Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO
Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO

Um taxista na varanda

Em tempos de intolerância nas ruas, Wilson Roberto achou um aplicativo paz e amorpara o jardim suspenso que criou à beira do Minhocão: ‘Minha casa virou turismo’

Mônica Manir / TEXTOTiago Queiroz / FOTOS, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2016 | 16h00

Deu pra ver um rabo de mangueira virando à direita, em direção à área de serviço. Ficaram as gotas d’água no piso e um zunzunzum ao fundo, de carros passando. Sentei no sofá da sala. Wilson ainda tinha as mãos molhadas quando me cumprimentou e sentou em frente, sob uma frondosa tapeçaria de seu papai, Jesus Cristo. Ia abrir o dicionário de sua vida. Contar seus pecados e sua redenção. Seu concreto e seu planetário. A minhoca e o Minhocão. A Urbe e a Uber. Botou as mãos nos joelhos e se inclinou pra frente, o cordão dourado balançando com um trevo na ponta: “Eu esperava que todos os taxista fosse como eu”.

A chefia é Wilson Roberto dos Santos. Tem 64 anos e 43 de praça, mas o que faz dele “o bró” do momento é cultivar uma floresta na varanda de seu apartamento, a 5 metros do Minhocão. Aos domingos, quando o viaduto fecha pros carros, a galera espicha o celular na direção do primeiro andar e fotografa abacaxis decorativos entremeados com gerânio, dinheiro-em-penca, samambaia, primavera, coqueiro, boldo, pé de mexerica, chifre-de-veado, espada-de-são-jorge, cheflera e um feixe de cidreira pra acalmar. ‘Minha casa virou turismo”, diz. “Fica a passarela do povo tirando fotografia, é loira, morena, velha, nova, criança, aqui não tem tristeza.”

No meio do verde saltam gorilas. Também dá pra ver dois coelhos – um deles com um racho na cabeça –, um cajado só, uma formiga azul, um gavião rajado, um elefante cinza, uma cachorra branca com laço vermelho e mais uma profusão de bibelôs de plástico e de pelúcia que ele cata nas andanças por “seu” São Paulo e alfineta nos arranjos de planta. Os vasos chegaram no mesmo esquema. Wilson apura o olho clínico nas caçamba dos bacana e, mesmo com roupa de doutor, calça e sapato brancos, estaciona o táxi mais à frente, mergulha nos tacho de entulho e sai com um vaso de 40 quilos no lombo, sob o aplauso dos seguranças Haganá.

O negócio é que, encravada numa comigo-ninguém-pode, brota uma placa de Vende-se. Desde novembro do ano passado, Wilson e a patroa, Sônia, decidiram passar adiante o imóvel. Ele diz que é um processo muito sentido, mas a idade tá chegando, o coração anda meio entupido e ele não tem aposentadoria. “Ou eu pagava o INPS ou sustentava a família; o que você faria, hã?” O apartamento tem 110 metros quadrados e o casal pede “600 mil cruzeiro”, a moeda corrente de Wilson.

Ele se anima quando mostro um anúncio do Estado de 1952 do Edifício Washington, justamente este no qual apoia sua floresta particular. “Orra, manacha, foi quando eu nasci, era pra eu vir pra cá mesmo.” Vira e mexe Wilson solta um italiano hablado con um poquito de castelhano, speaking more or less o english, sem nunca ter ido à escola. “Eu aprendi a ler e escrever sozinho, mas não tenho comprovante do que sou.”

O anúncio do jornal comprova que o imponente Edifício Washington era a melhor oportunidade para a realização do velho sonho do leitor: o lar próprio. Construído sob as mais modernas normas de arquitetura, contendo apartamentos confortáveis, arejados e ensolarados e com amplas acomodações, como vestíbulos e living com terraço nobre, oferecia unidades em excepcionais condições: CR$ 63.000,00 de entrada e saldo financiado a longo prazo. Esplendidamente situado no aprazível bairro de Santa Cecília, à Av. Gal. Olímpio da Silveira, 427, ainda oferecia um plus a mais. Face privilegiada: norte.

O Washington tem algo da arquitetura modernista dos anos 1950 na cidade. Sua fachada é curva e, ligando um extremo ao outro, há uma treliça dando relativa privacidade às varandas. Por dentro, porém, a estrutura continua tripartida. “Grande parte dos apartamentos no Brasil manteve a separação nas áreas social, íntima e de serviço, típicas da Belle Époque”, diz a arquiteta e urbanista Simone Barbosa Villa, professora da Federal de Uberlândia, cujo mestrado analisou apartamentos e edifícios de São Paulo a partir dos anos 1910. Bernardo Rzezak, engenheiro, assina como responsável técnico do Washington, que está tombado por constar do quadrilátero da Biblioteca Mário de Andrade. Na frente dele, também ofuscado pelo Minhocão, fica o Edifício Pacaembu, de Artacho Jurado, datado de 1948.

A mineira Rosária Pereira de Souza, síndica do Washington desde 2006, explica que cada final de apartamento tem uma metragem diferente: os de final 1, como o dela, são os maiores, de 119 m². Os de final 2, os menores, com 98 m². Naqueles dez andares já morou gente da alta, e um tapete vermelho decorava o hall amadeirado de entrada, hoje hiperiluminado, metálico, com rampas de acesso e sem tapete pra contar história. No topo do prédio, duas estruturas se diferenciam na comparação com os terraços vizinhos. “A gente chama de coreto”, arrisca Francisco, o zelador, folheando um jornal do dia e olhando ao mesmo tempo as câmeras de segurança. “Dizem que era pra sentar helicóptero.”

Vistos de baixo até parecem helipontos, mas não são. Serviriam bem para uma festa open bar. Dentro do menor dormem uns vasos do apartamento 1001. No coreto maior tombam dois holofotes, usados para iluminar um outdoor ali levantado antes do Cidade Limpa. Sobre essa iniciativa do prefeito Kassab, by the way, Wilson dá seu pitaco técnico: “Ele mexeu com os oquidor, nosso São Paulo era todo iluminado, ficou feio, escuro, apagado, sem brilho, a gente ficou sem um marco, muito passageiro se perdia”, lembra, indignado. “De repente, tudo ficou aborrecido.”

A síndica confessa que morar em prédio não é exatamente motivo de felicidade, ainda mais com um viaduto entrando pela janela. Por ela, a Prefeitura desmontava tudo aquilo e deixava o asfalto ver o céu. De qualquer forma, o Washington ainda tem seu atrativo cênico, tanto que duas novelas do Silvio de Abreu e uma película do Riccelli e da Bruna (O Signo da Cidade) foram rodados em parte ali. Deu até pra pagar o conserto do elevador com a locação pro filme.

O engenheiro Gilberto de Carvalho, um dos fundadores do movimento SP sem Minhocão!, não vê, por supuesto, charme nenhum no viaduto e também prefere o desmonte. Mas, antes de qualquer coisa, propõe um estudo da estrutura. “Por que discutir o que fazer com o elevado se, em 40 anos, foi só perfumaria e ele nunca teve uma manutenção de verdade?” Além disso, continua, o que será da população que aguentou “essa porcaria” por tanto tempo e depois terá de ir embora com a valorização dos prédios?

O arquiteto Hugo Segawa, por seu turno, ressalva não ter bola de cristal pra saber do destino daqueles 3,4 km de aço e concreto. Mas seu feeling é que a demolição vá criar uma poeirama danada, uma confusão, e não necessariamente recuperará o glamour daquele espaço: “É um processo muito lento e, além disso, mudou o padrão de luxo, hoje os apartamentos são menores e têm garagem, algo raro nos anos 1950”. Mas reconhece que a região pode atrair uma população que não dá bola pra carro, nem carta de motorista tem.

Olhando além da marquise, por entre o pé de jabuticaba, Wilson diz que deixa seu potente na rua, sem problema. E dá seu veredicto: “O Minhocão não atrapalha ninguém, não traz aborrecimento, ninguém vai pular de lá pra cá, o barulho é ‘irrisonho’, eu ouço meus filme, minha televisão”. Ele sabe que seu apartamento talvez valorize com o desmanche da obra do Maluf. Mas prefere a construção de um parque – desde que policiado, pra evitar defecações e sacanagens. “Eu sou mais a humanidade que o valor do meu prédio.”

O que lhe tem tirado o sono é o barulho que a “Urbe”, como ele chama a Uber, vem fazendo na praça. Wilson voltou a participar da manifestação em frente da Câmara Municipal, na quarta-feira, pra combater “a concorrência ilegal, desleal e imoral de um aplicativo clandestino que ameaça derrubar toda uma categoria legitimamente constituída e amparada por leis e regulamentações”, na versão do sindicato. Mas a Câmara engavetou, pela segunda vez, o projeto que regularizaria a Uber – os vereadores se negaram a colocar a proposta em pauta.

“Só que a gente conhece a casa de todos eles, os vereadores, os senadores, essas pessoa”, diz Wilson. “Se tiver uma revolução no País, eles é que têm de tomar cuidado, não comigo, que sou homem de paz e amor, meu lema é Jesus, seguro meus problema sem transpassar, mas a gente tem ouvido e tem olhos, imagina só amanhã 40 mil táxi desempregado, pai de família com criança, e você culpado da situação, é um perigo, é lógico que é um perigo, cê tá entendendo, fia?”, descarregou.

Wilson tem três filhos biológicos vivos. Os outros dois que criou morreram. De olho marejado, ele não entra em detalhes dos ocorridos. Nasceu no Brás e foi criado num cortiço no Ipiranga, “mas eu era lixo em casa”. Desde os 5 anos trabalhou como engraxate e vendedor de biscoito, de copo, de cibalena e “alcassesse” na feira. Foi cobrador de título, entregador de bebida, se meteu numas pregada errada, até que, no 21º de idade, um amigo o colocou no Rocha Táxi. Entrou num carro e saiu dirigindo.

O primeiro automóvel foi um Fafá bege, destruído num acidente que lhe deixou uma cicatriz na garganta e do qual se safou por um fio de cabelo. “Naquela época não tinha negócio de cinto nem nada, não tinha negócio de radar, São Paulo era livre, hã?” Sobrou pouca coisa da lataria do carro e mais garra na funilaria pessoal.

Foi com tudo isso, mais a iluminação de São Benedito, sua vó, as alma e Nossa Senhora, que ele “quebrou” o ponto 606, de Congonhas – o maior de São Paulo, hoje com 1.025 carros – e conseguiu entrar como permissionário, levando consigo mais 26 colegas e uma devoção ao dr. Paulo Maluf, “que toda a nação sabe que foi nóis que pusemo o Maluf no governo naquela época”.

Ali fez seu pé de meia. Só que ele esburacou após o divórcio. “Quando não se está vivendo muito bem, quando pra sair você passa nervoso, pra ficar você passa nervoso, pra comer você passa nervoso, deu algumas falhas”. Teve de vender o ponto e, com o dinheiro, adquiriu duas casas. Uma delas ficou para a ex-esposa. Faz dez anos que Wilson comprou o apartamento no Edifício Washington, e há um ano e meio enfrenta o resmungo de quem não lhe quer “regimentando” passageiro em ponto alheio. Tem um Linea, decorado internamente de ponta a ponta, com destaque para um Jesus de cabelo acaju, um adesivo de anjo da guarda, tapetes em labareda e um pirata na traseira, que se ilumina quando ele aciona o freio. Se sobe o nervoso no trânsito, Wilson recorre ao seu talento de ritmista da Unidos do Peruche: acompanha um samba no rádio batucando duas baquetas nuns discos de metal que amarra na coxa. Mais que isso, não precisa: “Não tenho burguesia”.

Quer dizer, precisa. Depois de vencer, numa assembleia, a resistência do condomínio à sua varanda “peluda”, ele deseja uma casa. “Eles aprovaram um jardim, eu fiz uma selva. Agora quero botar minhas planta no chão.”

 

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