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Um panorama histórico da distopia, de Zamiátin a Margaret Atwood

A literatura usa da distopia para abordar o estado totalitário, o jugo corporativo, o colapso ambiental, o fundamentalismo religioso, a opressão misógina e o terrorismo

Paulo Nogueira, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2019 | 16h00

Na civilização, da qual a ficção literária é talvez o fruto mais nutritivo, o futuro ainda é o que era. Pois é nele que os seres humanos e as sociedades projetam seus sonhos e seus pesadelos – aquilo que anseiam e aquilo que temem, o que querem e o que não querem. Amanhã vai ser outro dia. Na literatura, essas viagens na maionese se intitulam utopia e distopia. 

São dois lados da mesma moeda – até porque a maioria das distopias começa como utopia, porém o paraíso degenera em inferno. O que não impede que a gente continue salivando por quimeras, quer a fantasia reacionária de uma suposta Idade de Ouro (há utopias com retrovisor), quer delírios progressistas de uma comunidade marmoreamente edênica. Sem falar em utopias sobrenaturais, como A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, na qual o futuro é eternidade. Como observa Ian McEwan no novinho Blues do Fim dos Tempos: “Enquanto as pessoas se encontrarem frustradas material e espiritualmente, haverá sonhos de uma sociedade perfeita onde todos os conflitos são resolvidos e todas as necessidades acudidas.”

Literariamente, distopia tende a dar samba – e utopia, a desafinar (ou a dar apenas samba exaltação, que é chato, ou de uma nota só, que idem). Pois a narrativa ficcional implica conflitos – e não um mais do mesmo sempre perfeitinho, que lembre a definição de Beckett da vida: “Uma série de dias sempre iguais, e um mais curto”.

Ora, ficção é fricção. Já na Utopia de Thomas More, de 1516, personagens (e o que é pior: nós, leitores) bocejam naquela ilha idílica, vesgos tédio, incrustados para sempre num porre edificante. 

Ficções distópicas tendem a extrapolar as inquietações e ansiedades da respectiva cultura, como um alerta vermelho – como se a atualidade enfiasse o pé na jaca. Há um outro matiz: a “eutopia” (“eu”, bom em grego), um lugar de bem-estar mas uma aspiração viável, ao contrário do sonho impossível da utopia. Tudo deriva do grego “topos”, que significa lugar. “Distopia” aflorou pela primeira vez em 1868, com o filósofo inglês John Stuart Mill arengando a Câmara dos Comuns sobre um lugar de dor (“dys”, em grego). Antes, se usou “cacotopia” (de “kakos”, ou mau), proposto pelo pensador Jeremy Bentham. O romancista Anthony Burgess, autor de uma distopia supimpa, A Laranja Mecânica, notou que “cacotopia” soa ainda mais patibular. 

O recente Dystopia: A Natural History, de Gregory Claeys, é um GPS conceitual útil. Analisa a noção de “monstruosidade” e de “espaços intrinsecamente maus”. Na Idade Média, “espíritos malignos precisavam ser ritualmente isolados”. Alguns desses monstros (como a lâmia, um súcubo feminino) são hoje anacrônicos. Outros, não: “O elo entre monstruosidade e antissemitismo era evidente no início da Era Moderna.”

Depois do Iluminismo, descambamos nos pesadelos da Razão, como o Terror jacobino e os totalitarismos de esquerda e direita. Incluindo o escárnio dos campos de extermínio nazistas (“O Trabalho Liberta”) ou do primeiro comissário soviético da Justiça, Nikolai Krilenko (“Devemos fuzilar não só os culpados. A execução dos inocentes impressionará ainda mais as massas.”)

Os primeiros romances distópicos eram satíricos. Como As Viagens de Gulliver (1726), zoeira de Swift ao Iluminismo. Gulliver visita a Academia de Laputa, onde os sábios estão tentando criar almofadas de pedra e ovelhas implumes – enquanto aperfeiçoam o idioma, se livrando de todas as palavras. 

O século 20 introduziu novas abordagens distópicas: o estado totalitário, o jugo corporativo, o colapso ambiental, o fundamentalismo religioso, a opressão misógina e o terrorismo. E distopias de direita, como A Revolta de Atlas de Ayn Rand, 8 milhões de exemplares vendidos. Ou de esquerda, como O Conto de Aia, de Margaret Atwood.

O percurso de O Conto da Aia, de 1985, ilustra também os tiques da sociedade hodierna (palavrinha besta, mas paciência). Trata-se de uma “teonomia”, em que a sociedade é governada por lei divina. Segundo a autora, é uma “anti-predição”: “Se esse futuro puder ser descrito, talvez não aconteça”. Ora, em 2016, com Trump na Casa Branca, mulheres desfilaram pelos EUA com cartazes que diziam: “Tornem Margaret Atwood Ficção Novamente!” No romance, médicos que realizam abortos são enforcados como assassinos. Em 2019, o estado do Alabama aprovou uma lei decretando o aborto (inclusive em casos de estupro ou incesto) um crime punível com prisão perpétua. 

O livro ganhou prêmios em 1985, mas só a série de TV da Hulu, 40 anos depois, o viralizou. Em 2019, a autora, aos 80 anos, lançou uma continuação: Os Testamentos, vendendo 300 mil exemplares em duas semanas. No dia do lançamento, Atwood foi entrevistada no Teatro Nacional de Londres, com transmissão para 1000 cinemas em todo o planeta. A escritora açambarcou a cerimônia do Emmy, prêmio que em 2017 o Hulu se tornou o primeiro canal de streaming a receber, com O Conto da Aia – um mês antes de Jodi Kantor e Megan Twohei denunciarem Harvey Weinstein, desencadeando o #MeToo. Enquanto Os Testamentos embolsava o Booker Prize já ao chegar às livrarias, The Handmaid’s Tale proliferava como filme (de Volker Scholondorf), ópera, balé, graphic novel. Sem falar no troco zoado no YouTube: O Conto da Aia Para Homens

Daí a pulga atrás da orelha de alguns: será que, na sociedade telegênica contemporânea, elementos distópicos assumem uma conotação positiva? O boçal programa Big Brother branqueou o ditador totalitário de 1984, com até agora 19 edições só no Brasil. Há quem encare a participação no reality como um ofício, e há quem vote em candidatos cujo currículo se resume a isso. Entrementes, em bolsões machistas do Ocidente segue o feminicídio, e sob o fundamentalismo islâmico a mulher (aia do pai, do marido, do irmão) ainda é uma espécie de galinha poedeira, confinada no gineceu e amortalhada viva numa burca (quando teima em estudar, leva uma bala na cabeça, como Malala aos 15 anos).

Em 2020 a distopia Nós, do russo Yevguêni Zamiátin faz 100 anos. No ato, foi proibida na URSS (onde saiu apenas em 1988), mas tanto Aldous Huxley quanto George Orwell leram-na e se basearam nela em Admirável Mundo Novo e 1984. A Rússia, aliás, gerou palavras distópicas como “terrorismo”, “niilismo” e “totalitarismo” (além de “intelligentsia” e “populismo”). Lenin inventou o sistema totalitário, criando o “Estado de partido único” (antes, um partido, como o termo indica, representava apenas uma parte da sociedade). Campos de concentração surgiram na URRS em 1918, muito antes dos campos nazistas (e continuaram até bem depois da queda de Hitler). Foi Turgueniev quem popularizou o termo “niilista” (para quem tudo é nada), aplicado ao protagonista do romance Pais e Filhos, Bazarov. Dostoievski descreveu terroristas contemporâneos em Os Possessos, e Andrei Bely em Petersburgo.

Em Nós soa uma nota proverbial nas distopias: a resistência contra o “Benfeitor” (o Big Brother russo). Uma tradição longeva, chegando até V de Vingança, de Alan Moore. Porém, agora há quem se pergunte que tipo de “resistência” o gênero fomenta, se as distopias estão tão... na moda. Outro dia, a revista Vulture publicou uma lista das 100 melhores ficções distópicas, e proclamou que “é bacana ser pessimista”. A TV está infestada de distopias (Black Mirror, 3%, The Man in High Castle, The 100, etc). Qualquer que seja o nosso pesadelo, há um show customizado esperando por nós. O que Orwell diria disso, ele que ainda em vida alertava para a trivialização da palavra “fascista”? Quando algumas dessas histórias, muitas das quais criticam o consumismo, realmente bombam, viram comerciais da... Apple. 

Na New Yorker, a historiadora Jill Lepore resmungou que “a distopia se tornou uma ficção de submissão, de um século 21 solitário e emburrado, a ficção das fake news e infowars. Já não exige coragem: para ela, o chororô ofendidinho é suficiente. O conselho é: se desespere ainda mais. É atraente para a esquerda e a direita, porque pede apenas que você goste da companhia de pessoas cujo medo do futuro combina confortavelmente com o seu”. Aqui entre nós: até o palhaço Coringa virou um manteiga derretida.

Bom, desde que o mundo é mundo, não há existência incólume, e talvez uma definição da vida seja a intermitência de sonhos e pesadelos. Porém, pelo menos na literatura, sem perrengues não há ficção. Se está tudo bem para o protagonista, está tudo péssimo para o autor (e para o pobre leitor, com aquela história para boi dormir). Quanto ao resto, Chekhov (outro russo!) disse uma vez que a tarefa de um autor não é fornecer soluções, apenas descrever uma situação com tanta autenticidade e fazer tal justiça a todos os lados da questão que o leitor não poderia mais fugir dela.

Não admira que uma das aberturas mais memoráveis da literatura (a de História em Duas Cidades, de Dickens) seja um suculento paradoxo: “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos.” Não foi sempre assim, do Gilgamesh a Blade Runner? Eba!

     

    

    

 

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