Earl Wilson/The New York Times
Earl Wilson/The New York Times

Uma defesa da identidade 'transracial' agita o mundo da filosofia

Artigo defende que os argumentos que amparam a identidade transgênero devem amparar também a possibilidade de uma identidade transracial

Jennifer Schuessler, The New York Times

27 Maio 2017 | 16h00

Nos últimos anos, a filosofia acadêmica mais pareceu um campo de batalha, e não apenas por seu famoso estilo de argumentação um tanto aguerrido.

Uma série de escândalos de assédio sexual comprometeu acadêmicos proeminentes, enquanto filósofas feministas pleitearam a diversificação do campo — que permanece, muito mais do que as outras áreas das humanidades, esmagadoramente branco e masculino.

Agora, um artigo publicado por uma importante revista de filosofia feminista disparou um tiroteio de críticas e contracríticas, revelando uma cisão dentro da própria filosofia feminista e levantando uma questão espinhosa: quando se trata de temas sensíveis à identidade, o que é boa filosofia? E quem o direito de decidir?

O artigo In Defense of Transracialism (Em defesa da transracialidade), de Rebecca Tuvel, apareceu na edição de primavera da revista Hypatia. Tuvel, professora assistente do Rhodes College, em Memphis, afirma que os argumentos que amparam a identidade transgênero devem amparar também a possibilidade de uma identidade transracial. 

“A sociedade”, ela conclui, “deve aceitar a decisão de um indivíduo que muda de raça da mesma maneira que deve aceitar a decisão de um indivíduo que muda de sexo”.

Tuvel, que é branca, não foi a primeira pesquisadora a tocar no assunto, nem a contrastar as respostas a Rachel Dolezal — a ex-funcionária branca da NAACP. cuja reivindicação de ser negra provocou indignação e escárnio generalizados — ao tratamento bem mais ameno reservado a Caitlyn Jenner, que se assumiu transgênero mais ou menos na mesma época. Mas a reação a seu artigo foi rápida e furiosa.  

Uma carta aberta assinada por mais de oitocentos acadêmicos — muitos de fora da filosofia — pediu que o artigo fosse tirado do ar, sob o argumento de que ele “está aquém dos padrões acadêmicos” e de que “a ininterrupção de sua disponibilidade causa danos ulteriores”. Alguns dos dez membros do conselho editorial, que não tem nenhuma responsabilidade sobre a seleção dos artigos da revista, postaram um “profundo pedido de desculpas” na página da Hypatia no Facebook, declarando que “evidentemente, o artigo jamais deveria ter sido publicado”.

Para aumentar o drama, Sally Scholz, editora do periódico, divulgou uma nota defendendo o artigo e dizendo que é “absolutamente inapropriado que os editores repudiem um artigo que eles mesmos aceitaram para publicação”.

Para os críticos de Rebecca Tuvel, o artigo, apesar de declarar apoio aos direitos dos transgêneros, apresenta “níveis escandalosos de ignorância liberal e branca, além de violência discursiva transmisógina”, como um pesquisador postou no Facebook. Para os defensores do artigo, Tuvel foi vítima de perseguição on-line. Na área de comentários de uma rede social, um filósofo declarou que o conselho editorial havia abandonado “a postura fundamentalmente crítica que define a filosofia desde Sócrates” em favor de uma “posição ideológica e política”.

No entanto, debaixo dessa pesada guerra de palavras se esconde uma batalha mais difusa e não menos importante acerca do método filosófico.

“Em termos de qualidade, é um artigo bem normal”, disse Justin Weinberg, professor da Universidade da Carolina do Sul e editor do Daily Nous, um site de notícias sobre filosofia. “Mas algumas pessoas vão dizer que isso é parte do problema”.

A Hypatia — nome de uma filósofa e matemática grega assassinada por uma turba de fanáticos cristãos — foi fundada em 1986 como um espaço para pesquisas feministas, muitas vezes rejeitadas pelo mainstream filosófico. Em nota divulgada na última quinta-feira, 18 de maio, a diretoria da revista defendeu a publicação do artigo e reafirmou seu compromisso com a “pesquisa plural”, o que definiu como um “valor fundamental do feminismo e também da academia”.

O artigo de Tuvel se enquadra na tradição da filosofia analítica, uma abordagem que se dedica a esclarecer conceitos, baseando-se em francas análises lógicas e, às vezes, em analogias e hipóteses meio estranhas (as justificativas para o consumo de carne sustentam também o canibalismo? Fetos não desejados são semelhantes aos estupradores?) Mas alguns detratores dizem que se trata de uma abordagem inadequada ao assunto em questão.

“Funciona bem quando você está pensando em temas metafísicos abstratos, como a existência das árvores ou a continuidade presente das coisas do passado”, disse Talia Mae Bettcher, signatária da carta aberta e professora de filosofia na Universidade Estadual da Califórnia, em Los Angeles. “Mas, quando você começa a filosofar sobre opressão racial, opressão transgênero ou outras questões sociais contemporâneas, precisa utilizar metodologias diferentes”.

Bettcher, que em 2009 foi coeditora de uma edição especial da Hypatia dedicada a questões trans, disse que o artigo de Rebecca Tuvel faz parte de uma longa tradição de pesquisadores que tomam as pessoas trans como objeto de investigação sem levar em conta o que elas dizem sobre si mesmas.

“Nesse tipo de discussão, todo mundo pensa: ‘vou me intrometer aqui, citar uns artigos’. Mas ninguém chega a realmente refletir sobre essas questões mais profundas”, ela disse. As conclusões do artigo, Bettcher acrescenta, “são falsas”.

Tina Fernandes Botts, professora assistente da Universidade Estadual da Califórnia, em Fresno, e editora do livro Philosophy and the Mixed Race Experience [A filosofia e a experiência das raças mistas], também repreendeu duramente o que ela qualificou como falta de compromisso do artigo com o trabalho de pesquisadores trans e não-brancos.

“O conteúdo é condenável e as conclusões são condenáveis, mas essa nem é a parte mais ofensiva”, disse Botts, que criticou uma versão anterior do artigo de Tuavel em uma conferência no mês passado. “A parte realmente ofensiva é que as perspectivas dos pesquisadores e pesquisadoras que trabalham nessas áreas foram tratadas como inexistentes ou irrelevantes”.

Tuvel, cujo artigo cita alguns trabalhos de pesquisadores transgêneros, incluindo um artigo de Bettcher, se recusou a comentar o caso. Em nota publicada pelo Daily Nous pouco depois do início da controvérsia, ela disse a exigência de mais citações de acadêmicos trans e não-brancos era “uma condenação válida”, mas manteve seus argumentos.

Outros estudiosos que entraram no debate questionaram se a ideia de que somente as pessoas com uma certa identidade têm autoridade para falar sobre o tema não equivaleria a uma espécie de “exclusividade epistemológica”, como Rogers Brubaker, professor de sociologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e autor do recente livro Trans: Gender and Race in an Age of Unsettled Identities (Trans: gênero e raça em uma era de identidades incertas) escreveu em um artigo de opinião sobre a controvérsia no The New York Times.

Debra Satz, professora de filosofia em Stanford e uma das primeiras filósofas a criticar o pedido de retirada do artigo, disse que é importante que o feminismo “se associe à livre troca de ideias”.

“Se a intenção é aumentar a quantidade de artigos escritos por mulheres e sobre questões feministas, ótimo”, disse ela. “Mas se for uma concepção muito estreita do tema, não é tão ótimo assim”.

Suzanna Danuta Walters, professora de sociologia na Universidade Northeastern e editora da Signs, uma revista feminista interdisciplinar, chamou o pedido de retirada do artigo de “ataque à avaliação por pares acadêmicos”. Os críticos de Tuvel atacaram suas citações e conclusões sem levar em conta seu raciocínio, disse Walters. “Tuvel poderia ter citado outras pessoas e utilizado outros argumentos?”, ela disse. “Sim. Mas você poderia dizer isso sobre todos os artigos”.

Miriam Solomon, presidente do conselho editorial da Hypatia e professora de filosofia na Universidade de Temple, disse que as críticas ao artigo tinham “preocupações legítimas” acerca da marginalização das vozes transexuais e não-brancas na filosofia. Mas reiterou que o pluralismo filosófico também é um valor importante.

Para ela, o artigo de Rebecca Tuvel é “um exemplo bastante competente de um certo estilo de filosofia”, disse Solomon. “Acho que a Hypatia deveria publicar mais coisas assim, e outras coisas também”./Tradução de Renato Prelorentzou

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