Um personagem (in)dispensável

Produto de duas vertentes fundamentalistas da história argentina, a Igreja e as Forças Armadas, o ditador Jorge Videla hoje acabou servindo de escudo ético para o kirchnerismo

CEFERINO REATO*,

23 de março de 2013 | 17h51

Um militar preso ao seu passado, que consegue relatar com frieza e precisão os fatos terríveis que perpetrou quando era o homem forte da ditadura que dirigiu durante cinco anos, entre 1976 e 1981. Um católico que se considera instrumento de Deus na “guerra contra a subversão”, uma “guerra justa” em que defendeu os chamados valores ocidentais e cristãos. Jorge Rafael Videla é produto dessas duas vertentes fundamentalistas da história argentina: de um lado o Exército, concebido como o pilar da pátria; de outro, uma maneira de entender o catolicismo que abençoa essa aliança básica entre a Igreja e as Forças Armadas.

Videla, que já tem 87 anos e acumula várias sentenças de prisão perpétua por delitos de lesa-humanidade, considera que suas penúrias do presente se devem precisamente ao fato de as forças sob seu comando terem sido vitoriosas naquela “guerra contra a subversão”. Ele vê a si mesmo como um “preso político”. Em sua última entrevista para a revista espanhola Cambio 16, Videla causou um choque ao exortar os oficiais mais jovens a um golpe de Estado contra o governo da presidente Cristina Kirchner. Posteriormente desmentiu tais declarações, que pelo menos até agora não foram confirmadas pelo jornalista que o entrevistou.

Durante a série de entrevistas que realizei para meu livro Disposición Final, la Confesión de Videla sobre los Desaparecidos, nunca me interessei por Videla como uma figura do momento presente, mas como personagem central da ditadura que tem muito a explicar sobre o governo mais sangrento da história nacional. Entendo que ele já não tem nenhum peso específico no Exército, o qual, face ao estrondoso fracasso da última ditadura, também não tem mais o peso político de antes. Desde o retorno à democracia, em 1983, os governos civis reduziram a importância política dos militares, que hoje perderam inclusive a sua capacidade de defender a nação. E, dentro da Igreja Católica, a corrente fundamentalista à qual Videla está vinculado também está em baixa há muitos anos. Existem ainda alguns setores, mas não têm mais consistência.

Enfim, o mundo e a Argentina mudaram muito nesse sentido, e Videla pertence de corpo e alma àquele passado. De qualquer maneira, suas palavras ainda provocam estremecimentos nos argentinos. Por quê? De um lado, a ditadura que ele liderou terminou num tríplice fracasso: colapso econômico, uma guerra perdida pelas Ilhas Malvinas e milhares de presos desaparecidos e assassinados. Em meu livro, Videla reconhece pela primeira vez que os desaparecimentos de presos foram um método para ocultar, “mascarar” toda uma sequência de assassinatos que, não tivessem sido dissimulados daquela maneira, acabariam por provocar protestos dentro e fora do país. Mas - e isso talvez seja o que mais surpreende e desagrada - ele não se arrepende; pelo contrário, afirma que “dorme muito tranquilo todas as noites” e que sente que Deus “não lhe soltou a mão”.

Não houve erros nem excessos na repressão da ditadura, e os militares chegaram ao governo, ele afirma, com listas de pessoas a serem detidas, incluindo guerrilheiros e suspeitos de participar da guerrilha e líderes sociais que, segundo eles, favoreciam os insurgentes. A repressão estava a cargo dos chefes de cada uma das zonas em que o país foi dividido, que decidiam o destino de cada preso de acordo com um manual de procedimentos. O golpe de 37 anos atrás foi o mais organizado da história argentina. Começou a ser preparado nove meses antes, e seis meses antes foi fixada a data em que os militares tomariam o poder. A meta da ditadura era não só derrotar as guerrilhas como também reorganizar o país, ou seja, “eliminar” as causas dos problemas nacionais: o poder sindical, a vigência eleitoral do populismo peronista e o empresariado acostumado a privilégios, entre outros. Como se a sociedade fosse de argila e pudesse ser moldada à vontade.

As feridas foram tão profundas que ainda estão supurando. E se reabriram depois da formidável crise econômica, social e política que sacudiu o país em 2001-2002 e fez com que muitos argentinos voltassem sua atenção para o passado, numa tentativa de encontrar ali as razões dos fracassos recorrentes do país. No livro Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, o personagem central da história se pergunta: ¿cuán fue que se jodió Perú? Muitos argentinos concordarão que a Argentina se jodió nos anos 70 e 80 com o fracasso dos militares no poder.

Por outro lado, Videla emerge de uma situação que o supera totalmente. O golpe militar de 24 de março de 1976 foi induzido por um amplo círculo que incluía empresários, sindicalistas, políticos, sacerdotes e até guerrilheiros, que acreditavam que a tomada do poder pelas Forças Armadas e o endurecimento da repressão não fariam mais do que levar a população a apoiar os “exércitos populares” insurgentes, acelerando a chegada inevitável da revolução socialista. Era um período na Argentina em que praticamente ninguém defendia a democracia, o Estado de Direito e os direitos humanos. Portanto, o fracasso da ditadura é também o fracasso de boa parte da sociedade argentina.

Contudo, esta verdade histórica é difícil assumir: nenhum setor hoje nem sequer admite que apoiou aquele golpe militar. Na Argentina todos se consideram eternos defensores dos direitos humanos - em primeiro lugar o governo, que desde 2003 vem sendo dirigido pelo casal Kirchner, dois políticos experientes do peronismo que durante a ditadura viveram em Rio Gallegos, ao sul do país, e jamais defenderam seus companheiros que sofriam perseguição, prisão, torturas, morte ou desapareceram. Na realidade, tanto Néstor, já falecido, como Cristina Kirchner só acordaram para os direitos humanos em 2003, quando conheceram a líder das Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, e formaram com ela uma sólida aliança. O casal Kirchner impulsionou a reabertura dos processos contra militares pelas violações de direitos humanos e construíram uma narrativa maniqueísta da história recente que lhes propiciou muita popularidade e conferiu um escudo ético que tem dissimulado os abusos de poder e as denúncias de corrupção.

Nesse sentido Videla é um personagem necessário, quase indispensável, para o governo de Cristina Kirchner. Suas últimas declarações, depois rejeitadas, exortando um golpe militar, não puderam ser aproveitadas convenientemente pelo oficialismo por causa da urgência do momento, os problemas econômicos e a eleição de Francisco, o primeiro papa argentino e sul-americano, que como cardeal Jorge Mario Bergoglio (aliás, não é ele na foto) era maltratado pelo kirchnerismo. Mas essa é outra história; ou parte da mesma. Veremos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*CEFERINO REATO É JORNALISTA ARGENTINO, AUTOR DO LIVRO DISPOSICIÓN FINAL, LA CONFESIÓN DE VIDELA SOBRE LOS DESAPARECIDOS

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