'Uma das conseqüências da expansão da cana e da soja é a expulsão do feijão, do arroz, do milho'

Carta aberta ao ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes

Carlos Colombo* , O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2008 | 23h33

Nessa semana, o governo brasileiro travou uma batalha verbal com o relator da ONU para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler. Em entrevista a um jornal francês, Ziegler afirmou que o etanol seria "um crime contra a humanidade", pois a expansão das áreas agrícolas visando à produção de energia aumentaria o preço dos produtos básicos da alimentação humana. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, rebateu dizendo que essa crítica não se aplicava ao Brasil. Será mesmo que não? Sinto falta de análises mais detalhadas para esclarecer um lado e outro. Essa questão envolve não somente a questão energética, mas também a política agrícola, a degradação da natureza, subsídios, a distribuição de renda no campo, o fornecimento de alimentos a preços populares e outros fatores que derivam da ocupação do espaço agrícola por culturas que concentram renda e destróem o ambiente. Não faz sentido fazer uso de produtos da alimentação humana para produção de energia, a exemplo do milho nos EUA. No Brasil, tirando o açúcar da cana, tanto a própria quanto a soja são pouco consumidas diretamente pela população. Aliás, no caso da soja, ainda se ganha menos fornecendo esse produto às usinas de transformação em óleo diesel do que exportando para a alimentação de animais. As duas culturas, porém, têm recebido grande incentivo comercial e governamental. Uma das conseqüências dessa expansão é a expulsão de culturas anuais tradicionalmente cultivadas, como feijão, arroz, milho e algodão. Há muito tempo não ouço falar de ocupação organizada do espaço agrícola. Se não me engano, foi há 20 anos, quando ainda cursava a faculdade. Está mais atual do que nunca.  *Carlos Colombo é pesquisador científico.

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