Cynthia R. Matonhodze/The New York Times
Cynthia R. Matonhodze/The New York Times

Uma das maiores escritoras africanas, Tsitsi Dangarembga retorna à literatura em grande estilo

Seu romance de estreia, 'Condições Nervosas', fez dela parte do cânone literário africano; décadas depois, 'This Mournable Body' a tornou uma candidata a um dos maiores prêmios literários do mundo

Wadzanai Mhute, The New York Times

21 de novembro de 2020 | 16h00

Quando o romance de estreia de Tsitsi Dangarembga, Condições Nervosas, foi publicado em 1988, foi saudado como uma das obras mais significativas da literatura africana do século 20.

O livro conta a história de Tambudzai, uma menina criada na pobreza do que então era chamado de Rodésia, hoje Zimbábue, bem como sua luta para conseguir uma educação e os desafios da desigualdade de gênero enraizada, a África nas décadas de 1960 e 1970 e o mundo pós-colonial. Sua editora logo quis uma sequência.

Mas, em vez de voltar a escrever, Tsitsi foi para a escola de cinema. “Não pensei em prosa por vários anos”, disse ela em uma entrevista. “Eu não tinha cabeça para escrever.”

Apenas em 2006 foi lançada uma sequência, The Book of Not (O livro do não, em tradução livre), apresentando Tambudzai, ou Tambu, frequentando um colégio interno, mas cada vez mais desiludida com sua vida, embora não tenha sido publicado nos Estados Unidos. O terceiro livro, no entanto, This Mournable Body (Este corpo em luto, em tradução livre), foi publicado com mais alarde e, este ano, foi indicado ao Prêmio Booker.

Em This Mournable Body, Tambu é a mulher educada que lutou tanto para se tornar, embora isso não pareça ter trazido muito conforto - material, social ou emocionalmente. Solitária, muitas vezes desempregada e se esforçando para manter seu senso de identidade, ela reflete de algumas maneiras a frustração de zimbabuenses como Tsitsi sobre o estado de seu país, que está em queda livre econômica e sofrendo com as violações dos direitos humanos e a pandemia do novo coronavírus.

Tsitsi não se esquivou de se pronunciar publicamente e ela ganhou as manchetes globais durante o verão, quando foi presa durante um protesto em Harare poucos dias depois da longa lista do Prêmio Booker ser anunciada. This Mournable Body desde então tornou-se um dos finalistas e o vencedor será anunciado em 19 de novembro.

Ela conversou acerca dos anos entre seus romances e o que ela vê como problemas e possibilidades do Zimbábue, para onde voltou após passagens pela Inglaterra e Alemanha. Estes são trechos editados da conversa.

O que você tem feito nesse intervalo entre “Condições nervosas” e seu último livro? O que estava acontecendo entre eles?

Escrevi Condições Nervosas quando era estudante na Universidade do Zimbábue. Não consegui publicar no Zimbábue, que na época estava publicando homens, e não tive acesso a editoras. Eu tinha ouvido falar que a Women’s Press na Inglaterra publicou Alice Walker, então eu enviei minha única cópia do meu manuscrito para eles. Eles não responderam e, anos depois, quando fui trabalhar na Inglaterra, visitei seus escritórios em Londres. Eles tinham meu manuscrito no porão e não o leram. Como eu estava lá, eles concordaram em lê-lo e, no dia seguinte, disseram que queriam publicá-lo. Portanto, foram quatro anos desde a escrita até a publicação.

Antes da publicação, não achava que tinha uma carreira como escritora, então comecei a trabalhar para uma pequena empresa que fazia documentários. A partir daí, decidi ir para a escola de cinema na Alemanha. Como tive que aprender a língua, não pensei em prosa por vários anos. Depois do sucesso de Condições Nervosas, meu editor me pediu para escrever uma sequência, mas eu estava na Alemanha, então não pensava que pudesse escrever sobre o Zimbábue.

Era a segunda metade dos anos 90, eu tinha uma família jovem e estava vivendo como estudante. Eu não tinha cabeça para escrever. Também não havia ninguém com quem discutir o Zimbabué. Poucas pessoas na Alemanha o conheciam. Para eles, era apenas um país da África.

Comecei a voltar ao Zimbábue para projetos de cinema, então tive mais contato com o país. Depois, voltei em 2000 e comecei a escrever novamente. As crianças foram para a escola e com ajuda, tive espaço para escrever. “The Book of Not” foi publicado em 2006.

Como não havia mais royalties do meu primeiro livro, o que me salvou foi uma bolsa da Fundação Rockefeller Bellagio Center em 2016. Meu marido cuidou das crianças no Zimbábue e eu passei quatro semanas em um lugar onde fui intelectualmente estimulada, conversando sobre escrita com escritores.

Quando terminei This Mournable Body, coloquei parte dele nas redes sociais. A editora Ellah Wakatama Allfrey me ajudou a conseguir um agente. Sou muito grata a ela, porque não havia oportunidades para pessoas como eu.

Quando você terminou 'Condições Nervosas', você achou que era o início de uma trilogia? Você pretendia voltar a ele?

Eu queria apresentar esperança em Condições Nervosas, mas sempre o vi como o fim de um capítulo, não o fim de sua história. Tambu foi para uma escola multirracial que não era muito multirracial. Eu queria explorar isso. No entanto, eu estava escrevendo na década de 1980, logo após a independência, e não conseguia escrever o que queria porque não era um momento apropriado. O Zimbábue era independente, mas não tinha lidado com os problemas que levaram à independência. Então, a questão da terra irrompeu nos anos 90 e voltei da Alemanha. Achei que era a hora de escrever a respeito disso.

Alguns leitores disseram que existem semelhanças biográficas entre você e Tambu. Quanto disso foi intencional?

Eu entendia como as pessoas podiam ver isso dessa maneira. Quando comecei a escrever, era uma feminista recém-formada. Eu via como a interseção de raça, gênero e classe afetava as pessoas. Queria que as pessoas se identificassem com Tambudzai, que havia enfrentado muitas coisas semelhantes.

Tambu de 'Condições Nervosas' é muito diferente de Tambu em 'This Mournable Body'. Ela experimenta desilusão, apesar de sua educação, e ainda não consegue ganhar a vida. Ela reflete o estado atual dos escolarizados no Zimbábue?

Ela era uma mulher educada chegando à meia-idade na década de 1990, com um diploma, mas não conseguia se sustentar. Ela teria sido considerada um fracasso naquela sociedade daquela época. Agora é mais comum ter um diploma e não conseguir encontrar um emprego. Eu podia ver a situação atual no Zimbábue se infiltrando naquela época.

O que você deseja que os leitores, especialmente os não zimbabuanos, entendam a partir de seus livros?

Como escritora, não gosto de prescrever um significado para os leitores. Quero que sigam a trajetória de Tambudzai. Em This Mournable Body, ela se torna uma mulher rígida e amargurada.

Ela tenta entrar em grupos que a excluem. Há também a perda do orgulho e da dignidade de sua família. Ela finalmente chega à conclusão de que não é sobre ela e que ela deve incluir outras pessoas em sua vida.

Quais são seus planos para o futuro?

Eu quero ser capaz de organizar o treinamento para mulheres em cinema, iniciativas de capacitação, para poder fazer filmes. Eu tenho alguns em pré-produção e alguns estão prontos para produção. Eu viveria em um ambiente com eletricidade confiável. Finalmente tenho energia solar; agora a eletricidade não cai quando estou no meio da frase. Ter água corrente, viver em algum lugar onde exista uma comunidade artística e literária vibrante onde eu possa ter discussões significativas.

Se você prestar atenção, os zimbabuanos que escrevem com sucesso estão morando fora do Zimbábue. É ótimo que eles escrevam sobre sua experiência por lá, mas precisamos de escritores em nível local escrevendo a respeito de questões locais. Idealmente, podemos ter um governo que apoie a arte como uma vitrine da sociedade, proporcionando um espaço de discussão. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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