Jin Young/Reuters
Jin Young/Reuters

Um Obama na dose certa para todas as Turquias

Mensagens bem calibradas do presidente melhoram a imagem dos EUA no país e em todo o mundo islâmico

Asli Aydintasbas*, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 23h37

Sou um jornalista turco que durante anos cobriu os Estados Unidos. Passei os últimos dias respondendo reiteradas vezes à inevitável pergunta de meus colegas turcos: "Washington vê a Turquia como uma república islâmica moderada?" A definição poderá soar como um elogio aos ouvidos americanos, mas na Turquia é um grave insulto.

Desde 2004, quando a expressão "islâmico moderado" foi introduzida inocentemente por Colin Powell, o secretário de Estado americano da época, os turcos acreditavam que Washington considerasse a identidade religiosa da Turquia mais importante que sua democracia secular - que seria mais provável que a Turquia pudesse se tornar um aliado americano conservador no mundo muçulmano em lugar de evoluir para uma democracia europeia.

"Quem define a Bélgica ou a Grã-Bretanha como um país cristão moderado?" indagam as pessoas aqui. Em uma nação em que o debate mais quente contrapõe religião a Estado, os secularistas elevaram a controvérsia "Islã moderado" a uma teoria que abrange tudo.

Eles afirmam que Washington apoia - ou, pelo menos, que o governo George W. Bush apoiava - o governo de orientação islâmica do Partido da Justiça e do Desenvolvimento, para que possa servir de respeitoso modelo ao restante do mundo muçulmano. (Paradoxalmente, os fundamentalistas islâmicos também odeiam a expressão " Islã moderado", pressupondo que implica uma versão de religião bastante diluída.)

Mesmo que os teóricos da conspiração do Islã moderado estejam enganados, é verdade que desde que o primeiro-ministro Tayyip Erdogan subiu ao poder, em 2003, Washington considera a Turquia como uma dualidade simplista: de um lado, massas religiosas lideradas pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento contra, do outro, a pequena elite secular e os militares. Quando os americanos apostaram na maioria eleitoral do governo, perderam contato com o restante da população.

Indubitavelmente, o presidente Obama foi instruído, assim como a secretária de Estado, Hillary Clinton, antes de sua chegada aqui, no mês passado, a jamais falar em Islã moderado. E ele seguiu as instruções. Na realidade, fez o contrário. O novo presidente americano - cuja pele escura e o segundo nome, Hussein, fizeram dele um herói popular aqui - esforçou-se, na segunda-feira, por reconhecer a pluralidade da Turquia em todas as suas cores, e para dizer à Europa que, recebendo a Turquia, ganharia "com a diversidade da etnicidade, da tradição e da religião".

A visita de Obama a Ancara foi uma série cuidadosamente calibrada de mensagens e gestos simbólicos que falaram a diferentes segmentos da Turquia. Ele se reuniu com líderes do governo, bem como com líderes da oposição, de partidos seculares, nacionalistas e curdos. Prometeu apoiar "a visão da Turquia de Ataturk como uma democracia moderna e próspera", como escreveu no livro de visitantes no mausoléu do fundador da Turquia secular.

Em nossa eterna crise de identidade, nós, turcos, ultimamente só estivemos pensando em opostos - ou seja, ou você é secular ou religioso, curdo ou turco, europeu ou do Oriente Médio. Foi preciso um jovem líder estrangeiro em sua primeira visita a este país para nos lembrar que somos todas essas coisas juntas, e muito mais.

Nem tudo foi tranquilo, é claro. Em seu discurso ao Parlamento, Obama instou Ancara a encarar a realidade das matanças de armênios em 1915, à qual a maioria dos eleitores turcos faz muitas objeções.

E a rápida menção de Obama, no Parlamento, à necessidade de a Turquia adotar novas reformas democráticas pareceu insuficiente. Desde 2007, o primeiro-ministro Erdogan tornou-se mais autoritário, atacou seus críticos, processou jornalistas e afastou turcos liberais que outrora o apoiavam. No domingo passado, os eleitores fizeram uma séria advertência com seu voto nas eleições municipais: o apoio global ao partido caiu de 47%, há dois anos, para 39%. As eleições revelaram um mapa dividido, quatro Turquias diferentes: a costa, liberal; o interior, conservador; o centro, ultranacionalista; e o sudeste curdo, nacionalista. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento crescerá quando englobar todas as cores da Turquia, e encolherá se as negar.

Foi maravilhoso o presidente ter lembrado aos europeus que o lugar da Turquia é na Europa. Mas vamos esperar que ele também lembre aos turcos que, chegar lá, exige maior tolerância e mais reformas. Essa viagem melhorará sem sombra de dúvida a popularidade dos EUA no mundo muçulmano - a visita de Obama à Mesquita Azul em Istambul, na terça-feira, é um acontecimento que provavelmente ecoará muito além das fronteiras da Turquia. Mas, até o momento, tudo diz respeito a nós mesmos - nossa democracia em luta entre a Europa e o Islã.

*Ex-diretor de redação do jornal Sabah, em Ancara. Escreveu este artigo para The New York Times

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Os EUA não estão e nunca estarão em guerra com o Islã, diz o presidente Obama no Parlamento turco. Na primeira viagem oficial a um país muçulmano, Obama elogiou o caráter laico e democrático da Turquia e reafirmou o apoio americano à entrada do país na UE.

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