Michael Reynolds/EFE
Michael Reynolds/EFE

Um novo livro mostra como a homofobia se perpetuou nos círculos de poder

Ambientado na capital dos Estados Unidos, jornalista escreve sobre políticos gays historicamente apagados

Matthew L. Riemer, Washington Post

18 de junho de 2022 | 15h59

Para aqueles que estudam o passado de Washington, "cidade secreta" é uma frase familiar. Em 1932, por exemplo, W.E.B. Du Bois explicou que as pessoas de fora muitas vezes não sabiam nada sobre a grande população negra do Distrito, "uma Cidade Secreta, da qual a capital tem plena consciência". Três décadas depois, a historiadora Constance McLaughlin Green empregou mal a metáfora de Du Bois, argumentando em The Secret City: A History of Race Relations in the Nation's Capital (A Cidade Secreta: Uma História das Relações Raciais na Capital da Nação) que a Washington negra há muito era "uma cidade secreta quase desconhecida" para a população branca de DC. Com seu novo livro, Secret City: The Hidden History of Gay Washington (Cidade Secreta: A História Oculta de uma Washington Gay, em tradução livre), James Kirchick tenta adaptar o tropo a um subconjunto muito específico da famosa comunidade LGBTQ do distrito. Os políticos.

A "Cidade Secreta" de Kirchick é contada cronologicamente, de aproximadamente 1940 a 1999; mais especificamente, a narrativa é organizada por mandatos presidenciais, com cada uma das 11 seções com o nome de um ocupante da Casa Branca correspondente, de Franklin Roosevelt a Bill Clinton. Além de aparições notáveis de um punhado de políticos gays e lésbicas subexplorados - o briguento oficial da CIA Carmel Offie, a pioneira do Escritório de Serviços Estratégicos Cora Du Bois e o confidente de Kennedy, Lem Billings, entre outros - Secret City concentra-se amplamente na dor experimentada por, e nas mãos de gays conhecidos como o diretor do FBI J. Edgar Hoover (que Kirchick curiosamente evita identificar como homossexual), Roy Cohn, o mentor de McCarthy e Trump e o infame lobista da Nova Direita, Terry Dolan. A maioria das vozes gays, no entanto, são abafadas, até mesmo tratadas como menos críveis do que as de pessoas heterossexuais homofóbicas: colunistas de fofocas, imprensa sensacionalista, presidentes em apuros, senadores coniventes, agentes servis do FBI e um elenco rotativo de assessores, todos são considerados como fontes primárias em uma história que não é da alçada deles contar.

Kirchick promete nos mostrar "a ampla influência da homossexualidade na capital da nação, nas pessoas que moravam nela e nos importantes assuntos de Estado que conduziam". Mas "Secret City" pode ser descrita com mais precisão como um vislumbre superficial da proeminência da homofobia no governo federal e na imprensa de D.C., e em como essa homofobia há muito se manifesta como boato e insinuação (páginas e páginas das quais são reproduzidas no livro), a influência de tal homofobia em um elenco enorme de homens gays quase exclusivamente brancos, e como mais do que alguns desses homens desempenharam papéis nada insignificantes na longa marcha do Partido Republicano para a extrema direita.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Kirchick promete nos mostrar 'a ampla influência da homossexualidade na capital da nação
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313

Estes tópicos não são desimportantes. A história gay, afinal, é mais antiga e maior que um motim, um protesto ou uma ideologia, e devemos sempre acolher histórias que desestabilizem as narrativas populares. Ao mesmo tempo, no entanto, aqueles que procuram desestabilizar essas narrativas devem lutar pela transparência e responsabilidade que muitas vezes faltam em histórias mais antigas. E é aqui que Secret City vacila. Em 43 capítulos e mais de 650 páginas de texto, Kirchick raramente se aventura além dos mais altos escalões do governo federal, ignorando o fato de que tanto o governo quanto o Distrito de Columbia são muito maiores do que qualquer administração que esteja na cidade. Seguindo o exemplo de muitos dos que surgem em suas páginas, Secret City recorre a políticas do passado para justificar a exclusão dos prejudicados por tais políticas. Isto porque "assuntos de estado de peso" historicamente têm sido conduzidos em salas quase inteiramente ocupadas por homens brancos,  mas Kirchick parece satisfeito em não fazer perguntas sobre aqueles que esperam do lado de fora.

Ao contrário das "cidades secretas" anteriores, a de Kirchick não diz quase nada sobre a Washington negra. (Duas pessoas negras, Odessa Madre e Bayard Rustin, recebem juntas um total de 17 páginas.) E, no entanto, apesar da falta de atenção, o autor não hesita em fazer afirmações abrangentes. Em um ponto, por exemplo, Kirchick atribui a "falta de participação negra" em uma organização de direitos dos gays, pelo menos em parte, "ao fato de que os moradores negros de Washington eram em sua maioria locais... e a associação com uma organização gay era significativamente mais difícil quando se vivia na cidade onde a família residia." Essa afirmação, no entanto, vai contra até mesmo o olhar mais superficial sobre a vida gay negra, para não falar das muitas histórias específicas de D.C. que demonstram como a homossexualidade raramente prejudicou os poderosos laços familiares da Washington negra. Da mesma forma, enquanto "Secret City" tem pouco a dizer sobre lésbicas, o autor tenta explicar o silêncio com declarações questionáveis e, em última análise, insustentáveis, de como "a perseguição geralmente visava os homossexuais masculinos mais severamente do que as lésbicas, uma consequência, em parte, de atitudes patriarcais que privilegiam os homens sobre as mulheres". Considerando que a sociedade dá menos valor às mulheres, o argumento é, portanto, de que é mais difícil ser um homem.

Muitas das fraquezas do livro são atribuídas à aparente aversão de Kirchick às convenções da linguagem do senso comum. Os leitores podem se esforçar para permanecer em uma narrativa sobrecarregada por um vocabulário laborioso, como "hirsute" (peludo), "farrago" (emaranhado) e "bromidic" (banal). Da mesma forma, muitos, sem dúvida, se perguntarão como e por que o autor nunca usa a palavra "transgênero", mas ainda consegue incluir os mais vis insultos raciais várias vezes, embora sob a cobertura das aspas. (Em outros lugares, as aspas e quaisquer citações correspondentes desaparecem, dando a impressão de que o próprio Kirchick está descrevendo o pai fundador Gouverneur Morris, que era deficiente, como "perneta", um personagem (fictício) como "amante de negros" ou ativistas negros como "arrogantes". "). Há outras descrições desconcertantes, como a de Whitaker Chambers, que, escreve Kirchick, "foi (pelo menos por um tempo) homossexual". É claro que não é assim que a homossexualidade funciona. Igualmente preocupante é a abordagem desigual do livro para a complicada política do "armário", oscilando  de retratos indispensáveis da sobrevivência em segredo para descrever, em linguagem vulgar e prejudicial, as nove vítimas gays do incêndio do Cinema Follies de D.C. como tendo sido "presas dentro de suas câmaras de engano autoimpostas".

Para muitos de nós que estudamos o passado queer, há uma necessidade sempre presente de articular as alegrias encontradas em meio às difíceis realidades daqueles que vieram antes, daqueles que tornaram a vida possível. Mas não há realidade em confundir homofobia com homossexualidade, não há alegria em confundir o difícil com o trágico, o ignorado com o segredo. Em uma resenha de 1967 de The Secret City, de Constance Green, o professor George R. Woolfolk chegou a uma conclusão que se aplica com igual força ao livro de Kirchick. A obra de Green, escreveu Woolfolk, "exigiu tanta sociologia criativa quanto história definitiva. Infelizmente, é insuficiente em ambas". /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

Secret City: The Hidden History of Gay Washington (Cidade Secreta: A História Oculta de uma Washington Gay)

De James Kirchick

Henry Holt. 826 pp. $38

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.