Um novo dominó econômico?

Dubai ignorou a crise e continuou esbanjando dinheiro - e agora deixa inquieto o sistema financeiro mundial

Heather Stewart e Ian Black, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2009 | 00h12

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Depois de um ano traumático os mercados começavam a respirar aliviados, mas o estouro da bolha no emirado de Dubai desperta temores de nova crise global. Sem as reservas de petróleo dos seus vizinhos, os governantes do emirado elaboraram um plano urbanístico para transformar sua cidade-Estado construída sobre a areia num glamouroso parque de diversões, financiado por entusiásticos investidores ocidentais. Agora, a construtora estatal de vários dos extravagantes projetos de Dubai luta para saldar suas dívidas, e os mercados financeiros mundiais se dão conta de que talvez tenham dado por encerrada cedo demais a reviravolta provocada pelo aperto do crédito.

 

ILHA-PALMEIRA - Palm Island Jumeirah, um dos megaempreendimentos.

O grupo Dubai World tem passivos de quase US$ 60 bilhões

Os problemas de Dubai na última semana chamaram a atenção para a possibilidade de que podem existir outras bombas não detonadas na economia mundial. Países como Grécia, Ucrânia e Irlanda enfrentarão graves problemas quando começarem a saldar suas dívidas nos próximos meses e anos.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) interveio para ajudar países em dificuldade, como Islândia, Hungria e Paquistão, mas o anúncio da Dubai World despertou o medo de que venha por aí uma nova sucessão de vítimas. A crise econômica não acabou. Embora muitas das principais economias, como Estados Unidos, Alemanha e Japão, tenham saído da recessão, até o momento sua recuperação só foi possível graças a enormes injeções de dinheiro público. Ninguém sabe o que acontecerá quando elas secarem e os bancos centrais começarem a fechar as linhas de crédito de baixo custo concedidas e elevarem suas taxas de juros.

Se a Dubai World se declarar inadimplente, provocará novas ondas de choque em todo o sistema financeiro mundial. Os bancos internacionais emprestaram a Dubai e às suas empresas bilhões de dólares para financiar suas resplandecentes torres de vidro e pistas de ski indoors no meio do deserto. O risco de que muitos destes empréstimos possam deixar de ser saldados reacende as preocupações. A incerteza quanto à possibilidade de a Dubai World se declarar inadimplente aumentou ainda mais porque os mercados financeiros de Dubai estavam fechados pelo feriado muçulmano do Eid al-Adha. E, para complicar, as dívidas foram contraídas em títulos islâmicos, conhecidos como sukuks - e as regras a respeito do que acontece se um tomador não tem como saldá-las são um tanto vagas.

Os investidores esperam que Dubai receba a ajuda da vizinha Abu Dabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos - embora não esteja claro o que isto significará para a autonomia do governante de Dubai, o xeque Mohammed Bin Rashid al-Maktoum, famoso por criar cavalos de corrida puros sangue, e por sua fortuna de US$ 16,47 bilhões.

Quer Dubai seja a primeira peça do dominó a cair numa nova crise financeira global, quer, como acreditam alguns, não passe de uma pequena cidade-Estado cujas dificuldades têm poucas implicações para o restante do mundo, seus guindastes congelados, seus arranha-céus vazios e seus expatriados por causa da falência serão um forte exemplo do que acontece quando um boom imobiliário escapa do controle.

O passado romântico de Dubai, um sonolento porto que vivia da pesca de peixes e de pérolas praticamente desapareceu. O mais rico e mais populoso dos sete Estados dos EAU, tem a segunda maior economia, depois do gigante regional da Arábia Saudita. Jogadores de futebol e astros de cinema, se sentiram atraídos por esta paisagem árida, e compraram palácios em condomínios exclusivos, como o extraordinário Palm Jumeirah, um arquipélago de ilhas artificiais cercado pelo mar extraordinariamente azul. Entre os proprietários estão David Beckham e vários astros dos esportes dos EUA, o presidente Hamid Karzai do Afeganistão, oligarcas russos, indianos ricos e iranianos bem relacionados.

O lazer nesta "Paris do Oriente Médio" é proporcionado pelos maiores e mais movimentados shopping centers do planeta. Os ocidentais desfrutam ali de um estilo de vida mais livre do que em qualquer outra parte do Golfo - embora a recente experiência do casal inglês apanhado fazendo sexo demonstre que há ainda choques culturais.

Nos anos de vacas gordas, chovia dinheiro dos países do Oriente Médio, enquanto os preços altíssimos do petróleo e o forte crescimento global criavam fortunas repentinas. Consequentemente, a escala do boom da construção foi extraordinária, atraindo centenas de milhares de trabalhadores estrangeiros mal pagos e provocando um aumento gigantesco dos preços dos imóveis. E, depois do início da crise hipotecária nos EUA e de sua propagação no resto do mundo, o emirado respondeu aos críticos com a autoconfiança que é sua marca registrada.

Há pouco mais de um ano, quando a crise financeira começou a se espalhar, Sultan Ahmed Bin Sulayem, chairman da Dubai World , ainda se gabava: "Dubai tem uma visão como nenhum outro lugar da Terra". E a Nakheel, filial imobiliária da DW, apresentava o projeto de construção do edifício mais alto do mundo, com mais de 200 andares. Representada por uma equipe de relações públicas internacionais de alto nível, a Nakheel apressou-se em minimizar os temores pela recessão, dizendo que os retornos dos fundos de investimentos do exterior ultrapassariam a queda das receitas petrolíferas. Em vez de frear seus gastos, Dubai continuou esbanjando.

"Nos últimos anos, fomos bombardeados pelo conceito do mais alto, do melhor, do maior", diz o professor Abdelkhaleq Abdullah, da Universidade dos Emirados. "Agora, a novidade acabou". No último ano, os preços dos imóveis caíram 40-50% em relação às altas de 2007 e 2008 e deverão baixar mais 20%. Dezenas de milhares de trabalhadores indianos se foram, e os carros novos abandonados no aeroporto por estrangeiros falidos fornecem apenas um tema para o folclore local.

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