ANDREAS MEICHSNER/THE NEW YORK TIMESS
ANDREAS MEICHSNER/THE NEW YORK TIMESS

Um tour musical para descobrir Beethoven nas cidades em que ele viveu

Em 2020, comemora-se os 250 anos do nascimento de Beethoven, e Viena e Bonn estão repletas de homenagens

Michael Cooper, The New York Times

14 de março de 2020 | 16h00

BONN E VIENA - Em Viena, até o visitante mais casual é bombardeado pelo complexo industrial Mozart da cidade. Sua face está visível nos doces cobertos de chocolate, os grandes cafés oferecem tortas Mozart e as lojas de presentes vendem chaveiros, bonecos e até patinhos de borracha com a figura do compositor. Vendedores ambulantes não oferecem tours para locais famosos, mas bilhetes para concertos turísticos dominados pela música de Mozart. Mas a pergunta é: e Beethoven

Não me entenda de maneira errada. Adoro Mozart e é encantador ver a cidade onde ele passou a última década da sua vida prestando homenagens a ele com tanto kitsch. Mas Beethoven passou seus últimos 35 anos ali, e foi em Viena que ele compôs ou estreou suas grandes obras – incluindo todas as nove sinfonias – e mudou muitas das nossas ideias sobre música, arte e gênio.

Mas este ano a história de Beethoven é recontada para uma nova geração. O 250º aniversário do seu nascimento vem sendo celebrado em todo o mundo. As salas de concerto estão programando maratonas da sua música; museus abrem mostras e novas coletâneas das suas obras completas são lançadas pela Warner Classics (em 80 CDs) e a Deutsche Grammophon (em 118). Portanto, a época pareceu propícia para uma peregrinação em busca de Beethoven – o homem. 

Ninguém pode acusar Bonn – cidade à margem do Reno que foi capital da Alemanha Ocidental – de ignorar seu filho mais famoso, mesmo que sua infância ali tenha sido infeliz. Os letreiros na estação ferroviária proclamam a cidade como seu local de nascimento, barracas de souvenirs vendem camisetas de Beethoven. Um imponente monumento de bronze, que o compositor e pianista húngaro Franz Liszt ajudou a pagar, é uma das imagens definidoras da cidade. 

Foi lógico começar em Bonn, que abriga o melhor museu dedicado a ele, a Beethoven Haus. Ali, no pátio interno, está a casa coberta de parreiras onde, em 1770, Beethoven nasceu, de uma família de músicos que logo caiu em dificuldade.

Seu avô, também chamado Ludwig van Beethoven, era o kapellmeister de Bonn, um cargo importante, encarregado da música na corte. Mas ele morreu quando Beethoven tinha três anos. Quando o pai dele, menos talentoso, Johann, não conseguiu obter aquele posto, descambou para o alcoolismo; há notícias de que o jovem Beethoven teria implorado à polícia para não prender o pai por se embriagar e criar confusão. 

O museu, que foi reformado para o aniversário, é um relicário musical fascinante: ali estão expostos o console de um órgão que ele tocava quando criança nas missas da manhã numa igreja próxima; a viola que tocou na orquestra da corte; e seu último piano de cauda.

A loja de souvenirs oferecia bustos de Beethoven, discos e livros acadêmicos sobre ele, além de partituras, chocolates, vinhos e até mesmo patinhos de borracha. Enfim, Beethoven brega!

Uma exposição que é um sucesso está aberta até abril na Bundeskunsthalle de Bonn, reunindo no mesmo local os mais importantes artefatos do mundo pertencentes ao compositor, iluminando e questionando a mitologia Beethoven.

O centro histórico de Bonn por si próprio é uma mostra Beethoven: numa igreja próxima da casa onde ele nasceu vi a pia batismal de mármore onde foi batizado, em 17 de dezembro de 1770; entrei no Palace Church onde, quando criança, ele foi organista assistente da corte. E então eu me vi na praça do mercado, onde o mais influente professor de Beethoven, o compositor Christian Gottlob Neefe, discutia os ideais do Iluminismo com os intelectuais locais.

Viena

Ainda é possível visitar os cenários de muitos dos seus triunfos em Viena, no entanto.

No ornamentado Lobkowitz Palace, que foi lar de um importante patrono e hoje é o Theater Museum, visitei a Eroica Saal, onde os primeiros ensaios privados da sua monumental sinfonia foram realizados. Em Beethoven: Angústia e Triunfo, Jan Swafford descreve como os convidados ouviam “enquanto os músicos tropeçavam nessa música mais estranha que nenhum deles jamais tinha ouvido”.

No Theater an der Wien, em frente ao Hotel Beethoven, ele estreou suas Quinta e Sexta Sinfonias na mesma noite, durante um concerto tão longo que ficou na história, em 1808. Neste teatro também foram apresentadas as primeiras audições do seu Concerto para Piano número 4 e sua Fantasia Coral. 

O teatro foi reformado, mas ainda é emocionante ver a que foi, liberalmente, sua residência – com um apartamento dado por Emanuel Schikaneder, empresário que o construiu e que ajudara a criar a Flauta Mágica de Mozart e foi seu primeiro Papageno.

Dei uma olhada na Academia Austríaca de Ciências, que estava em construção, para ver onde ocorreu a estreia da sua Sétima Sinfonia. Minha visita ao Parlamento Austríaco, para ver onde a Oitava foi tocada durante o Congresso de Viena – num salão de baile em Hofburge – foi menos bem-sucedida. 

O salão foi reconstruído depois de um incêndio em 1992. Sua grandeza imperial foi substituída por pinturas impressionantemente modernas de Josef Mikl. Mas aprendi alguma coisa a respeito de Hans Kudlich, legislador austríaco que combateu o feudalismo, fugiu em 1894 do país e foi para Hoboken, em Nova Jersey.

Finalmente, eu me dirigi ao local onde Beethoven morreu em 26 de março de 1827, aos 56 anos de idade. O prédio não está mais lá, mas duas placas marcam o local. Depois que ele morreu os visitantes cortaram seu cabelo para levarem de lembrança; as mechas ainda arrecadam milhares de dólares em leilões. 

As pessoas, de luto, fizeram imensas filas acompanhando seu funeral, e levou uma hora e meia para a procissão chegar à igreja da Santa Trindade, onde a cerimônia do seu funeral foi realizada.

Visitei depois o primeiro túmulo de Beethoven, no cemitério Währing, e onde Schubert, que morreu logo depois, também foi enterrado. Os corpos dos dois compositores foram mais tarde transferidos para o cemitério central da cidade, onde estão um ao lado do outro, perto da sepultura de Brahms.

Por fim, parei no Secession Museum para ver o fantasmagórico Friso de Beethoven, de Klimt, que ele pintou em 1902. Foi uma lembrança de como Beethoven inspirou gerações de artistas muito diferentes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
Beethovenmúsicamúsica erudita

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.