Um sonho de 500 anos
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Um sonho de 500 anos

Em um mundo que, por vezes, se revela um tanto quanto distópico, ainda há lugar para utopias?

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2015 | 16h00

Faz sentido, neste ambiente de descrença e desilusões em que vivemos, acreditar em utopias? Ou, justamente por isso, tornaram-se elas bem mais necessárias? De que utopias falamos? Políticas? Biológicas? Tecnológicas? Quais quimeras (ainda) alimentamos? 

Por acreditar que a crença no fim das utopias é uma canoa tão furada quanto a do fim da história, o professor Adauto Novaes abriu espaço em seu ciclo anual de conferências em torno do tema das Mutações para fazer cessar o “triste silêncio” imposto ao pensamento da utopia e buscar respostas às perguntas do parágrafo anterior - e a outras mais. Sempre à frente do núcleo de reflexão Artepensamento, de uns tempos para cá de parceria com o Sesc-São Paulo, Novaes inaugura “O Novo Espírito Utópico” no próximo dia 11, na Maison de France do Rio, com uma palestra do professor Francis Wolff, um dos 22 conferencistas do ciclo, que a partir do dia 12 se estenderá a São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. 

Como estamos às vésperas de celebrar os 500 anos da palavra utopia e do romance filosófico de Thomas Morus que a consagrou, o momento é mais do que oportuno para examinar que novas feições ela adquiriu após tantos sonhos desfeitos e outros tantos pervertidos e que update lhe deram as expectativas geradas pela informática, pelas biotecnologias, pelas nanociências, pelas ciências cognitivas e as perspectivas de clonagem, ectogênese (fecundação de útero artificial), artificialização dos órgãos do corpo e prolongamento da vida, abertas por elas. 

Seu étimo grego, significando não-lugar, lugar nenhum ou, trocadilhescamente, lugar da felicidade (eutropia), designou primeiro uma ilha dos mares do Novo Mundo, em que foi bater um navegante português ligado a Américo Vespúcio. Terra prodigiosa, em tudo diferente da Europa do século 16, a perfeição imperava em suas cinquenta e poucas cidades. Morus imaginou-a empolgado pela descoberta da América e do “novo homem” que a habitava. Se bem que a República platônica já configurasse uma utopia, foi na ilha “descoberta” por Rafael Hitlodeu que surgiu o conceito de utopia como representação imaginária de uma sociedade que tenha encontrado soluções exemplares para todos os seus problemas. 

Outras sociedades ideais, fundamentadas em leis justas e instituições político-econômicas comprometidas com o bem-estar da coletividade, nasceram da imaginação de romancistas e pensadores, nos séculos seguintes, com particular insistência no século 19, auge do utopismo socialista de Charles Fourier, Étienne Cabet, Edward Bellamy e William Morris. A esses devaneios igualitários a dupla Marx-Engels combateu e contrapôs outro, supostamente científico, cuja caracterização como utopia pode livrar a cara do comunismo, mas não das sociedades que às suas ideias básicas deram concretude, a partir da revolução bolchevique, uma utopia que virou distopia. 

A distopia é uma distorção ou uma mutação da utopia, um sonho que se transforma em pesadelo. A ficção científica e a literatura de antecipação são pródigas em fantasias do gênero. De Jules Verne (Capitão Nemo era um utopista) ao Aldous Huxley de Admirável Mundo Novo, ao Orwell de 1984 e ao Ray Bradbury de Fahrenheit 451. Serão todos lembrados ao longo do ciclo. De todo modo, as referências mais citadas e aludidas serão os pensadores que inspiraram ou, direta ou enviesadamente, se ocuparam da questão da utopia, como Kant, Hegel, Campanella, Saint-Simon, Walter Benjamin, Valéry, Camus, Bachelard, Foucault, Deleuze, Agamben e até Ivan Illich, grande crítico da sociedade industrial muito em voga nos anos 1970, que será lembrado por Jean-Pierre Dupuy em sua abordagem da metamorfose do sonho em pesadelo, não em termos psicanalíticos, mas socioeconômicos. 

Eis alguns dos pesadelos (ou desdobramentos distópicos) arrolados por Dupuy: a medicina que corrompe a saúde, a escola que embrutece, o transporte que imobiliza, as comunicações que não comunicam, os fluxos de informação que destroem o sentido, a alimentação industrial que se transforma em veneno, o recurso à energia fóssil que ameaça destruir o meio ambiente. 

“Vivemos, hoje, um momento especialmente distópico”, dirá, de cara, o historiador e cientista político Marcelo Jasmin. Não será o único a realçar a descrença geral em relação a modelos redentores, o aumento da violência cotidiana, a crescente dependência dos seres humanos à tecnologia e sua incrível parafernália e as enganosas promessas dos pós-humanistas, como a robotização das tarefas enfadonhas e pesadas, a cura de todas as doenças, a vida humana prolongada ao infinito, a imortalidade, enfim. 

Na palestra de abertura, Francis Wolff começará afirmando nossa necessidade de utopias. “Elas são para as comunidades o que os sonhos são para os indivíduos. Uma utopia é um refúgio num ideal irrealizável quando o real parece insuportável, é a aspiração ao impossível.” E, sobretudo, uma “severa e lúcida crítica da realidade e do presente”, acrescentará, citando um trecho do ensaio de Novaes que abre o catálogo das conferências. O novo espírito utópico não se define por uma ação idealista, romântica ou autoritária (o Reich nazista nasceu como um utopia para durar mil anos), mas pela crítica e a reação ao conformismo e às forças conservadoras.

O ciclo será abrangente o bastante para falar de arte, arquitetura, do corpo, da ética da responsabilidade, da psicanálise e, se algum dos palestrantes ou alguém da plateia levantar a bola, do PT, nossa última grande utopia que foi (ou está indo) pro vinagre.

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