Uma boia para a Europa

Se os alemães ainda não estão convencidos, precisam entender que os custos de uma ruptura da zona do euro será astronomicamente alto, para eles e para todos os outros

Niall Ferguson e Nouriel Roubini, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h11

Está a Europa à beira da catástrofe? O fato de a opinião pública alemã não compreender a situação calamitosa do continente no momento é um convite à repetição da crise que estourou em meados do século 20 - e que a integração europeia foi projetada para evitar.

Com o aumento da probabilidade de uma saída da Grécia da união monetária cresce a pressão sobre os bancos espanhóis, e com isso o perigo de uma corrida aos bancos de grande envergadura em toda a região do Mediterrâneo que poderá soterrar o Banco Central Europeu (BCE). Já tem se verificado uma importante renacionalização do sistema financeiro europeu. Esse processo centrífugo pode facilmente continuar até a total desintegração.

Consideramos extraordinário o fato de que, entre todos os países, seja a Alemanha a não ter aprendido com a história. De olhos fixos na não ameaça de inflação, os alemães parecem dar hoje mais importância ao ano de 1923 (ano da hiperinflação) do que a 1933 (ano em que a democracia pereceu). Seria bom que eles se lembrassem de como a crise bancária europeia que eclodiu dois anos antes de 1933 contribuiu diretamente para o colapso da democracia, não só em seu próprio país, mas em todo o continente europeu.

Surpreendentemente, poucos europeus (incluindo os banqueiros) parecem lembrar o que ocorreu em maio de 1931, quando o maior banco da Áustria, o Creditanstalt, precisou ser socorrido por um governo que também estava à beira da insolvência. A crise bancária que se seguiu na Europa, quando os dois maiores bancos alemães faliram, marcou o início da segunda metade da Grande Depressão. Se a primeira metade foi dominada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, a segunda foi totalmente por conta da derrocada dos bancos europeus.

O que ocorreu depois? A crise bancária foi seguida de uma moratória de um ano, decidida pelo presidente Hoover, dos pagamentos das dívidas de guerra e indenizações da 1ª Guerra Mundial. Quase todos os países soberanos deram o calote de toda ou parte da sua dívida externa, a começar pela Alemanha. O desemprego na Europa chegou a um pico atroz em 1932: em julho daquele ano, 49% dos trabalhadores sindicalizados da Alemanha estavam desempregados.

As consequências políticas são bem conhecidas. Mas os nazistas foram apenas os piores de um grande número de movimentos extremistas que procuravam se beneficiar politicamente da crise. Partidos contrários ao sistema na Alemanha - incluindo comunistas e fascistas - obtiveram 13% dos votos em 1928. Em novembro de 1932, conseguiram quase 60%. A extrema direita também avançou na Áustria, Bélgica, Checoslováquia, Hungria e Romênia. Os comunistas venceram na Bulgária, França e Grécia.

O resultado foi a morte da democracia em grande parte da Europa. Em 1920, a Europa contava com 24 regimes democráticos. Esse número caiu para 14 em 1939. Até os banqueiros sabem o que ocorreu naquele ano.

Aqueles que, como nós, repetidamente alertaram, nos anos 1990, que o experimento da união monetária terminaria mal, estariam exultantes - se não estivessem tão perturbados com a perspectiva de a história se repetir.

Como está a situação hoje? A periferia da Europa está em depressão. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) o PIB deve encolher este ano 4,5% na Grécia e 3,3% em Portugal. O desemprego está em 24% na Espanha, 22% na Grécia e 15% em Portugal. A dívida pública já supera os 100% do PIB na Grécia, Irlanda, Itália e Portugal. Esses países, juntamente com a Espanha, estão efetivamente fora do mercado de títulos.

Agora chega a crise dos bancos. Temos advertido há mais de três anos que a Europa continental precisava sanear os deploráveis balanços dos seus bancos. Praticamente nada foi feito. Nesse ínterim, há dois anos uma silenciosa corrida aos bancos na periferia da zona do euro vem ocorrendo: os financiamentos através das fronteiras, interbancários e por meio de tomadas de empréstimo de curto prazo, foram sendo reduzidos e substituídos com financiamento do BCE; e o smart money - fundos depositados de investidores experientes - silenciosamente começaram a sair dos bancos gregos e outros países do chamado "Club Med".

Mas agora o público em geral é que está perdendo a confiança e essa corrida silenciosa pode se estender a depósitos menores que estão garantidos. Na verdade, se a Grécia abandonar o euro, deverá ocorrer um congelamento dos depósitos em euro, que serão convertidos em novos dracmas; assim um euro num banco grego não equivale realmente a um euro num banco alemão. Os gregos retiraram mais de 700 milhões (US$ 875 milhões) dos seus bancos no mês passado.

Mais preocupante foi o aumento das retiradas em alguns bancos espanhóis no mesmo período. Numa recente visita a Barcelona, a pergunta feita repetidamente era se seria seguro deixar dinheiro num banco espanhol. Esse tipo de processo é potencialmente explosivo. O que hoje é uma ida normal e agradável a um banco pode facilmente se transformar numa corrida insana para retirar todo o dinheiro. De fato, uma corrida total a outros bancos dos Piigs (bloco formado por Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) seria impossível de se evitar na eventualidade de uma saída da Grécia. As pessoas prudentes perguntarão: quem é o próximo?

Nesse intervalo, o aperto do crédito nos bancos da periferia da zona do euro continuará severo, uma vez que as instituições bancárias, incapazes de atingir a nova meta de capital de 9% elevando o capital privado, estão vendendo ativos e restringindo o crédito, agravando a recessão na zona do euro. Uma fragmentação e balcanização dos bancos na zona do euro, juntamente com medidas para colocar um freio na dívida pública, estão em curso.

O processo de fragmentação política também vem se acelerando. Nas últimas eleições na Grécia, sete em dez eleitores votaram em partidos menores contrários ao programa de austeridade imposto ao país em troca de pacotes de ajuda. Partidos estabelecidos também estão perdendo espaço para agremiações dissidentes na Itália, onde o Movimento Cinco Estrelas, de Beppe Grillo, conquistou o controle da cidade de Parma, e na Alemanha, onde um partido independente denominado Piratas é muito popular. Populistas mais sérios hoje desfrutam de um apoio substancial na França, Holanda e Noruega. Essa tendência é ameaçadora.

A maneira de sair da crise parece clara.

Em primeiro lugar, é necessário um programa de recapitalização direta - por meio de ações preferenciais sem direito a voto - dos bancos da zona do euro, da periferia e do centro, pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (Feef) e seu sucessor, o Mecanismo Europeu de Estabilidade. E que teria como modelo o bem-sucedido Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp), dos Estados Unidos.

Em segundo lugar, para evitar uma corrida aos bancos da zona do euro - o que é uma certeza no caso de uma saída da Grécia, e uma probabilidade em qualquer outra situação - é preciso criar um sistema de seguro sobre os depósitos abrangendo toda a União Europeia

O principal risco é de que qualquer proposta aceitável para a Alemanha implicaria tal perda de soberania fiscal que não seria aceita pela periferia da zona do euro, particularmente por Itália e Espanha. Ceder parte da soberania é algo inevitável. Contudo, sujeitar a política fiscal a uma submissão "neocolonial" à Alemanha - como disse o líder de um dos países da periferia durante uma reunião recente do Nicolas Berggruen Institute em Roma, não pode ser aceito.

As autoridades alemãs vêm se opondo sistematicamente a uma recapitalização direta de bancos problemáticos. A chanceler Angela Merkel descartou coerentemente a emissão de títulos em euro. Alguns porta-vozes alemães se manifestaram como se desejando realmente a saída da Grécia da zona do euro. Outros mostraram-se impacientes para impor o mesmo regime fiscal à Espanha, como já foi imposto a Portugal.

Compreendemos as inquietações da Alemanha no tocante ao "risco moral", o não cumprimento de cláusulas pactuadas. Vai ser difícil encontrar uma justificativa para pôr dinheiro do contribuinte alemão em risco se reformas importantes não forem implementadas de fato na periferia. Mas essas reformas levarão tempo. A reforma estrutural do mercado de trabalho na Alemanha não foi um sucesso da noite para o dia. Inversamente, a crise bancária europeia é um risco financeiro que pode se intensificar em questão de dias.

Procuramos oferecer propostas que acalmem as inquietações dos alemães. Mas queremos enfatizar que uma ação é urgentemente necessária. Os alemães precisam entender que a recapitalização dos bancos, o seguro de depósito europeu e a mutualização da dívida não são medidas opcionais. Elas são essenciais para evitar uma desintegração irreversível da união monetária europeia. Se os alemães ainda não estão convencidos, eles precisam entender que os custos de uma ruptura da zona do euro será astronomicamente alto, para eles e para todos os outros.

Afinal, a atual prosperidade da Alemanha em grande medida é consequência da união monetária. O euro propiciou aos exportadores alemães uma taxa cambial muito mais competitiva que o velho marco alemão. E o resto da zona do euro ainda é o destino de 42% das exportações alemãs. Mergulhar metade do mercado numa nova depressão não será bom para a Alemanha.

Em última análise, como a própria chanceler alemã admitiu, a união monetária sempre implicou avançar com a integração para se alcançar uma união fiscal e política.

Mas antes de a Europa chegar mais perto desse passo histórico, ela precisa primeiramente mostrar que aprendeu as lições do passado. A União Europeia foi criada para evitar uma repetição dos desastres dos anos 1930. Está na hora de os líderes europeus, especialmente os alemães, compreenderem como estão perigosamente perto de repetir os mesmos erros. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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