Art Recovery International
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Uma conclusão não tão satisfatória no caso de uma obra de arte roubada pelos nazistas

Família procura durante 70 anos por obra de arte roubada pelos nazistas

Nina Siegal, The New York Times

10 Junho 2017 | 16h00

AMSTERDÃ  - Em 1937, em Viena,  um casal de judeus, Heinrich e Anna Maria Graf, adquiriram uma pintura a óleo do século 18 do Grande Canal de Veneza com a Punta Della Dogana ao fundo. A obra ocupava um lugar de honra na  sala de estar da família, o ponto alto da sua pequena, mas valiosa, coleção de arte.

Um ano depois a Alemanha anexou a Áustria e o casal e suas filhas gêmeas de seis anos de idade, Erika e Eva, tiveram de fugir do país. Sua coleção de arte foi guardada em uma unidade armazenamento especializada e eles partiram para a Itália, depois para a França, onde Heinrich ficou detido por mais de um ano em um campo de internamento para judeus. Depois a família fugiu para Espanha e Portugal e finalmente para Nova York. Em 1942 os Graf se instalaram em Forest Hills, Queens. Tudo o que possuíam foi saqueado pelos nazistas.

O quadro do Grande Canal de Veneza tornou-se o foco de uma tentativa de recuperação pela família Graf e seus herdeiros que durou 70 anos e que terminou de modo não muito satisfatório. A Sotheby’s, em Londres, prepara-se para vender a obra do artista Michele Marieschi, num leilão dedicado aos velhos mestres da pintura a se realizar em julho, depois de um acordo de ressarcimento firmado entre os herdeiros e a empresa que cuida da administração dos bens e valores do proprietário do quadro, que faleceu e cuja identidade não foi revelada. A casa de leilões avalia o valor da obra entre US$ 650.000 e US$ 905.000.

Esta dolorosa e tortuosa história mostra como obras de arte roubadas em mãos de particulares durante décadas vêm chegando ao mercado depois de acordos de ressarcimento serem firmados com os reais proprietários, de maneira que procura limpar seu passado manchado. Esses acordos podem não resultar no retorno das obras para os herdeiros, mas o compromisso pelo menos acena com uma solução e alguma compensação para os herdeiros e traz a público obras que estavam escondidas.

Os herdeiros da família Graf não recuperaram a pintura porque o proprietário, falecido e a empresa que cuida do espólio recusaram-se a devolver a obra. As partes, então, firmaram um acordo que estabelece a divisão do valor obtido no leilão, cujos detalhes não foram revelados.

Stephen Tauber, cunhado do casal Graf, disse em uma entrevista por telefone que a solução foi ambivalente. Erika, sua mulher, faleceu em 2012, aos 79 anos, e Eva, sua irmã, vive em uma comunidade de aposentados em Canton, Massachusetts.

“Preferíamos ter este quatro de volta para meus sogros enquanto estavam vivos, ou não o conseguindo, para seus herdeiros. Firmamos um acordo que não foi tão satisfatório, mas aceitável. Foi o melhor que conseguimos. O ideal seria um retorno do valor total para a nossa família. Não foi possível, então aceitamos o que foi possível”.

Como muitas pinturas roubadas durante a Segunda Guerra Mundia, La Punta Della Dogana e San Giorgio Maggiore passaram por diversas mãos depois que a família Graf a deixou em Viena. O depósito onde estava armazenada foi confiscado pela Gestapo em 16 de novembro de 1940, de acordo com Andrew Fletcher, diretor de vendas do departamento de pinturas dos antigos mestres da Sotheby’s em Londres.

O paradeiro exato do quadro durante o período da guerra é desconhecido, mas em 1952 um marchand, Henry James Alfred Spiller, vendeu-o num leilão para um colega seu, Edward Speelman, que provavelmente desconhecia a história da obra. Speelman vendeu o quadro um ano depois para o atual proprietário que faleceu.

A família Graf estava em busca do quadro desde 1946 quando Heinrich Graf entrou com ação nos tribunais para reaver a obra na Áustria. Em 1998 as duas irmãs, com ajuda do Art Loss Register, banco de dados de arte perdida e roubada que realiza serviços de busca, colocaram um anúncio no The Art Newspaper em busca de informação.

Charles Biddington, veterano marchand de pinturas dos antigos mestres que trabalhou como especialista na Christie’s, reconheceu a obra, que tinha visto da casa do proprietário 15 anos antes.

“Sabia onde o quadro estava. Mas achei melhor perguntar à Christie’s se deveria revelar o nome do cliente e eles disseram que não”, disse Biddington em uma entrevista por telefone.

As irmãs requereram a um tribunal britânico expedição de ordem à Christie’s para revelar o nome do proprietário, ordem que a casa de leilões cumpriu.

O Art Loss Register e a Comunidade Israelita de Viena tentaram falar com o então proprietário, que se recusou a conversar com a família. Ele morreu em 2013, disse Tauber, e o quadro ficou em mãos da empresa responsável pelo espólio e que, em 2015, contatou Christopher Marinello, da Art Recovery International, especializada na intermediação desse tipo de ação. Foi então que as negociações começaram.

A pintura, embora valiosa para a família Graf não é considerada uma obra de arte importante. Mar para Jonathan Green, dono da Richard Green Gallery, de Londres, a avaliação feita pela Sotheby’s parece justa.

“Não é o melhor Marieschi, mas o valor é justo, supondo que esteja em boas condições. Vi cerca de 20 a 30 obras dele em leilões nos últimos 20 anos, e os excepcionais foram vendidos por valores em torno de US$ 2 milhões”, disse ele.

A família Graf e o espólio firmaram o acordo em dezembro. Tauber, 85 anos, e seu filho Andrew, chegaram a ver a obra durante uma hora quando se encontrava no escritório da Sotheby’s em Paris, no mês passado.

“Finalmente, depois de décadas ouvindo falar sobre a pintura, consegui vê-la com meus próprios olhos, disse Andrew. “Sabendo que meus avós, dos quais era muito próximo, amavam tanto esse quadro, foi uma experiência emocionante”. /Tradução de Terezinha Martino

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