Uma Austrália no caminho do Timor

Atritos deixam timorenses reféns de forças e interesses estrangeiros

António Pinto Barbedo de Magalhães*, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2008 | 01h07

Em 18 de janeiro de 2008, dia seguinte ao do lançamento do seu livro sobre o Timor na Fundação Mário Soares, tive uma longa conversa com o embaixador da Austrália em Lisboa. Estava preocupado com a situação no Timor e disse ao embaixador que considerava imprescindível que o novo primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, um velho amigo do Timor e amigo do presidente José Ramos-Horta, controlasse as Forças Armadas australianas colocadas no Timor e seus serviços secretos. De fato, em governos anteriores, estas tinham estado mais a serviço da Austrália e dos interesses econômicos de petrolíferas que da estabilidade e da democracia no novo país asiático.A ineficácia dos serviços de informações das forças internacionais, quase exclusivamente australianas, que não souberam prever e evitar os ataques contra as duas principais figuras do Estado timorense, nem capturar ou neutralizar os militares que apoiavam o major Reinado (Alfredo, líder rebelde morto no ataque a Ramos-Horta) é um sinal de que, até o dia do atentado, a política herdada do governo anterior ainda não tinha sido mudada no terreno.Convém não esquecer que em março de 2002 o governo de John Howard retirou a Austrália dos tribunais internacionais relacionados com fronteiras marítimas. Em dezembro do mesmo ano, uma semana depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros, Alexander Downer, ter ameaçado o primeiro-ministro timorense de lhe dar uma lição de política, a casa de Mari Alkatiri foi revistada por um australiano e incendiada. A fúria de Downer contra Alkatiri resultava de este não ceder às injustificadas e completamente ilegais exigências australianas relativas ao petróleo do mar de Timor.Até 1979, a resistência timorense foi liderada pela Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), uma frente nacionalista de inspiração revolucionária ao estilo dos movimentos de libertação das ex-colônias portuguesas.Com a queda da última base da resistência em novembro de 1978 e a morte do lendário Nicolau Lobato, nos finais desse ano, a resistência foi quase completamente aniquilada.Dois anos e meio depois, Xanana Gusmão assumiu a liderança da resistência e desenvolveu uma estratégia de grande abertura a todos os patriotas timorenses, mesmo os que colaboravam com os ocupantes. Foi nesse quadro que, em setembro de 1982, Xanana provocou um encontro com monsenhor Martinho Lopes, "bispo" de Díli, e consolidou uma aliança estratégica com a Igreja.Foi também no quadro da política de "conviver com o inimigo" que Xanana se encontrou com o comandante militar indonésio, alcançando um cessar-fogo que foi crucial para a reestruturação da resistência.Foi também Xanana quem se encontrou com o governador colaboracionista Mário Carrascalão, conseguindo assim que se desenvolvesse uma ampla convergência nacionalista.Nos anos seguintes, Xanana foi-se afastando da Fretilin a fim de consolidar essa unidade nacional e transformar as forças da resistência em forças nacionais e suprapartidárias.O realismo em que Xanana Gusmão baseou sua estratégia levou-o a assumir, em 7 de dezembro de 1987, o compromisso de que Timor Leste não se tornasse nunca uma "ameaça à estabilidade da área". Ao mesmo tempo, garantia sua determinação de evitar que Timor viesse a cair nas mãos de algum partido hegemonista pouco democrático.Nessa altura muitos líderes da Fretilin criticaram Xanana duramente. Mas este conseguiu fazer vingar a única estratégia que permitiria à resistência timorense conquistar apoio internacional suficiente para a autodeterminação.Depois do referendo de 1999, uma Assembléia Constituinte, com maioria da Fretilin, elaborou uma Constituição na qual o presidente era uma figura esvaziada de quaisquer poderes em tempos normais. Desse modo os líderes da Fretilin procuravam aniquilar politicamente o carismático líder.A marginalização de Xanana do processo político, o clima de medo criado pelo ex-ministro do Interior Rogério Lobato (detido em 2006, julgado e condenado por ter entregue armas a civis e promovido a instabilidade no país), os conflitos com a Igreja e a arrogância do então primeiro-ministro foram fatores determinantes da crise de 2006.Ao continuar a afirmar que o atual governo, de maioria parlamentar, resultante das eleições de 2007, é ilegítimo, Alkatiri continua a tentar destruir politicamente um líder essencial para Timor. Com isso enfraquece a democracia, debilita o Estado e contribui para que este fique cada vez mais dependente de forças e interesses estrangeiros.A Austrália tem tido e continua a desempenhar um papel dominante no Timor Leste. Imprescindível para evitar a guerra civil e a completa destruição do Estado, tem sido, também, uma das principais, se não a principal, causa da manutenção de uma instabilidade quase permanente, ainda que "controlada".Mas os líderes timorenses que, no seu irrealismo, ignoram o contexto internacional em que o Timor se insere e se ocupam em se destruir mutuamente, também têm, definitivamente, que se entender e colaborar.Uma relação de confiança entre eles é fundamental. Ramos-Horta fazia tudo que podia nesse sentido. Sua contribuição era fundamental e continua a ser da maior importância. Uma relação de confiança com a Austrália, como aquela que existe com a Indonésia, é também fundamental. Com Rudd, será possível. É preciso, no entanto, que ele consiga controlar seus serviços secretos e militares e moderar os ímpetos de alguns interesses econômicos absolutamente selvagens.

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