Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Um relato melancólico de dentro da Coreia do Norte

Escritor português José Luís Peixoto viaja até Pyongyang e transmite suas impressões sobre o país

José Luís Peixoto*, Colaboração para o Estado

09 Dezembro 2017 | 16h00

Às sete da manhã, a neblina cobria a distância das ruas de Pyongyang. Os passeios estavam cheios de gente que saía do interior dessa neblina: homens e mulheres indo para os seus trabalhos, estudantes a caminhar enquanto liam cadernos que seguravam diante do rosto, crianças sozinhas de mochila às costas, velhos que carregavam sacos de pano grosso, militares rasos a pé, oficiais de bicicleta.

Todos passavam por mim. Eu estava à porta do Hotel Koryo, no centro da cidade. Sabia exatamente até onde podia ir sem que houvesse problema com os guias. Esta era a quinta vez que estava na Coreia do Norte. Antes, já tinha ficado hospedado naquele hotel, é um dos dois que recebem turistas estrangeiros em Pyongyang. Também já conhecia uma das guias que nos acompanhava, a mais velha. Encontrei as guias no aeroporto, logo após as rígidas formalidades da alfândega — a revista das malas, a análise de livros e aparelhos eletrônicos. Desta vez, eram duas mulheres, acompanhadas também por um homem com uma máquina de filmar. Antes de partirmos, como sempre, esse homem iria vender-nos o filme que fez sobre a nossa viagem na Coreia do Norte. No entanto, como nas outras vezes, ficou a sensação de que não foi apenas por isso que filmou tudo o que fizemos. 

A guia chamou-me logo pelo meu nome. Cumprimentamo-nos como se fôssemos velhos amigos. Recordava-se de todos os detalhes e episódios do nosso encontro anterior, há três anos. Na Coreia do Norte, é difícil estabelecer laços, demora até se ganhar a confiança do outro; ainda assim, à medida que vai acontecendo, sente-se com clareza os diversos degraus desse aprofundar de relação.

A outra guia era muito mais jovem, tinha 22 anos. Como sempre acontece, um guia dedica-se às questões turísticas, sabe de cor as informações acerca dos monumentos e da história do país, por exemplo; enquanto que o segundo guia está mais atento aos assuntos políticos e de comportamento. Neste caso, a guia mais jovem era a responsável pelo grupo a esse nível. Era ela que se preocupava em evitar fotografias de militares nos postos de controle, etc. Como acontece sempre, durante os dias seguintes, enquanto estivemos na Coreia do Norte, tanto as duas guias como o homem da máquina de filmar não foram a casa, não viram a família, acompanharam-nos para todos os lugares. Sem eles, apenas era possível ir até à porta do hotel, até ao início do passeio. 

Em abril de 2012, fui pela primeira vez à Coreia do Norte. Celebrava-se então os cem anos do nascimento de Kim Il-Sung, também chamado “o grande líder” ou “o sol da humanidade”. A importância de Kim Il-Sung é tão grande no país que o calendário em vigor começa na data do seu nascimento. Essa ocasião especial permitiu a alguns estrangeiros uma viagem excepcionalmente longa e extensa na Coreia do Norte. Em maio de 2012, saí convencido de que nunca mais regressaria e comecei a escrever um livro, a que chamei Dentro do Segredo (Companhia das Letras, 2013). 

Não imaginava que, poucos meses depois da sua edição portuguesa, seria convidado por uma agência de viagens para criar um itinerário e acompanhar um grupo de turistas portugueses. Na minha vida, nunca tinha colocado essa possibilidade.

Em 2016, quando marquei as datas da viagem deste ano, a situação do país mantinha-se estável. Trump ainda não se tinha pronunciado a respeito do assunto. Foi já depois, principalmente ao longo de 2017, que a escalada de provocações mútuas e de tensão elevou o discurso a níveis de agressividade muito preocupantes. Em contato com agências que fazem essa viagem a partir da China, com associações de dissidentes na Coreia do Sul e sabendo dos encontros diplomáticos que Trump tinha agendado para vários países da Ásia no início de novembro, achei que havia condições para fazer a viagem. 

Ainda assim, muito antes de entrar no avião, decidi que essa seria a última vez. Por um lado, cinco viagens era suficiente para mim, aquilo a que me tinha proposto estava cumprido; por outro lado, a ansiedade dos meses anteriores — manobras militares e ameaças de ambas as frentes, sucessivos testes de mísseis norte-coreanos — também contribuiu para essa decisão. Tenho dois filhos.

De manhã, no centro de Pyongyang, não se sentia qualquer preocupação. As pessoas seguiam os caminhos de todos os dias. Aquele mundo continuava sem diferenças. Como sempre, às cinco da madrugada, começou a ouvir-se uma música suave, algo fantasmagórica, em todos os alto-falantes de Pyongyang. Essa música repete às horas certas, atravessa o silêncio absoluto, e vai despertando a cidade. A partir das oito, nas praças principais de Pyongyang, nos lugares onde passa mais gente, havia formações de dezenas de mulheres a tocar tambor e a fazer coreografias sincronizadas com bandeiras de vermelho muito vivo. Pertencem à associação de mulheres domésticas. Estão ali todos os dias úteis para dar ânimo aos trabalhadores que iniciam a sua jornada.

As guias insistiram em levar-nos às ruas de Ryumyong, o bairro novo de prédios recém-construídos, crianças a brincar em parques infantis. Como noutros lugares, também aí havia cartazes com imagens de mísseis. Perguntei à guia minha conhecida o que significava a frase coreana de um desses cartazes. Traduziu em espanhol: “Não seremos derrotados, somos uma potência nuclear.”

Porque era a minha quinta visita, não precisei rever tudo o que já tinha visto. Enquanto os turistas assistiam a vídeos e examinavam as enormes salas do Museu da Vitória na Guerra de Libertação da Pátria, eu falava em inglês com a militar fardada que ali nos acompanhava. Falamos sobre a família, sobre futebol, rimos um pouco e, quando achei adequado, perguntei-lhe acerca da situação atual. Voltou a rir-se. Sabia que os americanos têm um presidente novo, mas disse que as suas ameaças não são novas. Os americanos são patéticos e ninguém tem medo deles.

Fora de Pyongyang, nos campos e no acostamento da estrada, as pessoas pareciam continuar os seus caminhos e os seus gestos de sempre. Sabendo que esta era a minha última viagem, observei-os com melancolia através da janela do autocarro. A caminho da cidade de Nampo, paramos numa cooperativa agrícola que já conhecia. Enquanto os turistas visitavam as estufas, os grãos de milho a secar ao sol, sentei-me num degrau. O som dos pássaros e da natureza misturava-se com as vozes que saíam dos alto-falantes – discursos ou música – e que incentivavam patrioticamente o trabalho. Antes de passarmos pela escola de crianças, já sabia que havia uma pequena apresentação preparada para nós. A professora tocava acordeão, as crianças estavam alinhadas, cantavam e faziam movimentos sincronizados. Qual será o futuro destas crianças?

Senti o mesmo, noutro dia, com os meninos – prodígios do Palácio das Crianças, em Pyongyang. Nesse enorme edifício, há crianças que desenvolvem os seus talentos artísticos e que, uma vez por semana, apresentam um espetáculo público. Milhares de jovens assistiam a esse espetáculo num grande teatro. No palco, meninas faziam danças tradicionais ou bailados sobre o desenvolvimento tecnológico da Coreia do Norte, por exemplo. Um coro de pioneiros de lenço vermelho era acompanhado por palmas animadas do público. Cantavam à frente de um vídeo com mísseis a serem disparados e bombas a explodirem. Essa foi a atuação mais aplaudida do espetáculo. Qual será o seu futuro destes rapazes? Qual será o nosso futuro?

Ao longo de uma semana, regressei a muitos lugares da Coreia do Norte, reencontrei algumas pessoas que já conhecia e, neste tempo em que falamos tanto do país nos noticiários do ocidente, vi que os passageiros do metrô de Pyongyang continuam imperturbáveis a fazer os seus percursos, os militares da fronteira que divide a península não parecem mais hirtos ou preocupados. 

Na Coreia do Norte vivem mais de 25 milhões de pessoas. Apesar de tantas notícias, raramente se fala delas. Por estarmos longe, por termos tantas diferenças, culturais, civilizacionais e mesmo físicas, parece que, às vezes, chegamos a acreditar que não são gente como nós, que não sentem como nós, que não pertencem exatamente à mesma espécie. Com frequência, quando se fala da Coreia do Norte, cultiva-se uma enorme quantidade de estereótipos que ninguém parece interessado em esclarecer. Confunde-se o regime com a população, utiliza-se todo um país como símbolo em conversas sobre outros assuntos.

No último dia que lá passei, a melancolia tornou-se demasiado pesada. Custava-me saber que deixava ali aqueles rostos, que nos despedíamos para sempre. A maneira que encontrei para lidar com isso foi acreditar que, afinal, talvez aquela não fosse a última viagem. Talvez um dia possa regressar. 

*É escritor português, autor de 'Galveias' e 'Em Teu Ventre' (Companhia das Letras) 

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