Uma ladeira de aprendizado

No Afeganistão desde 2001, esta americana explica o país que a mídia tachou como o 'Vietnã de Obama'

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2009 | 00h15

Não era difícil prever que, neste domingo de manhã, o ritual americano dos talk shows políticos fosse pegar fogo com a ira republicana em relação às mudanças de rumo no orçamento de US$ 3,5 trilhões proposto por Barack Obama. E era razoável esperar que o aumento de impostos para os americanos afluentes tivesse um volume mais alto na gritaria geral do que o orçamento militar. E que o anúncio da retirada de tropas do Iraque em 2010 fosse aquinhoado com seu tempo no debate. Mas, na guerra cuja vitória está hoje mais distante do que quando começou, em 2001, os EUA enfrentam obstáculos imprevisíveis e, em muitos aspectos, não militares. A ocupação do Afeganistão, sete anos e cinco meses depois de amplamente apoiada pela comunidade internacional como resposta proporcional ao 11 de Setembro, tornou-se símbolo do desperdício perpetrado pelo governo Bush em múltiplas frentes da política externa americana.     Próximos da divisa com o Paquistão, americanos e afegãos levantam defesasQuando qualquer âncora passa a usar casualmente a expressão "Vietnã de Obama" para se referir ao Afeganistão, confirma-se não só que o jornalismo da TV americana anda cada vez menos informativo, mas também que o reducionismo da imagem ainda é poderoso. Provoca um frio na espinha coletiva porque o Vietnã continua a ser a referência da tragédia de uma aventura militar. Enquanto o governo Bush praticava o que o comediante Stephen Colbert batizou brilhantemente de truthness - uma espécie de "verdadice"- e a hiper-realidade informava o hiperpoder, avaliar a inacreditável demonstração de incompetência e pusilanimidade no Afeganistão era tarefa para o jornalismo elitista.Com um novo presidente que não sai da nossa frente, pela TV, pelo rádio e online, e já começou a virar mote de comédia pela desenvoltura com que dá notícia ruim, o abscesso que se tornou o Afeganistão começou a doer de maneira mais aguda na consciência americana. Ainda que o país continue um ponto de interrogação para a maioria do público que sustenta essa guerra e despacha seus filhos para morrer no terreno inóspito, uma definição de bolso do Afeganistão inclui, quase sempre, o fracasso de todas as tentativas externas de ocupar o país; o fato de que não se trata nem de um país, tal a aversão tribal à centralização de poder; a impossibilidade de erradicar o cultivo de ópio e a venda de narcóticos por causa da inexistência de atividade econômica. Se alguém quiser criar um país fictício mais intratável do ponto de vista do liberalismo ocidental seria difícil produzir um exemplo mais ilustrativo do que o Afeganistão.Falcões como Henry Kissinger admitem que o desafio é assustador e, apesar de considerar pequeno o reforço de 17 mil novos soldados prometido por Obama, Kissinger acaba de escrever um artigo alertando que o impasse do Afeganistão carece de todo multilateralismo que Obama conseguir inspirar.O crédito de boa vontade internacional com o governo Obama ainda não sofreu como o crédito no mercado financeiro americano. Se nestes sete anos de ocupação houve um momento para arriscar a usar a palavra otimismo, a chegada do time Obama deu a deixa.A jornalista Sarah Chayes testemunhou a deposição dos taleban que inspirou uma breve onda de esperança em 2001. Ela foi cobrir a invasão para a rede de rádio pública NPR e ficou vivendo em Kandahar. Acha que a sorte tem alguma coisa a ver com o fato de continuar viva. Chayes saiu da rádio em 2002, fundou uma cooperativa de produtos de beleza à base de frutos e ervas locais, em parte como forma de proporcionar uma alternativa ao plantio de ópio. Os produtos são vendidos em butiques e pelo site www.arghand.org. Em 2007, Chayes lançou The Punishment of Virtue: Inside Afghanistan after the Taliban (A Punição da Virtude: Dentro do Afeganistão Depois do Taleban, não publicado no Brasil). Continua a ser ouvida com frequência na mídia americana sobre o país do qual não quer abrir mão, "porque não tenho motivo para ir para outro lugar". Além de considerar o Afeganistão lindo e interessante, Sarah diz que o país é uma ladeira íngreme de aprendizado. É preciso ouvir sua voz para entender melhor a sinceridade da sua escolha. Quando conversamos pela primeira vez, há dois meses, você disse que estávamos no limiar de duas visões de mundo. A visão "nós x eles" do governo Bush e a atitude mais reflexiva que passaria a considerar o mérito individual das crises. Você continua otimista?Continuo otimista, mas com cautela. Obama herdou do governo anterior a bomba da economia e ela tem um impacto enorme em qualquer estratégia para lidar com o Afeganistão.Qual foi o pecado original da ocupação do Afeganistão?Podemos passar horas aqui falando sobre os erros. Para começar, a perspectiva exclusivamente militar. E, mesmo nesse caso, se compararmos o número de soldados, nem a invasão do Haiti nos anos 90 foi tão subequipada. Foi uma ocupação puramente cinética, reativa. Sem um contingente numeroso, os militares apenas reagem a ataques, não criam cenários de prevenção. Os canadenses em Kandahar viveram esse problema. Não tinham condição de evitar ataques dos taleban. Então ficava essa guerra de atrito, que se repetia. Outro problema é que tropas reduzidas tendem a entrar em pânico justificado e pedir apoio aéreo, o que aumenta o numero de bombardeios com consequências imprevisíveis.Mas como os taleban conseguem impor tanto controle, mesmo se, por um período breve, depois da invasão em 2001, segmentos da população experimentaram o alívio de viver com maior liberdade?Garanto a você que os taleban não são admirados ou queridos, apenas temidos. E preenchem o vácuo deixado pela ausência de governo central. É quase uma repetição do cenário com os líderes tribais em 1994. A corrupção é endêmica, a população não espera nada do governo. Como americana, é doloroso ter que assistir ao que nós exportamos para os afegãos, o apoio dado por gente como o Donald Rumsfeld a líderes da pior espécie. Vamos admitir que não houve nenhuma estratégia inicial para o Afeganistão. O Colin Powell tentou, fracassou e nada mais foi articulado. Sabemos que a oposição à guerra no Iraque foi o empurrão decisivo para a candidatura de Obama, quando poucos acreditavam nele. Mas Obama foi criticado por demonstrar menos transparência nos planos para as duas guerras do que em outras áreas, como a economia.Penso o contrário. Pela primeira vez em sete anos há um apetite voraz por perspectivas e informação sobre o Afeganistão em Washington. Um exemplo: houve uma audiência excepcionalmente informal no Comitê de Relações Exteriores no começo de fevereiro do qual participei. O evento permitiu uma troca de pontos de vista com uma franqueza que não se tem visto. O novo grau de acesso aos responsáveis pelas decisões da administração Obama é uma mudança incrível, comparada aos anos Bush.Você vê sinais de que o governo esteja determinado a consertar a ocupação do Afeganistão?Só pelas nomeações já se pode concluir que há uma nova determinação. Existe o "time" devotado ao Afeganistão. E Richard Holbrooke, o enviado dos EUA para o Paquistão e Afeganistão, é uma força da natureza. Apertem os cintos!Apesar da passagem dos anos, a "síndrome do Vietnã", o temor da aventura militar sem saída, ainda é um símbolo poderoso na psiquê americana. O fato de o Afeganistão passar a ser chamado na mídia de "o Vietnã de Obama" pode intimidar o governo?Sempre haverá aqueles que ainda buscam remendos rápidos. E a economia agora pesa muito para alimentar esse clima de que é preciso partir para a solução simplista. Esse argumento inclui o temor que você cita. Há também a descrição, sem base histórica, dos afegãos como irremediavelmente hostis a qualquer governo central e, pior, o canto da sereia de que devemos apenas destruir os santuários para terroristas internacionais e acabar de vez com o problema. Mas foi exatamente essa posição da administração Bush que nos levou ao impasse no qual nos encontramos agora. Você apoia, a esta altura, qualquer forma de negociação formal com os taleban?De jeito nenhum. Negociar com eles é irrelevante para o problema do Afeganistão, que é de desgoverno. A ausência de autoridade jogou as pessoas nos braços dos taleban por falta de alternativa. Seria sinal de fracasso da comunidade internacional se nos mostrássemos incapazes, com tanto poder, recursos e autoridade moral, de ajudar os afegãos a construir um governo não extremista, capaz e representativo. Tratar com os taleban não leva a nada.A importância do Paquistão para solucionar a ocupação do Afeganistão gerou o neologismo "AfPak", cunhado por Holbrooke.A situação no Paquistão se deteriorou de tal forma que me pergunto se não é tarde demais. O ISI, serviço de inteligência paquistanês, incentiva os taleban e, em certos casos, como em Kandahar, dá ordens diretas. O chefe da polícia local e meu grande amigo Akrem Khakrezwal morreu num ataque à bomba numa mesquita, em junho. Ele não foi vítima de um atentado suicida, e sim de uma ordem de assassinato. O Musharraf foi o xá do Irã da última década, apesar da enorme oposição civil a ele. E os EUA na ilusão de que a amizade de Musharraf era a garantia... O ISI e os militares em geral são o Estado dentro do Estado, um tumor canceroso. Usam a paranoia com a Índia como pretexto para consolidar o poder. Tenho cuidado para não falar como uma autoridade sobre o Paquistão - o que não sou. Mas tenho convicção de que não há solução regional sem atenção especial à fronteira do Paquistão com o Afeganistão, maior firmeza com os militares e alguma forma de engajamento com a sociedade civil paquistanesa.De que maneira a violência evoluiu no Afeganistão?Não havia, por exemplo, ataques a soldados britânicos ou canadenses até janeiro de 2008, sinal de certo controle centralizado e de que não havia uma estratégia antiocidental, mas antiamericana. Se tivesse havido coerência ideológica, eu já estaria morta. Uma das mudanças é a pulverização da insurreição. Parece cogumelo depois da chuva. Começaram os ataques contra mulheres, ataques indiscriminados. Então sua rotina teve que mudar?Sim, em 2008 começou a temporada de caça a civis americanos. Não que fosse difícil matar americanos, mas não era conveniente, dentro do contexto exclusivamente afegão, matar tantos americanos para provocar uma escalada de reações. Minha rotina se tornou muito mais perigosa. Antes, eu podia passar até sete meses por ano em Kandahar. Agora não fico muito tempo no mesmo lugar. As residências afegãs são relativamente fortificadas para proteger as mulheres. Não ando sem escolta e, no meu grupo, todos sabemos manejar armas. Viajo muito menos e em rotas pouco previsíveis. A constelação de forças presentes no sul do país é imprevisível. No ano passado surgiram militantes que claramente não eram figuras locais. Isso introduz o tom ideológico, a coordenação que vem de fora, do Paquistão. O ataque terrorista a Mumbai ilustrou a dimensão do problema.Você concorda que não exista solução exclusivamente americana para o Afeganistão?Vai ser necessário um grande nível de engajamento e paciência, não há nenhuma solução de curto prazo. E acredito que os europeus estariam a bordo na coordenação do esforço civil. É preciso treinar uma força de funcionários públicos, trabalhar com instituições. Esse tipo de estratégia requer mais coragem política. Ironicamente, é o engajamento militar que dá a impressão de comprometimento.

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