Um novo pensamento selvagem?

Matis viraram estrelas após localizar o avião da FAB. Nenhuma novidade para quem sabe vender seu peixe à mídia

Barbara Arisi*,

08 de novembro de 2009 | 00h42

.

Lévi-Strauss, em entrevista ao antropólogo Eduardo Viveiros de Castro na revista acadêmica Mana , comentou que "(as sociedades indígenas) estão esquentando, ao passo que as nossas esfriam. Na França isso é muito claro: o interesse pelo patrimônio, os esforços para reencontrar as raízes...". Os matis estão em plena época "quente" de suas relações com os mercados internacionais de turismo e televisão. E, o que é mais interessante, esquentam justamente pela valorização e foco em seus "patrimônios", interessados em ganhar dinheiro e prestígio com sua cultura material e imaterial.

 

FOCO - Dizia que os indígenas vinham cuidando mais do seu patrimônio

Há pouco, viraram centro da atenção da mídia internacional por terem localizado um avião da FAB que realizou pouso forçado nas proximidades de suas aldeias. Eles estão acostumados com "dar no New York Times". Já foram capa de duas edições da National Geographic e estrelas de uma dezena de documentários para redes como BBC, Discovery e Fuji. Apenas entre abril e outubro últimos, pude observar em meu trabalho de campo o trabalho de duas equipes de tevê: a MBC, da Coreia do Sul, e a Animal Planet, dos EUA. Nada que se compare ao que vira o Xingu durante o Kuarup, mas os matis ganharam entre os produtores televisivos a fama de serem "os de mais difícil acesso entre os índios mais espetaculares". Creio que essa posição se deve também ao fato de o Vale do Javari ser a região do mundo onde, provavelmente, encontra-se o maior número de povos isolados (ou autônomos) do planeta.

 

Veja também:

linkO garimpeiro de mitos

link'Sou um homem do neolítico'

linkAmbientalista, quando ainda não se falava nisso

linkFotógrafo de cheiros e afetos

linkPremonição do racismo

Trabalhadores na Frente de Proteção do Vale do Javari, localizada como posto de vigilância na confluência dos rios Ituí e Itacoai, os matis foram os principais tradutores e intermediários dos korubos - conhecidos pela imprensa como os "caceteiros", aqueles que encarnam nos anos recentes o símbolo de "índios brabos", contatados em 1996, com direito à cobertura ao vivo da National Geographic. Os matis, além de ficarem amigos de vários desses cineastas estrangeiros, eram incentivados pelo sertanista Sydney Possuelo a usar seus adornos faciais e zarabatanas para caça. Aprenderam também técnicas de filmagem. De um cameraman norte-americano, ouvi o comentário surpreso de que eles eram os mais "media savvy" (conhecedores da mídia) entre todos os atores profissionais com os quais já havia gravado, mesmo quando comparados a profissionais de Hollywood. "Eles sabem a hora de parar o movimento para dar tempo de o câmera se reposicionar para a próxima sequência", disse o cameraman. "Possuem domínio extremo da linguagem fotográfica e cinematográfica. É incrível."

Tenho algumas hipóteses do porquê de eles serem assim tão senhores de suas relações com o mundo dos brancos. Uma delas tem relação com um mito, onde um homem é decapitado ao afirmar - no mundo subaquático de um lago, onde vivem os parentes de sua mulher - que ele vem de um povo pequeno. Sua mulher fica com sua cabeça, e o corpo é levado para a maloca, na qual é cortado em tiras bem finas. Tiras do fígado, do estômago e do coração são dispostas sobre cada um dos assentos (sekte) do lugar. O sol ainda não raiou, está quase quase, quando começa a se levantar, de cada assento, um homem. Os negros nascem do fígado; os brancos, do estômago; os matis; do coração. Estes são os verdadeiros "tsasibo wintë", termo de sua língua nativa que também nomeia sua associação, recém-criada. Tsasibo são os caçadores que caminham longe, que trazem muita carne para casa (caminhar e caçar provêm do mesmo verbo, "kapuek"). Wintë significa coração. O coração é mais valorizado do que o fígado e o estômago, portanto seus descendentes mereceriam ganhar uma melhor posição e, por que não?, mais daquilo que os brancos parecem valorizar enormemente - dinheiro e bens.

Hoje, os matis têm sumo interesse em, via associação, negociar sua cultura: apresentações das festas da Queixada e do Mariwin, demonstrações do uso da zarabatana para estrangeiros na vizinha Letícia (Colômbia), encenar seu dia a dia e procuram controlar o acesso dos não índios ao que consideram seu patrimônio intelectual, qual seja, mitos, saber tradicional sobre plantas e animais, festa da tatuagem, vacina de sapo ("kampok"). Basta clicar matis no Images do Google para encontrar sites onde suas fotos são vendidas para ter uma noção concreta de onde eles tiraram parte dessa ideia.

Nos últimos anos, os estudos antropológicos trataram de relações de troca e comércio de cultura material e imaterial entre indígenas e não indígenas dentro de alguns grandes marcos teóricos que podemos repartir em três: a indigenização da modernidade (todos esses movimentos de novas transformações indígenas, os caiapós se apoderando de câmeras de vídeo, por exemplo), a domesticação das mercadorias e a pacificação do branco (estratégias indígenas de decorar panelas de alumínio com desenhos identitários a fim de incorporá-las à vida doméstica ou formas nativas de amansar devagarinho esses brancos que tentam estabelecer contato pelo poder das armas) ou, ainda, as relações neocoloniais do capitalismo global com o mundo tribal (de que forma os europeus inventaram tanta história para se colocar até em mitos indígenas, tudo para, ao fim e ao cabo, seguirem no lugar de donos das ex-colônias).

Porém, considero como limitação teórica dos estudiosos que tratam das transformações indígenas nesse mundo tão global e líquido, com base nos dois primeiros paradigmas, a afirmação de que os índios, mesmo após tanto evento a transformar suas estruturas, seguem a grosso modo sendo bem índios, os antropófagos culturais de sempre, sem rastrear realmente desdobramentos em aldeias e cidades. Os do terceiro paradigma denunciam as relações hierárquicas e de opressão, mas param aí.

Fica a pergunta: o que aprendemos do fato de, em 2006, os matis pedirem à BBC, em troca da reportagem com eles, microscópio, motor de popa, etc. e, de mim, aulas de português e de matemática aplicada, ensinando, por exemplo, como comprar roupas e comida e vender zarabatanas? A antiga barganha de conversa nativa por tabaco foi substituída pelos matis pela de conhecimentos especializados. O evento do avião e de receberem os cumprimentos dos demais indígenas por prestar ajudar aos poucos que os assistem na área de saúde ilustra bem como os matis são e se revelam sujeitos de sua própria história. Se os achamos extraordinários, resta-nos agora apenas negociar com eles.

* Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social UFSC

Tudo o que sabemos sobre:
AliásClaude Lévi-Strauss

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.