Um país no espelho

O futebol não é mais racista que outras áreas da sociedades: é só sua caixa de ressonância

Hilário Franco Júnior* , O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h09

Na terça-feira, a diretoria do Santos pediu ao Ministério Público Estadual a instauração de inquérito policial para identificar os autores das ofensas racistas contra o volante Arouca no jogo com o Mogi Mirim, no dia 6, pelo Campeonato Paulista.

Quando, há cerca de um mês, o jogador Tinga, do Cruzeiro, foi alvo de injúrias racistas no Peru a opinião pública brasileira ficou indignada. E sentiu-se reconfortada por viver numa democracia racial. Até que na semana passada se percebeu que o rei estava nu. No dia 5 o árbitro Márcio Chagas da Silva foi vítima de manifestações racistas em Bento Gonçalves (RS); no dia seguinte foi a vez do volante Arouca, do Santos FC, em Mogi Mirim (SP); três dias depois, a do lateral Assis, do Uberlândia, em Patos de Minas (MG). Nesses episódios os ofensores não foram, portanto, nem vizinhos preconceituosos nem agressivos habitantes das metrópoles. Foram brasileiros comuns de pequenas cidades. As autoridades e a opinião pública viram-se, então, obrigadas a olhar de frente para um problema antigo que se fingia não nos dizer respeito.

Assim surpreendidas, para combater o problema recorreram às clássicas tentativas que se têm revelado anódinas. Interditar estádios ou enchê-los de faixas contra o racismo talvez acalme a consciência de algumas pessoas, mas talvez também exacerbe o ressentimento de outras. A punição pecuniária para o clube envolvido poderia ser mais útil se aplicada corajosamente, mas o foi de forma tímida e em somente um caso, com o Esportivo de Bento Gonçalves multado em R$ 30 mil (e cinco jogos de interdição do estádio). O castigo esportivo talvez se revelasse eficaz em ocorrências semelhantes - perda automática de x pontos, eliminação da competição em caso de reincidência - não fosse vetado pelo corporativismo dos clubes e pelos interesses político-financeiros de federações e confederações.

As medidas repressivas não bastam; é preciso sobretudo identificar as raízes do problema. Na Europa os episódios racistas no futebol são igualmente de trato difícil, mas ao menos parecem mais fáceis de serem compreendidos. É quase previsível, por exemplo, que na Itália em longa crise econômica e institucional e mais de 2,3 milhões de cidadãos desempregados, ocorram reações xenófobas diante da chegada a cada ano de milhares de africanos ilegais e de assimilação complexa. Por contraste, o caso do Brasil pode causar espanto - os alvos de racismo não são estrangeiros ou indivíduos de cidadania recente, e sim de uma já longínqua ascendência africana. Aumenta a estupefação, sobretudo para observadores europeus, nosso suposto igualitarismo racial cuja melhor expressão estaria justamente no futebol.

A realidade é, mostram os fatos, bem mais nuançada. Não é inútil lembrar que no começo do século 20 havia rejeição a negros e mestiços no futebol brasileiro. A plena entrada deles nesse palco, a partir da década de 1930, deveu-se mais ao reconhecimento de seu talento esportivo que de seus direitos sociais. Situação que em certa medida se prolonga até hoje. Também à questão racial se aplica a célebre definição que Sérgio Buarque de Holanda deu do brasileiro como homem cordial, isto é, diz a etimologia, ligado às coisas do coração, às emoções profundas, escondidas por um comportamento na aparência generoso e caloroso que revela, porém, dificuldade no estabelecimento de relações sociais maduras, na adesão à civilidade que implica certa coerção.

Ora, como espaço privilegiado da emoção o futebol não poderia deixar de sintetizar e manifestar algumas tensões sociais latentes. Ele não é nem menos nem mais racista que outros domínios da sociedade brasileira (ou italiana, ou qualquer outra). É seu espelho, sua caixa de ressonância. Um episódio de discriminação ocorrido, por hipótese, num bar ficará restrito ao conhecimento de poucas pessoas; se o palco for um estádio de futebol, o fato ganhará larga publicidade. Diz o noticiário que Arouca foi ofendido por "três ou quatro torcedores"; Assis, por um único. Números, portanto, não superiores aos de cenas de desrespeito racial em um hipotético bar, baile ou parque. É evidente que todo ato racista é condenável independentemente da quantidade de pessoas que o pratiquem, mas também independentemente do local em que ocorre: ele não é mais incivilizado por se dar em um estádio.

Comentando os acontecimentos da semana passada, o ex-craque Raí observou que, se o racismo "passar impune no futebol, com certeza passará impune na sociedade". É verdade. No entanto, o inverso também o é, e com mais razão. No futebol o racismo é ambíguo: os mesmos torcedores que ofendem o jogador negro do time adversário aplaudem o negro do próprio time. Onde nasce e prospera o racismo é na sociedade. Inclusive com conceitos e práticas que o reforçam mesmo pretendendo o contrário. Proclamar a suposta superioridade da mestiçagem ou reservar cotas raciais na universidade pública alimenta pelo avesso aquilo que se quer combater. O inverso de um racismo é outro racismo. A tessitura das malhas sociais num país com a história e o perfil do Brasil é complexa. Precisa ser pensada e debatida de forma profunda e contínua, não apenas emocional e emergencial.

*HILÁRIO FRANCO JÚNIOR É PROFESSOR , APOSENTADO DA USP. AUTOR DE A DANÇA DOS DEUSES. FUTEBOL,  SOCIEDADE,  CULTURA , (COMPANHIA DAS LETRAS) E,  PELA MESMA , EDITORA,  DANDO TRATOS À BOLA - ENSAIOS , SOBRE FUTEBOL (NO PRELO)

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