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Um negro no ninho

Nada na racista Universidade de Oklahoma me surpreende. Nunca acreditei na mentira de uma América pós-racial

Kasai Rex, SALON

21 Março 2015 | 16h00

“Jamais um negro entrará na SAE!”, berrava um grupinho de Biebers do lado negro. O vídeo da fraternidade da Universidade de Oklahoma divulgado no início da semana chocou a nação. Eu não fiquei minimamente chocado. Nunca acreditei na mentira de uma América pós-racial, por isso o paroxismo da mentalidade de merda dos brancos não me surpreende. Ao contrário, meus pensamentos foram para o garoto que ainda sonha em ser o “negro” indesejado numa fraternidade onde seria como a “mosca no leite” de Baldwin. O garoto ou a garota negros que não têm a menor ideia de quem são, que pensam que encontrar um lar em lugares como a SAE (Sigma, Alpha, Epsilon) da Universidade de Oklahoma lhes transmitirá a sensação de pertencimento, desesperadamente necessária. Escrevo isso na esperança de ser ouvido por aquele corpo negro que flutua à deriva no caos da identidade racial, como aconteceu comigo, durante grande parte de minha vida.

No outono de 2003, sofri o trote para ser aceito numa fraternidade, o único membro cor de chocolate de toda a casa. Os rapazes brancos que tentam ser negros evidentemente não contam. Eu era aquele cara sempre bêbado e resolvi, muito antes de pôr o pé num campus, que teria de cercar-me de outros bêbados, mesmo que todos eles fossem brancos e eu fosse o primeiro da minha família a ir para uma universidade de respeito. A faculdade era a última coisa que eu tinha em mente. A cultura da fraternidade me deu um lugar onde eu poderia me conceder tudo que quisesse, sem que a família, os professores ou os amigos mais antigos me pusessem um freio. Durante a orientação dos calouros, perguntei quais eram as casas onde se fumava mais e se bebia mais. Foi a sorte de bêbado que me levou à 3Frat Row.

Na casa em que me estabeleci, a iniciação era mental desde o início. Os mais velhos que procuravam me humilhar e a dez outros de fora riram quando me mandaram “foder a parede como se fosse de verdade”, e eu perguntando à parede se ela gostava do meu pinto preto. Foi uma estúpida leviandade num trote descontrolado que levou dez semanas. (Minha semana infernal acabou com uma pessoa perdendo a ponta de um dedo. A tradição deixou de ser seguida desde então.) Senti uma espécie de orgulho sombrio quando fiz o pior maconheiro da casa gargalhar tanto que teve de sair do quarto, mas eu não vi meu fingimento como fingimento. Aceitei voluntariamente as sessões de vômito, as flexões, os socos nos vidros, a destruição da propriedade e o horrível mal-estar causado pela cocaína, que me levou a uma tentativa incompetente de suicídio, e o comportamento desprezível com as mulheres e todos os clichês de ser um cara de fraternidade

Quando olhei as fotos de grupo de antigos calouros penduradas na casa da fraternidade me dei conta dos trotes anteriores em outras caras cor de chocolate. Havia uma de 1996-97, outra de 1981-82. Puxa! Uma de 2000-2001. Recente. “Provavelmente são todos republicanos com muito orgulho”, não pude deixar de pensar.

Na época, não via nada de errado nesse ambiente. Durante o trote, um irmão da fraternidade que me fez cantar música country no jantar; impossível que o cara de cor fosse do interior, ele provavelmente apostava. Evidentemente, ele não sabia como foi branco meu ambiente na infância. Na escola, pelo menos.

Cresci num bairro de classe média totalmente negro em Baltimore. Minha mãe era funcionária do governo e trabalhava absurdamente, como as mães negras com filhos negros, cabeças duras, costumam fazer. Meu pai era um veterano do Vietnã que deixou seu emprego num depósito quando minha irmã menor nasceu para criar nós dois. Meus pais fizeram de tudo para que eu recebesse a melhor educação que a cidade podia oferecer e as oportunidades que eles jamais tiveram. Meu primeiro e único ano na escola pública foi num ambiente superlotado e sem o menor controle: um colega de classe me disse para falar “ahh!” e imediatamente me furou o céu da boca com um lápis. Meus pais não aguentaram e fizeram mágicas para conseguir que eu fizesse um teste na Calvert School, onde John Waters estudou, que frequentei até o sexto ano.

Na adolescência fui para uma escola particular considerada por muitos a melhor da região, mas logo aprendi que eu não era como os outros rapazes, praticamente todos brancos de classe média alta e alta. Passei aqueles anos sendo lembrado da minha negritude, principalmente em termos negativos. Essa hostilidade - e as brigas com meus amigos negros do bairro por me comportar “como um branco” - deslocaram o eixo da minha identidade racial. As tentativas de crescer, ao mesmo tempo, no mundo negro em casa e no branco na escola logo deram lugar a uma busca desorientada pela assimilação ao segundo. Fritei meu couro cabeludo com produtos para esticar o cabelo. Desejei as colegas brancas enquanto negava que algo negro pudesse ser bonito. Meu pai já me espancara antes, por frustração e pela dor de ter perdido meu meio-irmão para a violência e por ver-me repetir os mesmos erros. Mas ele não me bateu quando eu disse que as garotas negras eram feias e ignorantes. Nunca vou esquecer a decepção e a dor esculpidas em seu rosto naquela noite.

Anos depois de deixar a escola privada, minha mãe perguntou por que eu não dissera a ela como era tratado na escola. “Dedurar leva a uma facada”, racionalizei para mim mesmo. Mas eu também não quis ver mais a dor e a tensão numa mulher negra, forte, que já havia se sacrificado tanto. Ainda ouço as recomendações do meu pai de que neste mundo de brancos eu tinha de ser pelo menos duas vezes melhor que meus colegas brancos. 

Era a verdadeira ação afirmativa. Você precisa se afirmar, com sua pele negra, seus lábios grossos, seu nariz largo e seu cabelo, nem que seja muito difícil. Trate de gostar muito dessa merda, porque eles não se sentem obrigados a gostar. E tome uma atitude, mesmo que não goste, mesmo que seja uma atitude impopular, porque recuar é morrer.

Já tinha recebido o recado fora de casa também. Nunca tinha ligado. “Você pode foder eles, mas não pode ser ‘eles’”, advertiu preocupado um treinador negro que tinha observado que meu grupo de amigos tentava “ser” branco. Podíamos tingir o cabelo de loiro e namorar garotas brancas e ouvir os Smashing Pumpkins, mas continuávamos pretos como carvão. Achei que ele estava sendo duro, mas agora sei que seu recado era de autoestima e amor-próprio, e eu não estava preparado para aquilo.

Não demorei muito para aprender qual era o meu lugar nesse ambiente de prestígio e tradição - “uma comunidade ‘mista’ (em sentido depreciativo) de gente branca racista”, como me disse um colega de escola mais velho. Um dia, um dos primeiros dias de aula naquela escola, fui chamado de negro pela primeira vez na cara. O que provocara isso foi me apresentar tentando fazer um novo amigo.

Embora tivesse muita vontade de dar um soco na cabeça daquele moleque, me segurei porque achei que seria muito feio fazer aquilo bem no começo de um esquema em que teria de dar a outra face muito mais vezes do que pretendia. Mesmo sendo um merdinha adolescente sabia o que Toni Morrison quis dizer numa entrevista em 1998 com Charlie Rose ao falar de um “elevado padrão moral” diante dessas não tão micro agressões. Entretanto, era difícil perceber a vantagem tática, porque esses colegas de escola, que eram o reflexo do ambiente intolerante de suas casas, como todos os indivíduos que sofrem espiritualmente por causa da doença do racismo e do preconceito, estavam convencidos de ser os donos também desse elevado padrão moral, o delírio da supremacia branca que os faz acreditar nas próprias baboseiras. Precisei de algum tempo e muita lucidez para me sentir agradecido por frequentar aquelas escolas, mas na época o que eu queria era estar longe dali.

Acreditei ingenuamente que a faculdade seria diferente. Mas foi sempre a mesma coisa. Durante os dois meses dos trotes dos calouros me pareceu que a tão aguardada sensação de “fazer parte daquilo” estava a meu alcance. Mas logo depois um irmão mais velho falou, daquele jeito de “não ligo a mínima para o que você está sentindo” que as pessoas podem se permitir por causa do ventre macio do privilégio branco, que não foderam comigo naquele período porque eu era negro e ninguém queria ser visto como da “casa racista”. Fiquei desapontado. Achava que era porque gostavam de mim. Esta casa, racista? Não! No entanto, meu irmão de trote foi chamado de hispânico de merda na frente de cem pessoas num churrasco.

Quando me perguntaram por que eu não tinha ido para a Omega ou a Alpha, as prestigiosas fraternidades negras que minha família e os vizinhos conheciam, em geral alegava que na minha escola as fraternidades negras eram consideradas uma piada, desorganizadas e com poucos alunos. Entretanto, eu não teria ido para lá mesmo que fossem respeitáveis. A insanidade e idiotice do preconceito da universidade (branca) era a única normal que eu conhecia na época e o próximo passo lógico na vida de uma pessoa que procurava a aprovação dos brancos. Sem dúvida, ser a única solitária cara negra num espaço evidentemente branco foi meu único objetivo durante a maior parte da minha vida.

Hoje, gostaria de voltar para dizer a meu eu mais jovem, frustrado, confuso, que tudo vai dar certo. Que eu sou mais eu. “Não deixe que esses merdas de camisa Lacoste derrubem você. Sua cara negra é linda. Sua cultura é maravilhosa!” Ainda tenho, vez ou outra, as mesmas dúvidas a respeito de mim mesmo dos anos de escola, e ainda me pesa enfrentar a tarefa insana: “Está sendo honesto?” Mas na maior parte da vida me senti bem pouco honesto ou tentando fazer as coisas direito.

Hoje, procuro o meio-termo, aquele estado sublime em que você é “você mesmo”. Todo aquele barulho dentro da minha cabeça - do comitê que me conduziu à fraternidade dizendo que eu pertencia àquele lugar à loucura de querer que meu cabelo ficasse espetado como o de Pauly D - foi por causa da violenta aversão por mim mesmo que felizmente superei com o tempo. Levei 30 anos fodidos, mas por fim aprendi que não ligo a mínima para o que os outros pensam de mim e procurar a aprovação dos brancos, mesmo que seja para sobreviver, é a coisa mais idiota.

Para ser honesto comigo mesmo, ainda tenho muito trabalho pela frente, e luto ocasionalmente para encontrar o equilíbrio. Quando até o amigo, ou o colaborador, ou a namorada mais bem-intencionados me jogam na cara “você é o cara mais branco que eu conheço”, é como se o fantasma de Nat Turner me tocasse no ombro e dissesse: “É isso aí”. Se, pelo contrário, estou no barbeiro ou num churrasco e pessoas me olham como para dizer “você não é um negro de verdade” (será que meus jeans apertados me traíram?), gostaria de perguntar: “Se eu entrasse na Barney’s será que não seria seguido, revistado, não teria de ouvir um sermão mesmo depois de gastar meu dinheiro ganho com tanto esforço, legalmente, e depois não seria parado e revistado na Madison Avenue porque eu devia saber qual é o meu lugar?”

Gosto do que gosto, sou o que sou. Mas o mais importante é que hoje posso me olhar no espelho. Lá no fundo, tenho consciência dessa espécie de privilégio que é ser o negro que sou. Para mim, esse privilégio é uma resistência positiva, uma força mental cujos alicerces foram lançados há séculos por ancestrais que tiveram uma vida mais infernal em 24 horas do que eu poderia ter pela vida toda. A dor e a injustiça constantes nos moldaram, e por toda essa merda em que nos colocamos, obrigando-nos a adorar falsos ídolos sob inúmeras formas e tons de pele, criamos uma fortaleza espiritual que pode nos ajudar não apenas a sobreviver, mas a crescer. Luto por um orgulho inabalável por mim mesmo. Um orgulho que deve ser redescoberto dia após dia, na maioria das vezes.

Finalmente, tive de encarar minha existência de bêbado e passar a viver como um homem sóbrio. Minha negritude também exigiu uma reabilitação. Tudo isso foi um processo que não se deu sem dor, mas me fez chegar a um ponto em que nunca mais serei chamado depreciativamente de “negro”, nem na SAE nem em qualquer outro lugar. 

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

KASAI REX, ESCRITOR QUE VIVE EM BALTIMORE, SUA CIDADE NATAL, ANALISA RAÇA, GÊNERO E CLASSES NOS ESTADOS UNIDOS E EXTERIOR

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