Um lugar que não existe

Um lugar que não existe e que, no entanto, nos conduz. Eis o que nos mostram estas fotografias de Mônica Zarattini, repórter fotográfica deste Estado há 25 anos: uma rodoviária, um shopping center, um avião ou um ônibus, uma estrada noturna que não leva os olhos a lugar algum que não seja a si mesma.

EUGÊNIO BUCCI, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2013 | 02h36

Esses pontos de trânsito, instalações construídas para servir de passagem, não constituem espaços dotados de identidade histórica. Não são como as catedrais ou as cidades. Não são ponto de partida nem ponto de chegada. Não são como a casa da avó da gente, que concentrava a memória da família, o sentido dos laços de parentesco, aquele conjunto de referenciais essenciais que nos identificavam (e nos identificam até hoje) e resistem ao tempo para nos dizer quem somos. Mônica não fotografa o que é fixo, mas o que se desloca: vultos indefinidos, semblantes refletidos no vidro frio, pernas fantasmagóricas. Ela fotografa, enfim, o que podemos chamar de não lugares.

Mire bem. O que temos aqui nestas páginas são conexões espaciais vazias, que não guardam lembranças dos passantes - nem deixam lembranças nos passantes. Em imagens fixas, a fotógrafa registra o que apenas se move. Incrível: o que se move sem sair do lugar. A estrada sempre é puro movimento, mas sempre está lá. Os não lugares se movem na história, são moldados pela história, mas, desmemoriados, ficam sempre no mesmo (não) lugar.

São como chips nos circuitos da vida social. Conduzem a energia humana sem aprisioná-la. Direcionam as migrações incessantes sem jamais capturar o sentido que elas desenham. Não são identitários nem históricos - por isso, não podem ser chamados de lugares antropológicos.

O conceito de não lugar foi apresentado em 1992 pelo antropólogo e etnólogo francês Marc Augé, no livro Não Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade. Segundo ele, a supermodernidade se caracteriza pelo excesso: a superabundância de fatos, de espaços superpostos e de referências de todo tipo. A supermodernidade se define pelas superconcentrações de acontecimentos (tudo acontecendo ao mesmo tempo) num planeta que se encolhe cada vez mais, pois os pontos de trânsito (aeroportos, aviões, meios de comunicação) ganham mais densidade, mais volume e mais velocidade.

Somos, então, habitantes de não lugares. E olhando para as fotos de Mônica Zarattini podemos ter a impressão de que o planeta inteiro é um não lugar. A impressão pode ser exagerada, mas não é de todo falsa. *EUGÊNIO BUCCI É JORNALISTA , E PROFESSOR DA ECA-USP

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