Um teste indesejado para a China

País terá de ajudar a encontrar uma solução para a crise em Mianmá se quiser o respeito definitivo da comunidade internacional

Steve Tsang*, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 22h18

Os protestos pacíficos de Mianmá estão se aproximando de um ponto culminante, com a junta militar pesando os custos potenciais de uma repressão militar maciça. Mas os generais de Mianmá terão poucos incentivos para optar por uma alternativa ao derramamento de sangue e repressão se a China continuar lhes fornecendo apoio e proteção contra as sanções do Conselho de Segurança da ONU. A China tem mais influência sobre os generais governantes de Mianmá do que qualquer outro país. Aliás, sem o respaldo chinês, é discutível se o regime birmanês conseguiria se sustentar. Por isso, embora a crise atual em Mianmá não seja obra da China, nenhuma solução pacífica poderia ocorrer sem o seu concurso.Assim, a China está enfrentando um teste indesejado para sua pretensão de ser uma participante influente e responsável da comunidade internacional. Com 3 mil aldeias destruídas e 1,5 milhão de pessoas desalojadas no leste de Mianmá, um desastre humanitário vem se desenrolando já faz algum tempo. No decurso dessa tragédia, a China conteve a língua, aferrando-se a sua política de não-ingerência nos assuntos internos de qualquer nação.Mas essa política já não é sustentável porque é do interesse da China encontrar uma alternativa eficaz a uma repressão brutal, que só relembraria vivamente ao mundo os massacres em Rangum (Mianmá) em 1988 e na Praça Tiananmen (da Paz Celestial, China) no ano seguinte. Com algumas celebridades internacionais já ávidas para iniciar uma campanha para boicotar os Jogos Olímpicos de Pequim por causa do apoio da China a alguns dos regimes mais repressivos e incompetentes do mundo, uma repressão militar em Mianmá é a última coisa que as autoridades chinesas poderiam desejar.Além disso, os governantes chineses estão concentrados na preparação do iminente 17º Congresso do Partido Comunista, que também poderá ser prejudicado por um confronto sangrento em Mianmá.A China pode evitar esse desfecho tornando a opção de uma repressão brutal proibitivamente cara para o regime birmanês. Ela deveria ameaçar privadamente Miamá de cortar toda a ajuda e os laços comerciais, e encerrar sua proteção do regime contra quaisquer sanções internacionais adicionais nas Nações Unidas.Como uma indução a uma transição pacífica, a China poderia também garantir a segurança pessoal e os bens dos membros da junta militar caso tenham que deixar Mianmá abruptamente. Mas a China deve deixar claro que essa proteção exige que os generais birmaneses cooperem para encontrar uma solução pacífica. A China também deve trabalhar publicamente na ONU e na Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) para encontrar uma maneira de a comunidade internacional poder ajudar a resolver a crise pacificamente.Por último, só poderá haver uma solução dentro de Mianmá. A melhor seria a junta soltar Aung San Suu Kyi e trabalhar com ela, que ainda tem status e apelo suficientes para angariar apoio público a uma transferência de poder pacífica para um regime civil e, no momento oportuno, um governo democrático. Pode ser moralmente abjeto permitir que os membros da junta se retirem com seus ganhos ilegítimos, mas qualquer alternativa cobraria um preço dramaticamente mais alto do povo birmanês.O interesse nacional da China não requer que ela defenda a junta birmanesa para sempre. Evidentemente, a China muito se beneficia com o acesso à energia e a outros recursos naturais de Mianmá. Mas, ao jogar um papel positivo numa transmissão de poder pacífica para um regime civil, a China pode assegurar um vizinho amistoso em Mianmá mais eficazmente do que com sua política atual, que só provoca o ódio do povo birmanês.Como uma questão de estratégia geopolítica, adotar uma atitude positiva em Mianmá pode ajudar a China a tranqüilizar seus vizinhos de que sua política de uma "ascensão pacífica" é real e benéfica. Seja o que for que os governos da Asean digam em público saudando essa ascensão, suas persistentes dúvidas e suspeitas não se dissiparão a menos que eles vejam a China desempenhando ativamente um papel positivo para garantir a estabilidade regional. A crise corrente em Mianmá oferece à China uma rara oportunidade nesse sentido.A comunidade internacional também tem interesse em ver a China interferindo pacificamente. Ela deveria encorajar e apoiar a China a assumir uma liderança no caso de Mianmá, contanto que a China se comprometa a encontrar uma solução pacífica. O objetivo da comunidade internacional deve se restringir a um desfecho pacífico que permita que o povo birmanês encontre a própria solução para seus problemas.Qualquer mudança de regime em Mianmá não será o resultado de uma intervenção internacional, mas de negociações políticas entre a junta e seus adversários internos. A China deve reconhecer, portanto, que usar sua influência não implica aceitar como questão de princípio a ingerência nos assuntos internos de outros países.

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