para si, mas um enorme abismo geopolítico se abriu entre Nova York e Havana. Os seis meses viraram um ano, dois, três anos.

Aqui estamos agora, quase 54 anos e dez presidentes americanos depois, com um Castro ainda governando Cuba. As relações entre Havana e Washington estiveram numa dobra do tempo por mais de meio século, uma relíquia emperrada da Guerra Fria que pôs os Estados Unidos em conflito com todas as nações do hemisfério até Barack Obama decidir que poderia fazer história de novo.

Impedido de negociar com os republicanos sobre muitos assuntos, Obama pegou o telefone e concluiu um acordo com, de todas as pessoas, Raúl Castro, apoiando-se no declarado pragmatismo de Raúl para normalizar enfim as relações com Cuba.

Pareceu repentino, mas certamente não foi. Os anúncios pela televisão de Raúl, em Havana, e de Obama, em Washington, sobre o fim do impasse da Guerra Fria foram resultado de 18 meses de negociações secretas realizadas no Canadá e costuradas pelo papa Francisco. O acordo final envolveu espantosa gama de espiões e prisioneiros políticos, gestos humanitários, oportunidades comerciais e acordos que uniram esses inimigos formidáveis em objetivos comuns: relações diplomáticas normais, incremento de viagens, exclusão de Cuba da lista de Estados patrocinadores do terrorismo e troca imediata de três espiões cubanos por Rolando Sarraff Trujillo e Alan Gross.

Raúl foi rápido em assinalar que algumas questões fundamentais não mudaram: o odiado embargo financeiro e comercial não foi levantado (Obama não pode fazê-lo sem o apoio do Congresso) e Cuba não recuou um centímetro de seus ideais socialistas. Mas estendeu um ramo de oliveira ao dizer em seu pronunciamento na televisão: “Devemos aprender a arte de conviver de maneira civilizada, a despeito de nossas diferenças”.

Por sua parte, Obama reconheceu que a política externa hostil a Cuba, em vigor pelo tempo que ele tem de vida, não foi bem-sucedida. Chegou a citar José Martí, dizendo que “liberdade é o direito de qualquer homem de ser honesto”, e prosseguiu para reconhecer que os Estados Unidos e Cuba não poderão apagar a história conturbada entre ambos. Mas podem forjar um novo caminho.

Os inflexíveis guerreiros da Guerra Fria no Congresso não perderam tempo para atacar o presidente. O senador Marco Rubio, da Flórida, potencial candidato republicano à presidência em 2016, disse que se sentiu traído pelas negociações secretas de Obama, empreendidas sem a participação do Congresso. Isso faz lembrar aqueles cubanos que, depois da vitória de Fidel em 1959, se sentiram traídos quando ele arrastou Cuba para o campo socialista. Os cubano-americanos em Washington advertiram Obama de que suas ações ousadas podem ter violado a lei Helms-Burton, e prometeram que a nova maioria republicana fará tudo o que puder para sustar a normalização, começando pela retenção dos fundos necessários para estabelecer uma embaixada e a confirmação de um novo embaixador.

A mídia, ante as pistas do governo de que um grande anúncio sobre Cuba estava chegando, voou a Havana para captar as reações imediatas. Caminhões de externas também foram enviados para o lado do Versailles Café em Little Havana, Miami, para captar os sentimentos dos grisalhos linha-dura cubanos - que, como era previsível, condenaram a iniciativa de Obama.

Mas a verdade é que a maioria dos americanos - incluindo cubano-americanos mais jovens que nasceram nos EUA - não quer continuar a luta com Cuba. Ela sente que políticas orientadas para prejudicar os Castros na verdade prejudicaram os cubanos comuns que batalharam para sobreviver sob o regime repressivo e ineficiente.

Estive em Cuba muitas vezes desde 1978, quando Jimmy Carter se tornou o primeiro presidente a tentar trazer Cuba de volta à fraternidade das nações. Quando Miriam e eu entramos em Cuba pela primeira vez, as autoridades da imigração no Aeroporto José Martí confiscaram várias revistas que eu levava, com um gravador cassete. Na época a ilha estava realmente isolada do restante do mundo. Miriam viu o pai pela primeira vez desde que saíra quando garota. Ela voltava como uma mulher casada que desceu do céu como se Nova York ainda estivesse por lá, em algum lugar. Observei com a admiração de um estrangeiro quando ela se sentou numa grande cadeira de braços na casa do pai, rodeada por várias meias-irmãs que acariciavam seu cabelo suavemente perfumado como se ela fosse um anjo.

Foi a última vez que viu o pai.

Depois que Raúl anunciou que os cubanos poderiam abrir empresas privadas, Miriam enviou dinheiro para um de seus meios-irmãos que queria iniciar um serviço de conserto de geladeiras, que agora está indo muito bem, para padrões cubanos. Mais que o dinheiro, foi a liberdade de poder operar abertamente, ter empregados e trabalhar sem se preocupar em ser fechado pelo governo que o ajudou a ser bem-sucedido. Isso é uma enorme diferença do que encontramos em nossa primeira visita. Outro de seus meios-irmãos tinha acabado de morrer no mar numa jangada improvisada tentando cruzar para a Flórida, e outro estava operando secretamente um açougue clandestino, comprando sobras de carne de outros açougueiros, moendo e embalando em grandes mortadelas chamadas “Biggies”, que curava num alpendre convertido em casa de defumação. Se fosse descoberto, seus equipamentos e suprimentos seriam confiscados e ele poderia ser mandado para a prisão.

Com a normalização de Obama, empresários cubanos iniciantes como ele poderão receber remessas de dinheiro mais livremente, não só da família, mas potencialmente de investidores. A sobrinha de Miriam, que nos pediu dinheiro para comprar um smartphone, poderá ter mais facilidade em se conectar e usar o telefone para acessar a internet agora que Obama pretende permitir que companhias americanas trabalhem mais livremente em Cuba, um dos países menos conectados do mundo.

E, claro, será mais fácil para americanos visitarem o país.

Além das dimensões humanas do fim do estranhamento político entre os dois países, as consequências econômicas e diplomáticas também são significativas. Poucas horas depois do anúncio de Obama, um grupo representando a indústria americana do arroz emitiu uma declaração elogiando as ações do presidente e apregoando que produtores e exportadores do produto pretendem ganhar com o aumento do comércio com a ilha. O embargo americano não impede Cuba de importar arroz de outros países, mas transportá-lo de lugares tão longínquos como o Vietnã aumenta substancialmente o custo. Chatas repletas de arroz cruzando o Golfo do México barateariam muito o produto.

Um dos primeiros grandes testes da força dessas novas relações bilaterais virão em abril na sétima Cúpula das Américas, no Panamá. Os chefes de Estado de outras nações do hemisfério ameaçaram boicotar a reunião se Cuba fosse barrada, como foi em cúpulas anteriores, porque seu líder não é democraticamente eleito. Nessa semana, Obama deixou claro que Cuba será convidada e os EUA comparecerão. Mas disse esperar de Raúl Castro que permita também a presença da sociedade civil cubana para exprimir seus pontos de vista.

Essa é a questão que toca minha particular preocupação sobre a normalização. Os direitos humanos básicos - o direito de falar livremente, se organizar, seguir o próprio caminho político sem medo de retaliação ou punição - foram em grande parte negligenciados nas negociações. Para não falar de uma abertura política, além da promessa de mais acesso à internet. Não houve uma libertação geral dos presos políticos, embora Raúl tenha prometido soltar 53, até agora não nomeados. Ele tomou medidas parecidas no passado, obrigando os prisioneiros soltos a saírem do país e depois rapidamente preenchendo as celas vazias com novos prisioneiros.

Nos níveis mais pessoais, mais próximos do coração, Miriam ficou encantada de ouvir que Havana e Washington voltariam a conversar depois de tantos anos de obstinado silêncio. Estamos esperando ouvir seu meio-irmão e sobrinha sobre sua reação às mudanças.

Quando a mim, sinto um verdadeira afinidade com os cubanos, como se tivesse estado naquele avião com Miriam há tanto tempo. Mas sou americano, e como tal posso ser visto como um representante dos imperialistas ianques que durante tanto tempo arreliaram Cuba. Conheço a história; estou ciente das injustiças. Também conheço os modos brutais com que o regime dos Castros tratou o povo cubano.

Estou muito aliviado com canais oficiais sendo abertos para negociar diferenças, porque o diálogo é fundamental. Eu me alinho com Michelle Bachelet e outros líderes latino-americanos que querem ver Cuba fazer um pouso suave após a saída de Raúl, como ele prometeu, dentro de poucos anos.

Mas continuo cauteloso, tendo observado esses dois lados se aproximarem em muitos tangos diplomáticos passados para depois pisarem nos pés um do outro no último minuto e romperem. Continuo preocupado com o que ocorrerá nas ruas sujas de Havana e nos apartamentos dilapidados que não veem tinta há décadas quando os cubanos começarem a provar as doçuras da liberdade e naturalmente desejarem mais. Quanto Raúl estará disposto a lhes dar antes de decidir que preservar os ideais da revolução é mais importante? Que ocorrerá quando não houver nenhum Castro no poder e o fervor da revolução tiver morrido completamente, substituído por expectativas mais egoístas?

Como disse o presidente Obama, o momento pede honestidade. Nova York não está flutuando nas nuvens, e Havana não é um paraíso socialista. Talvez agora o holofote possa mudar do que Washington está fazendo para Cuba para o que os Castros estão fazendo em Cuba. Faz tanto sentido esperar que tudo melhore em seis meses quanto ter feito aquela promessa há 53 anos. A história algum dia verá o que ocorreu nessa última semana como o primeiro passo real para encerrar um dos períodos mais perigosos que o Hemisfério Ocidental já conheceu. Mas é apenas um passo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

ANTHONY DePALMA É EX-CORRESPONDENTE DO JORNAL THE NEW YORK TIMES E AUTOR DE VÁRIOS LIVROS, ENTRE ELES, O HOMEM QUE INVENTOU FIDEL (COMPANHIA DAS LETRAS). ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA O ALIÁS

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