The New York Times
The New York Times

Um quarto de século para ver atores asiáticos em Hollywood

Desde 'O Clube da Felicidade e da Sorte', de 1993, Hollywood não via um time de orientais em megaprodução, o que acontece agora com 'Crazy Rich Asians'

Robert Ito, The New York Times

18 Agosto 2018 | 16h00

Em janeiro de 2017 o diretor Jon M. Chu anunciou uma audição pública para atores asiáticos e asiático-americanos para compor o elenco do seu novo filme, uma adaptação de Crazy Rich Asians (Podres de Ricos) um romance de Kevin Kwan. Gravada na cozinha da sua casa em Hollywood, a convocação online instruía os interessados em participar do elenco de asiáticos, desde atores novatos e “personalidades com talentos ocultos” a postarem vídeos deles na mídia social. “Estamos à sua procura”, ele anunciou.

O convite era sedutor. A comédia romântica seria um filme de grande sucesso com orçamento de US$ 30 milhões. O livro que inspirou o filme já havia vendido milhões de exemplares. E agora vem a singularidade de toda a história: Com que freqüência um cineasta sai em busca de um grupo inteiro de asiáticos para um filme? A última vez foi há 25 anos, com The Joy Luck Club (O Clube da Felicidade e da Sorte) de 1993. Muitos dos atores que Chu está procurando agora nem haviam nascido naquela época.

Para os espectadores asiáticos e asiático-americanos o filme, lançado há quatro dias, é importante não como um cometa de Halley. Antes de O Clube da Felicidade e da Sorte, tivemos o The Flower Drum Song, de 1961, e depois o que ocorreu? Há muita esperança de que este novo filme tenha sucesso. Os produtores usam o que chamam de “comps” – filmes recentes similares ao que estão promovendo – para vender suas ideias aos estúdios e conseguir orçamentos. Para os produtores de Podres de Ricos não havia nenhum. Para muitos filmes com temas asiáticos no futuro a esperança é de que Podres de Ricos se torne esse “comp”.

Quando Chu fez a convocação online, o filme pareceu ser uma dádiva para atores asiáticos, aspirantes ou não. Neste filme os atores asiáticos interpretam tudo: os românticos personagens principais e os simpáticos coadjuvantes, os cômicos e os bandidos, o indivíduo comum. Com mais de quatro bilhões de asiáticos no planeta, quão difícil é formar um elenco assim?

Muito difícil, como foi neste caso. O talento estava ali. Mas à medida que os papéis foram criados e o elenco era formado os cineastas depararam com um problema relacionado com a identidade na diáspora asiática. Um asiático conseguiria interpretar um americano-asiático? Um malaio conseguiria fazer o papel de um indivíduo de Singapura? 

Em Hollywood, hoje, os debates mais polêmicos se centralizam em quem pode interpretar quem. Em 2016, a fala de atores asiáticos num papel principal foi enfatizado pelo projeto #StarringJohnCho, que repensou O Marciano,Vingadores, A Era de Ultron e outros filmes de sucesso como se estrelados pelo talentoso ator americano-coreano. No mês passado, Scarlet Johansson desistiu de trabalhar no filme biográfico Rub & Tug porque faria o papel de um homem trans, o que provocou uma reação dos atores trans e ativistas. E Hollywood é cada vez mais criticada pela prática de escalar atores brancos para papéis de asiáticos. Foi o caso de Tilda Swinton, que fez o papel do Ancião em Doutor Estranho ou Scarlett Johansson como Motoko Kusanagi em A Vigilante do Amanhã (Ghost in the Shell).

Muitos desses debates não seriam tão tensos “se houvesse papéis suficientes por aí”, disse Nancy Wanh Yuen, autora de Reel Inequality: Hollywood Actors and Racism, acrescentando que “não devíamos estar brigando por migalhas. Temos de lutar para o sistema se expandir para todos nós termos acesso aos papéis”.

De acordo com um estudo recente feito por Yuen e outros, 64% das séries de TV na temporada 2015-2016 não tinham nenhum americano-asiático regular; outro estudo revelou que dos principais 100 filmes lançados em 2017, quase dois terços deles não incluíram uma única personagem feminina americano-asiático.

Um dia destes Chu estava em sua casa em Hollywood relatando as alegrias e lutas de escalar seus atores asiáticos. Usando um boné de beisebol e camiseta cinza, ele falou em contratar lendas do cinema como Michelle Yeon e atores relativamente desconhecidos (Henry Golding), estrelas asiáticas (Fione Xie de Singapura) e americano-asiáticos em ascensão (Awkwafina).

Chu explicou também porque havia escalado um grupo tão grande, complementando as usuais convocações de elenco em Nova York e Los Angeles com uma busca em cinco continentes e uma audição pública online. “Não queríamos deixar ninguém de fora. Queria os Vingadores dos atores asiáticos”.

A busca teve início em 2013, quando os produtores, Nina Jacobson (Jogos Vorazes), Brad Simpson (Pose) e John Penotti (Awake/A Vida por um Fio) conseguiram os direitos do livro de Kevin Kwan. Na história, Rachel, professora sino-americana da Universidade de Nova York, viaja com seu namorado e professor londrino, Nick, para Singapura. Lá ela descobre duas coisas: a fria mãe de Nick, Eleanor, que acha que Rachel é inferior a ela, e que Nick e o resto da família são escandalosamente e incrivelmente ricos.

Como veio a ocorrer, houve problemas para escalar os atores mesmo antes de o livro chegar às livrarias. Kwan disse que um produtor que desejava publicar o livro havia sugerido que ele criasse uma Rachel branca, não asiática. Kwan se recusou.“Isso não me surpreende”, disse Constance Wu, atriz sino-americana que ficou com o papel de Rachel e tem sido uma crítica loquaz da tendência de Hollywood a “branquear” seus filmes. “Estou feliz por Kevin se mostrar firme. É preciso muita coragem para dizer não, especialmente se você tem medo de que tudo pode esvanecer se não disser sim”.

No início Jacobson e Simpson tinham determinados atores em mente, como Michelle Yeon, que estava na lista de todos para o papel de Eleanor. Ao contrário de outros, Michelle havia aparecido em dezenas de filmes em que o elenco inteiro era de asiáticos, como Police Story 3 Supercop, de Jackie Chan, e O Tigre e o Dragão. Mas não eram produções de Hollywood. “Para mim, era importante todo um elenco só de asiáticos. 25 anos? Não compreendo porque demorou tanto tempo”.

Para os outros papéis os produtores pediram ajuda a diretores de elenco veteranos conectados com atores em toda a Ásia, como PoPing AuYeung, que vive no Canadá. E buscaram atores de teatro em Nova York e Londres e também nas melhores escolas de arte dramática do mundo, particularmente em busca de alguém que representasse Nick.

Quando Chu fez o convite público, milhares de vídeos foram enviados. Atores dos Estados Unidos, Singapura e outros lugares se candidataram às audições, além de outros fora do setor que achavam que não tinham nada a perder.

Entre os principiantes estava Cheryl Koh, mais conhecida como Cheryl K, cantora do YouTube, cujos vídeos foram vistos mais de um milhão de vezes. Embora ela tivesse se candidatado a qualquer papel, foi sua interpretação de 15 segundos de um trecho a capella de Mama Knows Best, de Jessie J que convenceu os cineastas a lhe darem uma cena cantando uma música na abertura do filme, uma versão em inglês e mandarim de Money.

No final, somente alguns novatos do YouTube foram escalados – uma mulher escrevendo uma mensagem de texto em uma cena ou um padrinho de casamento em outra. Mas agora, disse Chu, ele possui “o mais impressionante banco de dados de talentos asiáticos que também se expressam em inglês”.

Um dos últimos a ser contratado foi Henry Golding, que se candidatou ao papel de Nick. Tipo perfeito para o papel: bonito e carismático. “Se tivermos uma exibição decente neste primeiro fim de semana, existem seis filmes programados em diferentes estúdios cujos atores principais são americano-asiáticos”, diz Chu. / Tradução de Terezinha Martino

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.