Um pai de coragem

Como fez o banqueiro nigeriano com o filho, outros pais e líderes muçulmanos deveriam denunciar publicamente o terrorismo

Thomas L. Friedman, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2010 | 00h16

Com certeza, a figura mais importante, interessante - e, sim, heroica - no episódio do avião da Northwest no dia de Natal foi o pai do quase homem-bomba Umar Farouk Abdulmutallab, o banqueiro nigeriano Alhaji Umaru Mutallab. Ele fez algo que, até onde sabemos, nenhum pai de atacante suicida havia feito: foi à embaixada americana na Nigéria e nos preveniu de que mensagens de texto de seu filho revelavam que ele estava no Iêmen e havia se tornado um ardoroso e possivelmente perigoso radical.

Estamos nos recriminando sobre como "nosso sistema falhou" - e certamente falhou - ao permitir que Abdulmutallab, o quase homem-bomba, entrasse naquele avião. Mas o pai dele nos diz algo mais: "Meu sistema familiar, nosso sistema comunal, se rompeu. Meu prórpio filho caiu sob a influência de uma versão jihadista do Islã que eu não reconheço e tenho motivos para temer".

O Times, citando um primo do banqueiro, disse que o filho havia enviado a ele, pai, uma mensagem de texto do Iêmen em que dizia ter "encontrado uma nova religião, o verdadeiro Islã" e jamais voltaria para casa. Em 20 de fevereiro de 2005, um post na internet atribuído ao filho e citado pela Associated Press dizia: "Imagino como será a grande jihad, como os muçulmanos vencerão... e governarão o mundo, e uma vez mais eles estabelecerão o grande império!!!" Encontrar pessoas com a coragem de confrontar essa "ruptura" identificada pelo pai, a que atrai jovens do seu ambiente normal para uma disposição de cometer atentados suicidas contra civis inocentes como parte de alguma fantasia de poder jihadista, é o que mais importa agora.

Sim, precisamos absolutamente ficar à altura de nossos ideais, como o presidente Barack Obama está tentando fazer ao proibir a tortura e fechar a prisão de Guantánamo. Não podemos deixar essa "guerra ao terrorismo" nos consumir. Não podemos deixar nosso país se tornar apenas as Estados Unidos de Combate ao Terrorismo e nada mais. Somos o povo do 4 de Julho, não do 11 de Setembro.

Mas mesmo se fizermos tudo isso, nenhuma lei ou muro que criarmos será suficiente para nos proteger, a menos que as sociedades árabes e muçulmanas de onde esses terroristas suicidas saemtambém imponham restrições políticas, religiosas e morais - a começar por desonrar os perpetradores de atentados suicidas e chamar seus atos de assassinato, não de "martírio".

Eu continuo dizendo: é preciso contar com a atitude de aldeia. O pai, Alhaji Umaru Mutallab, viu-se como parte de uma comunidade global, baseada em valores compartilhados, e por isso deu o alarme. Bendito seja! A menos que mais pais, líderes espirituais, líderes políticos muçulmanos - a aldeia - estejam prontos a denunciar publicamente os atentados suicidas contra civis inocentes - os seus e os nossos -, esse comportamento não se extinguirá.

No dia 1º, por exemplo, um suicida detonou um veículo carregado de explosivos no meio de um torneio de voleibol na aldeia de Shah Hassan Khel, no Paquistão, matando mais de cem pessoas, na maioria jovens. Sem surpresa. Quando o uso do atentado suicida torna-se legítimo contra "infiéis" não muçulmanos no exterior, ele se torna legítimo contra adversários muçulmanos em casa. E o que se torna "legítimo" e "ilegítimo" numa comunidade é mais importante que qualquer regulamentação governamental.

Com extrema frequência, porém, governos árabes e muçulmanos prendem seus jihadistas em casa, os denunciam privadamente a nós, mas não dizem nada em público. Líderes globais do Islã - como o rei da Arábia Saudita ou a Organização da Conferência Islâmica - raramente atacam em público as ações e a ideologia jihadistas com o fervor e protestos de massa que os vimos usar, por exemplo, contra as caricaturas dinamarquesas do profeta Maomé.

Obama não deveria hesitar em cobrar isso - respeitosa, mas publicamente. Se ele somente pressionar por mais segurança em aeroportos, o que deve fazer, estará fugindo do problema.

"Quando se quer fazer com que as pessoas se comportem mais responsavelmente, não se pode apenas estipular mais regras e regulamentos", disse Dov Seidman, presidente executivo da LRN, que ajuda empresas a adotar culturas éticas e autor do livro How (Como). "É preciso engajar e inspirar pessoas num conjunto de valores. Elas precisam ser governadas tanto de fora, pela obediência às regras, como de dentro, inspiradas por valores compartilhados. É por isso que a vergonha é tão importante. Quando expomos publicamente um banqueiro por receber bonificações exageradas atuamos na verdade como inspiradores, porque estamos dizendo à categoria: "Vocês estão se comportando abaixo da maneira como um ser humano responsável deveria se comportar". Precisamos inspirar a aldeia a desonrar aqueles que traem os valores comuns."

Toda fé tem seu lado violento. O Ocidente não está imune. A questão é ver como o centro lida com isso - tolera? Isola? Desonra? Os jihadistas são um problema de segurança para nosso sistema. Mas também são um problema político e moral para o sistema árabe-muçulmano. Se eles não se dispuserem a enfrentar esse problema por nós, espero que o façam para eles mesmos. No fim, acabaremos encontrando uma maneira de manter a maioria dos jihadistas fora de nossos aviões e de nossos jogos de voleibol. Eles terão de conviver com eles.

Comentarista político do New York Times e escritor. É autor de O Mundo É Plano (Objetiva)

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