Uma cadeia de arrochos para salvar as 'Três Grandes' do carro

Acionistas, sindicatos, governo: todos teriam que entrar na conta do resgate da General Motors, Ford e Chrysler

Martin Feldstein*, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 20h25

As Três Grandes da indústria automobilística dos Estados Unidos precisam de mais de uma injeção de US$ 25 bilhões do governo federal. De fato, seus atuais prejuízos as levariam a gastar essa ajuda em menos de um ano e logo elas teriam de pedir mais. General Motors, Ford e Chrysler fabricam automóveis excelentes, mas não conseguem vendê-los a preços competitivos com os dos carros produzidos nos EUA pela Toyota e outras montadoras, ou com os dos carros importados da Europa e Ásia. O problema básico são os custos da mão-de-obra impostos pelos contratos com os sindicatos.As Três Grandes pagam salários muito mais altos que os pagos pelas indústrias automobilísticas que não têm operários sindicalizados e os da economia em geral. Por outro lado, os custos da assistência médica dos trabalhadores na ativa e dos aposentados constituem um enorme ônus adicional.A solução mais simples é permitir que a GM e as outras companhias requeiram a recuperação judicial, a fim de poder continuar produzindo carros e manter a força de trabalho empregada, enquanto se reorganizam. Elas também poderiam obter créditos de curto prazo, conforme lhes garante a lei.O tribunal poderia exigir que os sindicatos refizessem os contratos, reduzindo os valores a níveis que permitiriam que as companhias competissem e, portanto, mantivessem os empregos. A redução do número de trabalhadores e da assistência médica para os aposentados melhoraria ainda mais a competitividade, elevando também os salários. Compradores de títulos das empresas e outros credores teriam de assumir os prejuízos e o destino dos acionistas dependeria de como as empresas se saíssem na reestruturação. A recuperação judicial e a reformulação dos salários são as medidas que salvaram as companhias aéreas, bem como os fabricantes. A afirmação de que esse sistema implicaria a perda de milhões de empregos é absurda. Visa a apavorar o público e obrigar os legisladores e o governo Bush a injetar dinheiro para sanar os problemas da indústria automobilística.As empresas só teriam condições de sobreviver e oferecer bons empregos reduzindo os salários e os benefícios.Se os políticos de Washington não conseguirem viver com a idéia de que a indústria automobilística possa entrar em colapso, e decidirem que é imprescindível uma ajuda em dinheiro, isso poderá ser feito de acordo com um programa fundamental de reestruturação imposto pelo governo em troca desses recursos. O objetivo da reestruturação não deveria limitar-se à exigência de que as companhias fabricassem carros econômicos e menos poluentes - como disse o presidente eleito, Barack Obama, embora isso possa ser incluído na lista de exigências do governo -, mas deveria proporcionar às companhias condições de sobreviver no longo prazo, fabricando carros e criando empregos. Para tanto, o governo deveria insistir em que os sindicatos aceitassem as reduções dos salários e dos benefícios a níveis que possibilitassem às companhias competir com as importações e com as fabricantes americanas de automóveis que não têm trabalhadores sindicalizados. Os aposentados deveriam aceitar as reduções dos benefícios impostas pelo governo. Este teria de insistir com a administração das companhias para que eliminasse os dividendos e limitasse os salários até que voltassem a lucrar. Os credores teriam de aceitar o cancelamento de parte do valor da dívida. O governo tem alavancagem substancial para garantir que essas mudanças ocorram. A administração, os sindicatos, os aposentados e os credores das companhias automobilísticas deveriam reconhecer que, sem a assistência do governo, seriam obrigados a pedir concordata e o tribunal exigiria cortes ainda mais profundos das receitas, dos benefícios e das remunerações a acionistas e credores. Ministrar remédios amargos é difícil para os políticos. O presidente Bush faria um favor a seu sucessor se impusesse esse processo de reestruturação, aliviando Obama na hora de cumprir sua promessa de ajudar as empresas automobilísticas e melhorar as perspectivas do setor automotivo americano. *Martin Feldstein, professor da Universidade Harvard e presidente emérito do National Bureau of Economic Research, escreveu este artigo para The Washington Post

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