Um minuto de silêncio...

...para José Alves de Matos, o 'Vinte e Cinco', último cangaceiro de Lampião, morto dia 15

Carlos Nealdo dos Santos, O Estado de S. Paulo

21 Junho 2014 | 16h00

Reunidos à mesa de jantar, os seis filhos de José Alves de Matos decidiram que era preciso guardar silêncio para preservar a memória do pai, morto no domingo passado, aos 97 anos, depois de passar os últimos cinco lutando contra uma insuficiência respiratória. Coube à filha mais nova, Dulce Matos, comunicar o fato à imprensa, que insistia em telefonemas incessantes para a casa de número 133 da Rua K, Quadra 10, na periferia de Maceió. 

“Tudo sobre ele já foi dito. O momento agora é de silêncio”, sentenciou Dulce, economista acostumada a lidar com números na Bolsa de Valores de Nova York - de onde pediu licença para dar apoio à família no Brasil. “Por muito tempo, ele ficou esquecido, e recentemente quase nenhum jornalista ou historiador o visitava”, ressente-se.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que até tentaram silenciar José Alves de Matos, mas isso só serviu para ele continuar sendo lembrado, principalmente pela polícia dos seis Estados nordestinos onde o cangaço reinou por décadas. A primeira tentativa de calá-lo aconteceu em 1931, quando o governo baiano elaborou um plano para retirar a população que vivia numa área de 480 km² de sertão, na tentativa de reduzir o número de pessoas que davam abrigo a Virgulino Ferreira da Silva, o temido Lampião.

Retirando-se supostos coiteiros de seu hábitat, pensava a polícia, as chances de capturar o cangaceiro eram maiores. “Mais de 12 mil pessoas foram, a coice de armas, desalojadas das caatingas e concentradas nas vilas e cidades”, descreve Frederico Bezerra Maciel em Lampião, seu Tempo e seu Reinado. “Naquele tempo os civis apanhavam mais da polícia do que os cangaceiros”, completa a historiadora Aglae Lima de Oliveira na obra Lampião, Cangaço e Nordeste.

O plano de retirada do governo baiano incluía a pequena Paripiranga (BA), cidade na boca do sertão baiano, a 264,5 km de Salvador, onde José Alves Matos, então com 14 anos, ajudava os parentes na agricultura. “Havia uma família que tinha parentes na polícia e fez uma denúncia de que a nossa tinha admiração por Lampião”, contaria José Alves, muitos anos depois. “Daí, terminaram dando uma pisa em um sobrinho meu, que passou três dias acamado.” O fato seria o estopim para uma briga maior entre as duas famílias, fazendo com que José Alves e alguns irmãos e primos vivessem como foragidos, até que ele decidiu entrar para o cangaço. Encontraria Corisco, o Diabo Louro - que um dia fora batizado de Cristino Gomes da Silva Cleto - em 25 de dezembro de 1933, dia que lhe valeu o apelido que carregaria para o resto da vida. “Ao ingressarem na vida do cangaço, todos esqueciam os verdadeiros nomes e passavam a ser conhecidos pelo apelido que recebiam”, contaria o agora Vinte e Cinco.

A passagem pelo bando seria rápida. Um desentendimento com Dadá, mulher de Corisco, o fez optar por sair do grupo. “Dizia que Dadá era mandona”, lembra o historiador João de Souza Lima, integrante da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC). “De índole pacífica, preferiu sair”, explica. Passaria a integrar o grupo de Lampião. E só não foi morto no famoso cerco de Angico (SE) - quando Lampião, Maria Bonita e outros foram assassinados pela polícia, no dia 28 de julho de 1938 - porque, três dias antes, Virgulino o mandaria, com dois cangaceiros, buscar armas e munições no Estado de Pernambuco.

Quatro dias depois, ao retornar, ficou sabendo das mortes e preferiu permanecer escondido. “A decisão de se entregar à polícia seria tomada em grupo, do qual participavam os cangaceiros Pancada - o líder -, Santa Cruz, Cobra Verde, Vila Nova e Peitica”, relembra João de Souza.

Transferido para o presídio em Maceió, Vinte e Cinco tomaria uma decisão que mudaria sua vida a partir dali: queria ser alfabetizado. Acreditando que só a educação liberta, princípio difundido pelo grego Epíteto, decidiu que os quatro anos que passaria preso seriam dedicados aos estudos. Ao sair, foi admitido como guarda municipal, não sem antes quase ser reprovado na prova de tiro. Acostumado a manusear a velha Parabellum, estranharia o moderno revólver calibre 38. Mais tarde passaria em concurso público para o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas, onde se aposentaria anos mais tarde. Casado com Mariza da Silva Matos por 55 anos, conseguiu dar educação aos 6 filhos, 14 netos e 12 bisnetos. “Tenho orgulho de conquistar minha educação graças ao incentivo de meu avô”, conta Juliana Matos, formada em relações públicas pela Universidade Federal de Alagoas.

Quando, três dias depois da morte, a família decidiu silenciar para preservar sua memória, estava na verdade atendendo a um pedido seu. “Ele era muito educado, se expressava muito bem, mas não queria que a vida dele fosse exposta”, relembra João de Souza, o último historiador a estar com Vinte e Cinco, no dia 29 de abril.

Alguns pesquisadores - incluindo Souza - se propuseram a escrever um livro sobre ele, mas recusou todos os pedidos. “A própria família cuidará disso, mais tarde”, diz a filha Dulce Matos. Dois meses antes de morrer, Vinte e Cinco recebeu de João de Souza um presente que o remeteria ao passado: um chapéu de cangaceiro e uma reprodução da clássica foto em que ele aparece ao lado de Corisco. Acamado e já recebendo oxigênio, tinha a recomendação médica de permanecer calado, para evitar o cansaço. Mas àquela altura sua história já falava por si.

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Carlos Nealdo dos Santos, jornalista e escritor alagoano, é autor de O pianista do silencioso (EDUFAL)

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