Michel Dalder/Reuters
Michel Dalder/Reuters

Um príncipe falido tenta salvar o reino da bancarrota em 'Sua Alteza Real'

Livro menos conhecido de Thomas Mann tem tradução de Luis S. Krausz

Irineu Franco Perpetuo, Especial para o Estadão

26 de março de 2022 | 16h00

Um Thomas Mann mais leve, mais breve e, talvez por isso, menos conhecido e valorizado: a elegante tradução de Luis S. Krausz é a oportunidade perfeita para conhecer Sua Alteza Real (Companhia das Letras, 344 páginas, R$ 74), romance com tom e ambiente de opereta.

Vencedor, em 1929, do Prêmio Nobel de Literatura, o alemão Thomas Mann pode ser visto não apenas como um continuador moderno da glória de Goethe, mas ainda como um escritor relacionado aos clássicos russos do século 19. 

Não apenas pela rica ensaística que deixou a respeito de Tolstoi e Dostoievski, mas também porque normalmente o associamos a obras caudalosas e profundas. Como A Montanha Mágica, e suas mais de 800 páginas de intricadas discussões filosóficas e diálogos em francês. Mesmo quando pensamos em uma novela de Mann, a que vem à mente é Morte em Veneza – breve no tamanho, mas densa em suas reflexões sobre a arte, a vida e a sensualidade.

Talvez por isso não saibamos muito bem como reagir diante de Sua Alteza Real, de 1909, primeiro romance publicado pelo escritor depois do sucesso fenomenal obtido por Os Buddenbrook (1901), monumental saga familiar recheada de elementos autobiográficos.

Como Krausz informa em seu esclarecedor posfácio, tais elementos se fazem presentes também em Sua Alteza Real, onde “estão representadas a intensa ligação do escritor com sua irmã Julia e sua rivalidade com seu irmão Heinrich; seu amor por Paul Ehrenberg e sua ligação com Katia Pringsheim, assim como o confronto de um filho de uma família tradicional de Lübeck com o ambiente de uma casa alta da burguesia judaica de Munique – aquela da família de sua futura esposa, cujo patriarca guarda algumas semelhanças com o caricaturesco Samuel Spoelmann”.

Ainda de acordo com Krausz, “trata-se de um romance escrito por um homem jovem, recém-casado, que, segundo as palavras do próprio autor, ‘gravita em torno do tema central da minha juventude, o tema artístico da solidão e da singularidade […]no espírito de uma serena reconciliação entre austeridade e felicidade’”.

O personagem-título é Klaus Heinrich, príncipe do falido e imaginário grão-ducado de Grimmsburg, cuja perspectiva de salvar o reino da bancarrota é o matrimônio com Imma, a filha do ricaço norte-americano Samuel Spoelmann.

Para cinéfilos, Grimmsburg guardará semelhanças com o grão-ducado de Fenwick, da comédia O Rato Que Ruge, estrelado por Peter Sellers. No filme de Jack Arnold, o pequeno país resolve declarar guerra aos EUA, com a intenção de ser derrotado e receber ajuda financeira para a reconstrução.

Se a película britânica é posterior à redação de Sua Alteza Real, uma obra que parece mais próxima a seu espírito é a opereta A Viúva Alegre (1905), do austríaco Franz Lehár. Inspirada na comédia francesa O Adido da Embaixada (1861), do francês Henri Meilhac, ela gira em torno dos problemas financeiros do ficcional grão-ducado de Pontevedro, que só pode ser resgatado da falência se a viúva do rico Barão Zeta mantiver sua fortuna no país, se casando com um cidadão de lá.

No romance de Mann, como na opereta, o tom é de comédia. Porém, não se trata de uma sátira corrosiva, mas sim afetuosa – com o previsível final feliz. Encontrar o tom justo, tanto na partitura, quanto na obra literária, é uma operação sensível. E aí reside o mérito da tradução de Krausz, que consegue ressaltar o humor da escrita do autor sem jamais pesar a mão, ou perder a ligeireza. Sua Alteza Real é uma leitura prazerosa, que revela uma faceta surpreendente de um dos maiores escritores do século 20.

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