Um raio X da batina

Pesquisador mostra como a Igreja brasileira vem lidando com seus dilemas ao longo da história

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2008 | 00h00

Os temas mais delicados e espinhosos para a Igreja Católica brasileira estão lá. Abusos sexuais, celibato, hierarquia, psicanálise. Em Padres, Celibato e Conflito Social - Uma História da Igreja Católica no Brasil, o historiador americano Kenneth P. Serbin visitou cantos escuros que a Igreja resiste em iluminar. Ainda assim, ele acredita que a obra terá recepção calorosa dos religiosos brasileiros. O otimismo vem de uma crença inerente a historiadores: "somente olhando para o passado é que a Igreja vai se preparar para o futuro", diz Serbin, nome de destaque na nova geração de brasilianistas. E, se o passado inclui conflitos que remontam ao período colonial, atravessam a ditadura militar e desafiam o novo milênio, que assim seja.O livro, lançado esta semana no Brasil pela Companhia das Letras (originalmente, foi publicado nos Estados Unidos, em 2006), é resultado de pesquisas no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Minas Gerais, Santa Catarina, Brasília, Ceará, São Paulo e Pará. Trabalho para mais de 20 anos, mais de 150 entrevistas e consultas a pelo menos 14 coleções documentais. Ao longo da investigação, Serbin admite não ter sofrido resistência do clero brasileiro, que, ao contrário, abriu-lhe as portas de seus arquivos e relatou episódios surpreendentes. Um dos que mais o empolga é o da revolta de seminaristas nos anos 60. "Essa é a história desconhecida daquele período. Todos ouviram falar de José Dirceu, líder estudantil, mas os seminaristas ousaram um movimento humanizador cheio de entusiasmo." Nessa mesma época, jovens religiosos se encantaram com a psicanálise, desenvolvendo o que o historiador chama de "psicologia da libertação". "O objetivo era acabar com a submissão dos padres aos seus superiores", explica Serbin, que atualmente dá aula de história na Universidade de San Diego. Confira os principais trechos da entrevista que o brasilianista concedeu ao Aliás.NO CONFESSIONÁRIO"Tive bastante cooperação, inclusive da Igreja, na produção desse livro. Os contatos foram facilitados e os arquivos foram abertos, mesmo quando se tratava de temas delicados. No caso dos abusos sexuais de padres a mulheres e seminaristas, eu me baseei principalmente em fontes escritas. Encontrei cartas falando desses abusos e do seu acobertamento, como também algumas entrevistas confirmando tais casos. O impressionante é que a Igreja Católica no Brasil já fazia nos anos 30 o que a Igreja americana faz hoje. Quando um padre era suspeito ou acusado de abusos, não era punido. Simplesmente era transferido para outra diocese. Analisei documentos dos anos 30, 40 e 50 , mas certamente esses abusos aconteciam antes, porque há estudos de pesquisadores brasileiros que mostram episódios já no período colonial. No confessionário, os padres cantavam as mulheres. Isso quer dizer que o mau comportamento de padres é algo antigo e internacional. Porta-vozes do Vaticano quiseram fazer acreditar que isso é um problema único dos EUA. Não é.DEBAIXO DO TAPETE"O assunto dos abusos sexuais é uma bomba-relógio no Brasil. Não tenho provas, mas tenho certeza de que isso continua acontecendo. E os bispos querem continuar jogando para baixo do tapete. Existe um livro, que não teve muito destaque no Brasil, chamado Um espinho na carne, do padre Gino Nasini, um americano que atua no País. Ele faz uma estimativa de que 10% dos padres brasileiros estão envolvidos em abusos contra crianças, adolescentes e adultos de ambos os sexos. Somando o livro do padre Nasini à minha pesquisa, acredito que fique provado que há uma seqüência nos casos de abuso.O CELIBATO"O papel do padre na história da Igreja no Brasil era ensinar um comportamento correto ao povo. Para isso, a Igreja precisava de padres que dessem bons exemplos. Mas, no período colonial, os padres acabaram adotando hábitos de leigos. O padre Feijó, por exemplo, tinha mulher e filhos. E a história indica que ele mesmo era filho de um padre. Feijó liderou um movimento contra o celibato obrigatório que criou muitos atritos políticos. Do outro lado, estava a corrente dos chamados ultramontanos, conservadores que queriam que os padres fossem 100% celibatários. Foi uma luta política travada até na Assembléia Nacional. Até hoje, essa continua sendo uma reivindicação - não só dos padres brasileiros, mas especialmente deles. Uma sondagem feita pela Igreja em 2003 mostrou que 41% dos sacerdotes brasileiros são a favor do celibato opcional. É um índice alto. A Igreja vive essa divisão. Não haverá conciliação no curto prazo, porque isso depende do papa, e tanto João Paulo II quanto Bento XVI não colocaram o celibato na pauta.MULTIPLICAI-VOS"No período colonial, a Coroa Portuguesa não tinha interesse num clero forte e organizado no Brasil, porque via na Igreja um concorrente. Os jesuítas formavam um poder paralelo: tinham engenhos de açúcar, grandes propriedades, escravos, missões entre os indígenas, recursos financeiros. Quando o Concílio de Trento, no século 16, reformou a Igreja Católica em resposta à reforma luterana, passou a exigir que todas as dioceses do mundo tivessem seminários para moralizar o clero e torná-lo obediente, disciplinado e celibatário. Mas, por causa do ciúme da Coroa Portuguesa, as tentativas de implantar seminários no Brasil fracassaram - e o clero continuou afastado da moral e próximo dos leigos. Somente no século 19 a Igreja começa essa implantação. Até o começo da República, o Brasil só havia tido 12 seminários. Da República até 1960, em menos de 100 anos, o Brasil passou a ter mais de 600. Foi uma multiplicação rápida e eficiente. Centenas de milhares de garotos se tornaram seminaristas, embora apenas uma pequena porcentagem tenha se tornado padre. Roberto Campos, economista e ministro do governo Castelo Branco, foi seminarista. Outro exemplo é Juscelino Kubitschek, que estudou no seminário de Diamantina. SEMINARISTAS E REBELDES"As pessoas estão acostumadas a ouvir falar de José Dirceu, Vladimir Palmeira, UNE. A história desconhecida é a do movimento estudantil nos seminários, que batizei de Movimento Seminarístico dos Anos 60. No lugar de enfatizar uma obediência cega, os seminaristas queriam o diálogo entre formador e formando. Também queriam uma formação mais humana, integral, e um acompanhamento psicológico. As outras reivindicações eram que o celibato fosse opcional e que eles pudessem viver entre os pobres. Antes que a expressão ?teologia da libertação? fosse cunhada, esses jovens religiosos já a viviam. Eles não queriam ficar isolados nos prédios dos seminários, mas sim morar nas pequenas comunidades. Foi uma grande revolta. Havia uma revista, chamada O Seminário, de circulação nacional, que chegou a cinco mil assinantes. Claro que os conservadores da Igreja não gostaram nada disso. A revista foi fechada em 1968 e o movimento, extinto. Vários seminaristas foram presos e torturados durante a ditadura e a Igreja não lhes deu proteção. Uma tragédia. Era um momento de entusiasmo dos religiosos, para fazer da Igreja uma instituição melhor.MODELO PADRE MARCELO "A carreira de padre ainda é interessante para muitos jovens no Brasil. Atualmente, há dois tipos de seminários. Ainda há resquícios dessa linha libertária do movimento dos anos 60. Porém, o que mais chama a atenção nos últimos 15 anos é o religioso carismático, como o padre Marcelo Rossi. Em São Paulo, no seminário onde Rossi estudou, na diocese de Santo Amaro, os jovens têm um perfil bastante diferente dos que estudam nos seminários da libertação. Entrevistei um diácono que me disse: ?olha, o modelo de padre antigo, dos anos 60 e 70, usava camiseta com a foto de Che Guevara, cabelo comprido e sandálias. O seminarista do novo milênio usa camisa branca, uma cruz, cabelo curto, sapatos fechados e reza o rosário.? É um modelo mais tradicional. Por outro lado, os jovens seminaristas estão conectados à internet. A admiração ao padre Marcelo vem justamente de sua capacidade de usar tão bem os meios de comunicação.NO DIVÃ"Com esse desejo de reformar e humanizar o clero nos anos 60, os seminaristas e alguns padres começaram a se interessar pela psicologia e pela psicanálise. Um padre no Rio Grande do Sul, jesuíta húngaro chamado Géza Kövecses, elaborou um curso para formadores de seminários. O curso se chamava Christus Sacerdos (Cristo, o Sacerdote), era patrocinado pela CNBB e durou de 1966 a 1970. Dividia-se em três partes: teoria psicológica, teológica e sociológica. Isso mostra que a Igreja acreditava que tinha de usar as ferramentas das ciências sociais e psicológicas para entender o ser humano. No curso, os padres faziam terapia grupal e individual. Tudo bancado pelos bispos. Ao mesmo tempo em que esses religiosos iam em direção ao povo, morando nas comunidades, buscando as favelas, iam também para o divã, para a psicanálise, para Freud. Virou moda. O engraçado é que, se perguntarmos sobre a Igreja do Brasil no exterior, todos falam da Teologia da Libertação. Mas, com esse curso, o País foi também o nascedouro da psicologia da libertação. Houve experiências nesse sentido na França, no México, mas no Brasil isso teve maior impacto. O curso foi fechado em 1970. A causa era justamente o medo da desobediência. A Teologia da Libertação queria acabar com a submissão dos pobres aos ricos. A psicologia da libertação queria acabar com a submissão dos seminaristas e padres aos seus superiores. Atualmente, há um meio-termo. A Igreja tolera e até estimula o uso da psicologia na formação dos jovens, mas não banca cursos como esse.CORRENTE ENFRAQUECIDA"A Teologia da Libertação é, hoje, uma corrente mais fraca da Igreja. Continua tendo uma parcela de bispos adeptos, principalmente na Amazônia, na Comissão Pastoral da Terra. Esses continuam dizendo-se progressistas, libertários, porque lidam com problemas difíceis, como a questão agrária. Mas a tendência geral da Igreja no Brasil é de muita cautela nas questões sociais. Isso não quer dizer que ela deixe essas questões de lado. Na época das privatizações, por exemplo, a Igreja se colocou contra o governo FHC e a venda da Vale. Ou seja, ainda há uma corrente nacionalista, que defende o patrimônio brasileiro e os valores nacionais. Em alguns pontos, a cúpula da Igreja não tem medo de bater de frente com o governo, como na questão do aborto. Infelizmente, na imprensa, os católicos têm aparecido quase exclusivamente quando se trata de temas da bioética. Quando Bento XVI esteve no Brasil, houve uma grande cobertura dessa questão do aborto, mas quase ninguém cobriu a conferência dos bispos em Aparecida, que aconteceu em seguida. Aquilo foi talvez mais importante do que a visita do papa, porque houve uma volta para a Teologia da Libertação. A metodologia do ?ver, julgar, agir? foi utilizada novamente.RELEVÂNCIA"A Igreja vê com muita preocupação o declínio no número dos fiéis. No Brasil, já são menos de 75% que se declaram católicos. E isso vem caindo. No próximo censo, talvez seja menos de 70%. A grande questão que a Igreja se coloca agora é essa: até que ponto ela vai ser relevante para as pessoas e, principalmente, para os jovens? Não estou pensando nos jovens das áreas rurais porque hoje, em sua maioria, eles são urbanos e têm uma cultura diferente."

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