Um ser analógico

Thomaz Farkas - Fotógrafo e cineasta; o retratista que flagrou o passado de São Paulo, Rio e Brasília rebobina a memória do País

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2008 | 00h38

A cena está pregada no álbum de lembranças da família Far-kas. Em 1930, aterrando no Brasil pela segunda vez, com Tereza ao lado e Thomaz a tiracolo, Desidério se debruçou na beirada do navio a vapor e perguntou ao sócio László a quantas andava o Brasil. "Estamos em crise", gritou László do cais. "E em crise continuamos desde então", diz Thomaz, vergando o frágil corpo de 84 anos sobre o próprio diafragma, num sorriso timidamente irônico. Não pense por esse detalhe que Thomaz enxergue o mundo em decadência. Embora célebre por seus enquadramentos em preto e branco, eis um fotógrafo que vê cor na escuridão: "Sou um otimista delirante". Deve ser herança do pai, que, à revelia da queda da bolsa anunciada aos quatro ventos, investiu todo o futuro na continuação da Fotoptica, inaugurada na Rua São Bento, centro de São Paulo. No logotipo do negócio conviviam a máquina fotográfica de fole, um olho e um galo. Um galo? "É que o tio Béla era muito empombado", justifica Thomaz. Bom de briga, enfim.Tio Béla, incentivador da loja de materiais fotográficos, era dono de uma em Budapeste, capital da Hungria, assim como o avô Emílio. Thomaz descobriu que também tinha hipossulfito de sódio nas veias quando ganhou uma Baby Box e passou a fotografar os felinos da vizinhança e a "esquadrilha invencível", molecada que explorava o bairro do Pacaembu de bicicleta. Levantou a câmera para o céu e flagrou o Zeppelin. Era tudo revelado num tanquinho ou no laboratório da Fotoptica, chefiado por um alemão também empombado, cujo filho dava mais ou menos contraste às fotos, de acordo com a vontade de Thomaz. Luz e sombra o fascinavam, especialmente em prédios e naturezas-mortas. As naturezas vivas ele descobriu mais tarde, e delas não largou mais. Thomaz gosta de gente. Não à toa, fotografou muito mais a multidão que vibrava nos jogos do estádio vizinho do que os futebolistas dando tratos à bola, como lembra Juca Kfouri na introdução do livro Pacaembu, que será lançado na próxima terça no Museu do Futebol. A garotada pendurada em árvores secas perto do campo, os congas dando como frutos, só você vendo.O corintiano Thomaz não jogava futebol. Sua praia era (e é) nadar, de preferência no mar de Paraty, onde tem uma casa. Marinas é outro tema recorrente. Aprecia ainda a dança alheia e fez uma série sobre balés nos anos 40 e 50 que ainda não virou livro por pura leseira. "Ah, sou preguiçoso também." Eu olho para a rede estupidamente branca no meio da sala... De preguiça em preguiça, Thomaz fez um capítulo gigante sobre o Rio de Janeiro, com ensaios de escolas de samba, dos edifícios, do bonde "mata-paulista", do Bar Vermelhinho. E registrou a construção de Brasília, quando aquilo era um cerrado só. Cena clássica sua é o Núcleo Habitacional Bandeirantes, um Cingapura térreo feito com as sobras da construção da cidade. Essa e outras fotos estão em exposição na Cinemateca Brasileira até 18 de dezembro.Na semana passada a mesma Cinemateca, da qual Thomaz é presidente emérito, incluiu nessa homenagem uma série de filmes produzidos e dirigidos por ele. Sua incursão no cinema começou nos idos de USP, onde fazia o curso de engenharia mecânica. Os curtas educativos, mostrando ingênuas experiências no laboratório de Física, deram lugar mais adiante à Caravana Farkas, que queria mostrar os brasis do norte aos brasis do sul, e vice-versa. Saíam os amigos em grupos de quatro, no máximo, documentando catação de café, vaquejada, desafios entre repentistas, histórias de ascensão e queda de craques do futebol. "Farkas desenvolveu um trabalho único como produtor de documentários porque custeou vários ao mesmo tempo, e sem interferir na edição", testemunha Sérgio Muniz, diretor de Andiamo In''merica, A Cuíca e Beste (beste é como os baianos do Norte do Estado pronunciam "besta", arma medieval ainda construída por artesãos de lá). Thomaz assinou a direção de três dos seus 35 documentários. Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba foi filmado em 1954, num arroubo de fã que saiu correndo para flagrar o músico ao lado de Almirante no parque Ibirapuera. Mudo da silva, o filme ganhou banda sonora correspondente, vinda dos arquivos do Instituto Moreira Salles, e deve ser lançado em 2009.A idéia original era ter os filmes exibidos nas escolas, como uma Brasiliana. O que complicou a vida, diz ele, foi a falta de estrutura para carregar um projetor 16 mm, estender uma tela e montar alto-falantes na sala de aula. Chegou a colocar alguns documentários para alugar na Fotoptica, meio que em vão. A televisão, que podia alavancar o trabalho, não se interessou pelo material porque não interessava mostrar a miséria humana, "se bem que não havia miséria ali, mas a vida como ela era". Recentemente o Canal Brasil passou as películas, mas a obra ainda é desconhecida do grande público. BINÓCULOS PARA CUBA?Em 1968, Thomaz se deu conta de que ficara visado pela ditadura quando peruas C-14 bateram à porta da Fotoptica e o levaram para o Doi-Codi, onde ficou por sete dias sob a acusação de ter vendido binóculos militares para Cuba. Demoraram a aceitar que binóculos militares são vendidos aos exércitos pelos próprios fabricantes. Pedro, um de seus quatro filhos e diretor de fotografia de vários filmes brasileiros, ficou meses encarcerado por causa de reuniões no apartamento do pai. "Havia patriotismo, mas hoje os jovens só pensam em progredir", afirma Thomaz. "E o que é progredir? É ter emprego e dinheiro, então não fazem mais arte."Na Escola de Comunicações e Artes da USP, onde deu aulas de fotojornalismo por 20 anos e projetou a instalação do laboratório fotográfico, o mais tupiniquim dos húngaros ensinava os alunos a abordar os entrevistados sem que a câmera parecesse uma arma, nem a reportagem uma invasão. "A televisão não tinha inundado o mundo, então as pessoas se expunham maravilhosamente, sem constrangimento, nada, nada, nada." É possível compreender essa entrega nas fotos coloridas de Notas de Viagem, compilação da série produzida em 1975 entre a população ribeirinha do Rio Negro a convite do diretor Geraldo Sarno e do zoólogo Paulo Vanzolini. O que foi pensado como filme acabou se tornando um ensaio, já que o gelo que conservaria os rolos em um isopor virou água. Emergiu a consciência de um País totalmente desconhecido, que ele gostaria de rever no trabalho de alguém que pudesse se autofinanciar.A Fotoptica, que ele assumiu em 1960 após a morte do pai, foi vendida em 1997 ao grupo Pátria - Banco de Negócios, em especial devido aos altos juros dos empréstimos obtidos com obras de modernização. Thomaz queria ter ficado com pelo menos uma loja, qualquer uma. "Era muito divertido lidar com os funcionários; gosto de gente", reitera. Foi sob sua administração que a empresa saiu de 4 lojas para 50 e criou uma galeria e uma revista de fotografia, que divulgava artistas brasileiros e nomes fortes da fotografia internacional. O escritório de Thomaz Far-kas continua no espaço antes ocupado pela galeria, na Rua Cônego Eugênio Leite, em Pinheiros, que ele visita quase diariamente. No hall do escritório, algumas fotos de Thomaz, todas alvinegras, que ele próprio mandou ampliar no laboratório artesanal de Rosângela Andrade, a quem confia seus negativos às cegas faz 13 anos. "Thomaz me remete a certa nostalgia, à história do País", diz a proprietária. Na entrada do apartamento dele, um flagrante de futebol de areia, também em preto e branco, naquele instante irremediável do gol. Na geladeira do apartamento - não na parte que congela, que já basta o afogamento dos filmes no Rio Negro -, repousam oito rolos em P&B vencidos há quatro, cinco anos, ainda ótimos para uso. Bobagem procurar resquício de câmera digital por ali. Thomaz não tem uma, mas promete para si adquirir um exemplar hora dessas. Hábil com Leicas, Rolleiflex e outras do gênero, guardadas em mais de dez caixas e que pretende doar ao primeiro aventureiro (sério!) que quiser fazer um museu, ele diz que vai aprender a lidar com a tecnologia que tornará a fotografia tão popular como nunca dantes visto. Precisará de um tempo para se adaptar. A técnica deve desaparecer para dar vazão à emoção. "E câmera não tem alma, a alma é sua", diz à porta do elevador, cruzando as pernas como um garoto, com seus tênis vermelhos Gola, ícone da juventude nos anos 70. Quase perguntei da caixa de sapatos que abrigava o par. Thomaz garante serem essas caixas a melhor forma de colecionar fotos, e mais uma espécie em extinção. CARA A CARA"A televisão não tinha inundado o mundo, as pessoas se exibiam sem constrangimento"VIRADA CULTURAL"Havia patriotismo, mas hoje os jovens só querem ganhar dinheiro; não fazem mais arte"À FLOR DA PELE"A técnica deve desaparecer para dar vazão à emoção. A câmera não tem alma"

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