Um vigarista

Câncer, trapaças e o fim de Lance Armstrong, o mito americano

LINDA ROBERTSON / THE MIAMI HERALD, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h10

Os 80 milhões de pulseiras amarelas usadas como símbolo de esperança agora representam duplicidade. As sete camisetas amarelas usadas como mantos de um campeão agora representam fraude. Quem é Lance Armstrong? Vencedor da Volta da França, sobrevivente de um câncer, heroico conquistador de montanhas e adversidades. Mas nós sempre tivemos suspeitas, e, finalmente, ficamos conhecendo a verdade: Armstrong é um vigarista. As pessoas que ainda pensam diferente estão se enganando da mesma forma que Armstrong as enganou.

Existe um ditado entre atletas de que somente otários são apanhados em doping. E somente otários acreditam em histórias que são boas demais para ser verdade. Armstrong se dopou e enganou com igual precisão. "Éramos bons atores", disse o colega de equipe de Armstrong, Tyler Hamilton. "Tínhamos duas caras."

A Nike encerrou seu contrato com Armstrong na quarta-feira, citando "evidências esmagadoras" de que ele "enganou" seu patrocinador por uma década. Quando a Nike repudia um de seus astros, particularmente um cuja marca Livestrong adorna 98 produtos diferentes, sabe-se que ele é venenoso. A Nike apoiou Tiger Woods quando ele se revelou um adúltero contumaz, e Kobe Bryant quando este foi acusado de assédio sexual (acusações posteriormente derrubadas). A Nike recontratou Michael Vick depois de ele cumprir pena de prisão por crueldade com animais. Mas a Nike não quer mais nada com um trapaceiro insolente que, com frequência, jogava a carta do câncer para desviar críticas, se esquivava de perguntas e destratava céticos. Ele dizia que qualquer insinuação de que punha toxinas em seu corpo de novo após se submeter ao tratamento para o câncer era uma insensibilidade ante o que ele e outros pacientes sofreram. Livestrong? O mito Armstrong não foi promovido somente por desonestidade, mas pelas emoções profundas de seus fãs. Armstrong partia corações.

Mas aos 41 anos, ele foi despojado de seus sete títulos da Volta e banido para sempre da competição pela Agência Antidoping dos Estados Unidos (Usada) após uma investigação ter provado que ele era usuário, líder e aplicador de práticas sofisticadas e sistemáticas de doping em sua equipe U.S. Postal Service. Armstrong decidiu não questionar as revelações ou contestar seus acusadores numa audiência de arbitragem. Na semana passada, a Usada divulgou um dossiê com quase mil páginas de depoimentos sob juramento de 26 testemunhas, relatórios laboratoriais, e-mails e registros financeiros.

O relatório montou os fragmentos que erodiram a reputação de granito de Armstrong ao longo dos anos. Ele usou EPO (eritropoietina) para melhorar o desempenho, hormônio do crescimento humano, esteroides e transfusões de sangue para aumentar a oxigenação. Pressionou colegas de equipe a fazerem o mesmo ou procurar outro emprego. Armazenou drogas em seus refrigeradores. Enganou examinadores plantando vigias em hotéis da equipe, introduzindo furtivamente agentes de mascaramento intravenosos em seu quarto, sendo vago sobre seu paradeiro, ocultando seringas e encobrindo um resultado positivo. Ele pagou US$ 1 milhão a um médico nefando, repugnante, conhecido no meio ciclístico como "Dr. Blood".

It's Not About the Bike (em português, Muito Mais do que um Ciclista Campeão) foi o título de sua autobiografia, ou deveríamos chamá-la de um trabalho de ficção? Ele descreveu a luta, determinação e tenacidade que lhe permitiram retornar de um câncer testicular e vencer o mais extenuante evento esportivo num recorde de sete vezes consecutivas. Não tinha a ver com a bicicleta. Tinha a ver com Lance e sua jornada, um farol para os que liam o livro durante sessões de quimioterapia ou deitados num leito de hospital. Não tinha a ver com a pureza da vontade de Armstrong. Tinha a ver com quebrar as regras e se apoiar em substâncias sintéticas para derrotar todos os demais.

Das três defesas comuns de Armstrong, a primeira garante que todos os ciclistas profissionais se dopam e um Armstrong dopado ainda era o melhor num "campo de jogo igual". Pode-se usar a mesma racionalização para colar num exame ou saquear durante um tumulto de rua, mas um comportamento antiético continua sendo antiético. A segunda desculpa, o refrão de Armstrong de que seus testes nunca deram positivo, é falsa. Ao menos um deu. E testes positivos não são necessários para comprovar o doping. A velocista banida e presa Marion Jones nunca teve um teste que desse positivo. Terceiro, Armstrong ajudou a levantar US$ 500 milhões por meio de sua fundação de combate ao câncer. "Ele visita pacientes. Pressiona legisladores. Deixem ele em paz."

Armstrong levantou muitos milhões com a pretensão que o deixou famoso: superar o câncer e aplicar sua vontade de sobreviver para a Volta. Só que essas inspiradoras subidas alpinas - um ciclista francês uma vez descreveu seu choque ao ver a velocidade com que Armstrong passou por ele como se estivesse descendo e não subindo a montanha - eram alimentadas por uma vontade de trapacear.

Um Armstrong realmente corajoso teria confessado, usado sua enorme influência para tirar o ciclismo de suas profundezas dopadas e empreendido uma campanha global contra o doping. Em vez disso, ele deu um soco no estômago do seu esporte. Em vez disso, nós assistimos à queda de outro herói americano. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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