Um novo trabalho para Hércules

Domar a crise financeira grega exigirá a força mitológica do semideus e o engenho guerreiro de Ulisses

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2010 | 23h17

Além de tudo, chove! E chove a cântaros. A desgraça sempre vem acompanhada. Os gregos não estão só falidos, provocando calafrios em toda a União Europeia e ameaçando aniquilar o euro: estão também completamente encharcados.

Na Trácia, nordeste do país, na junção com Turquia e Bulgária, o Rio Evros transbordou e ventos violentos atingiram a região. Quinze mil hectares de terras cultivadas estão debaixo d"água; dois departamentos estão ameaçados. O Monte Olimpo, onde Zeus reside há 3 mil anos e fornica com as ninfas e deusas, está tão prejudicado que se temia que o sítio arqueológico de Dion, na sua base, fosse tomado pelas águas. Mas Zeus, com certeza ficou vigilante, foi um alerta falso.

No entanto, a crise financeira não é um alerta falso. Ela está congelada, foi deixada para mais tarde, graças à União Europeia, mas trata-se apenas de um adiamento. Os europeus não forneceram uma ajuda direta à Grécia. E só o farão se o Estado grego tiver que pedir moratória, e ainda assim com a condição que o governo de Atenas implemente um plano de austeridade econômica real e vigoroso.

Senão, nada de euro!

O primeiro-ministro grego, o socialista Georges Papandreou, comprometeu-se com esse rigor extremo. O Estado grego deve reduzir seu déficit a 4% em 2010, o que implica medidas implacáveis: não autorizar mais as aposentadorias antecipadas, congelar os salários, reduzir em 10% o salário-família e não contratar mais funcionários, salvo para os setores de saúde, educação e segurança.

Em alguns dias, a União Europeia deve realizar seu primeiro controle, para se certificar de que as promessas de Papandreou estão sendo cumpridas. Essa desconfiança é explicada. O desastre grego tem muitas causas, mas a primeira delas é o embuste. Foi isso que lançou o país no abismo.

Em 20 de outubro, os socialistas venceram as eleições legislativas. Georges Papandreou (filho e neto de primeiros-ministros) assumiu o poder e seu primeiro cuidado foi anunciar que os conservadores tinham trapaceado. Eles declararam um déficit de 6%, mas na realidade esse déficit era de 12,7%. Pânico. Especuladores e banqueiros de todo o mundo, atraídos pelo cheiro de sangue, entraram em transe. E jogaram contra a Grécia. Eles a queriam nua e crua. Os europeus estremeceram. Se continuassem nesse ritmo, os gregos poderiam fazer o euro naufragar. O presidente do Eurogroupe, Jean-Claude Juncker, afirmou secamente: "O jogo acabou".

A Grécia conseguirá levaraté o fim esse trabalho de Hércules? Restabelecer suas contas sem trapacear? Ulisses, o grande personagem da Odisseia, era a própria astúcia. E por isso conseguiu retornar à sua casa em Ítaca, depois da guerra de Troia. Ele é reverenciado pelos gregos. A astúcia, a trapaça, o "jeitinho", tudo isso faz parte do caráter grego. Difícil ver como Papandreou vai modificar, por meio de decretos-leis, a índole de todo um povo.

A falcatrua já começa no alto escalão. A verdadeira desgraça desse país, depois da guerra, é que ele não tem Estado. Essa é a doença grega. Há 40 anos duas famílias partilham o poder: os Caramanlis (direita) e os Papandreous (esquerda), com um trágico interlúdio militar de sete anos. E essas famílias estão nas mãos da sua clientela. Corrupção generalizada.

Georges Papandreou parece mais correto que seus predecessores. É um homem encantador, cortês, educado, rico, formado na London School e em Harvard. Mas, como viveu nos Estados Unidos, viu-se obrigado a ter duas horas de curso intensivo de grego diariamente para falar um pouco a própria língua. Por isso é apelidado de "o Americano", o que não é um cumprimento na Grécia.

No país a corrupção é universal, conhecida, porém jamais denunciada. Os 11 milhões de gregos detestam pagar impostos. Portanto, não pagam, o que explica como alguns médicos, advogados, arquitetos chiques e funcionários do alto escalão conseguem ter uma casa na divina Ilha de Mikonos, uma outra em Hidra, um apartamento luxuoso em Atenas, carros de corrida, etc.

Os gregos pobres também não pagam. Seus salários são ínfimos. E, ao lado do emprego oficial, eles fazem trabalhos clandestinos, nunca declarados. Segundo o Banco Mundial, uma boa parte da economia grega, 35%, é informal. Os gregos gracejam: "Não, são pelo menos 50%". A fraude fiscal chega a 12 bilhões por ano.

E há os funcionários públicos. Quantos são? As estatísticas também são trapaceadas. São 500 mil ou 1 milhão. Mal pagos, eles são mimados. Por exemplo, cria-se um "comitê de reflexão" para determinar a melhor maneira de desenhar uma azeitona, ou então para propor novos sinalizadores das fronteiras nacionais. E, de cada vez, uma bonificação.

O goleiro da equipe de futebol recebe como funcionário público. Um desses comitês leva este nome barroco: "Comitê para refletir sobre a melhor maneira de transportar os processos do primeiro para o segundo andar do edifício".

Na corrupção generalizada os gregos também foram bastante ajudados pelos especuladores internacionais, especialmente os célebres bancos de Wall Street. Sabemos hoje que o Goldman Sachs fez um jogo infernal para mergulhar a Grécia no desastre e, de passagem, abocanhar uma fortuna. Há dez anos esse banco permitiu à Grécia contornar as salvaguardas estabelecidas pela União Europeia, ocultando dívidas de bilhões de euros dos auditores contábeis de Bruxelas.

Quando o governo estava sem dinheiro, criava uma estrutura e lhe dava um nome mitológico. Em 2001, firmou o Contrato Éolo (o deus dos ventos na Odisseia), hipotecando as rodovias e os aeroportos do país para levantar fundos enormes. É claro que, mais tarde, teria que pagar.

Além disso, uma outra praga suga o sangue da Grécia. É a compra de armamento. Esse país arruinado, desesperado, continua a se abastecer de material militar. Dos 27 países da União Europeia, a Grécia é de longe o que mais gasta nessa área. "É de um surrealismo total", afirmou o novo ministro da Defesa grego, Panos Beglitis. O orçamento da Defesa chega a 6 bilhões por ano. O número de soldados também é grande, representando 2,9% da população ativa do país, enquanto no conjunto da Otan a proporção é de 1,1%.

A razão desse apetite guerreiro é clara: a Turquia. Os dois países se detestam. A divisão da Ilha de Chipre envenena as relações. Os dois países estão numa corrida armamentista. "Quando um compra 50 tanques o outro adquire 60", disse o especialista Jean-Claude Hébert.

E, apesar da crise, a França continua propondo a venda de suas maravilhas: Atenas deveria assinar um contrato de compra de fragatas francesas por 2 bilhões, além de uma quinzena de helicópteros Puma.

E, olha lá, ei-lo de volta! - o avião francês Rafale, que Paris não consegue vender nem mesmo para Khadafi, que estava tão entusiasmado. E a Grécia? Alguns Rafales não seriam nada mal para impressionar a Turquia! A falência da Grécia, no entanto, pôs esse belo projeto na berlinda. A França corre o risco de voltar com seus Rafales debaixo do braço.

O espetáculo da Grécia é muito triste. Sobretudo o de Atenas, porque suas ilhas continuam suntuosas. Atenas é uma das cidades mais desfiguradas do mundo, e isso há muitos anos. É um caos de cubos de cimento espalhados ao acaso, sem graça, em meio a um mar de sol e poeira. Os cidadãos estão endividados até o pescoço, cheios de cartões de crédito. Nessa cidade sufocante - exceto nos dias de chuva - observamos com inveja os pequenos jardins onde as famílias se reúnem. Sentimos o cheiro agradável de carneiro, linguiça e peixe grelhados. As pessoas bebem vinho, cantam cantam.

E a crise? E a falência? Veremos. Amanhã é outro dia.

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