Uma luta diuturna

Batalha pelo jornalismo livre é tema de peça de Tom Stoppard, ambientada num país fictício, ao gosto de Mugabes e Amins

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 23h58

"Save the Press" (Salvem a Imprensa), conclamou Timothy Egan no New York Times de quarta-feira. O premiado jornalista (Pulitzer de 2001) anda alarmado com o presente e, mais ainda, com o futuro do jornalismo impresso. Só na semana passada, quase mil postos de trabalho foram eliminados na indústria de jornais dos EUA. Mesmo estimando que a imprensa estará a salvo na internet, Egan lamenta a morte anunciada do jornal em papel, aquele em que aprendeu e desenvolveu seu ofício, aquele que você tem nas mãos, aquele cuja função social e política levou Thomas Jefferson a esta histórica profissão de fé: "Se coubesse a mim decidir se deveríamos ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um minuto em optar pela segunda hipótese". Sem imprensa, não há democracia; e sem democracia, não há governo, mas tirania. Era isso, em resumo, o que Jefferson queria dizer. É isso, ou seja, a liberdade de informar, o que Egan nos exortou a manter incólume às fatalidades de ordem econômica, às tentações mercantilistas e aos abusos autoritários. As fatalidades de ordem econômica também têm atingido nossas redações, mas nada que se compare à devastação em curso na mídia impressa americana: há quatro anos que nossos jornais registram altas consecutivas nos índices médios de circulação. Já os abusos... bem, não creio ser necessário repertoriar os recentes atentados contra a liberdade de imprensa cometidos pelo Ministério Público Eleitoral, geralmente por juízes demasiado jovens, inexperientes e alheios à prevalência da liberdade de expressão, constitucionalmente assegurada, sobre imposições sazonais da legislação eleitoral - "uma rapaziada que não estuda bem o Direito, que assiste a muita televisão e lê poucos livros", na avaliação do jurista Saulo Ramos. Mas não custa lembrar que o Jornal da Tarde passou três dias proibido de publicar reportagens sobre possíveis irregularidades no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo - e o Cremesp nem está concorrendo à Prefeitura da capital paulista. Em meio à grita contra a ressurreição da censura à imprensa no Brasil (o que mais pensar diante das sucessivas ameaças, multas e proibições desencadeadas por aquela entrevista de Marta Suplicy à Folha de S. Paulo?) e a conclamação de Timothy Egan, desembarcou na Feira Literária de Paraty o dramaturgo britânico Tom Stoppard. Qual a relação? Está fazendo 30 anos que ele escreveu uma peça não só articulada em torno da liberdade de expressão como dotada de um personagem que muito lembra o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe. Atualíssima portanto.Night and Day, obra de transição na carreira de Stoppard, texto sério, mas não de todo desprovido do humor que caracteriza o autor, não é uma homenagem a Cole Porter. As duas únicas canções nela mencionadas, assim mesmo en passant, são das duplas Lennon-McCartney e Rodgers-Hart. Se bem que a abertura da canção Night and Day, evocando o som dos tambores ao cair da tarde na selva ("like the beat, beat, beat of the tom-tom, as the jungle shadows fall"), se encaixaria à perfeição na abertura do primeiro ato da peça, ambientada num imaginário país africano, Kambawe, ex-colônia inglesa, então (meados dos anos 1970) entregue aos desmandos e atrocidades de Ginzu Mageeba e à fúria insurrecional da Frente de Libertação Adoma, chefiada pelo coronel Shimbu, apoiada pela União Soviética e desdenhada pelas agências de notícia como "um bando de contrabandistas de marfim analfabetos e intoxicados de propaganda marxista". Shimbu jamais aparece em cena, ao contrário de Mageeba, que dá o ar do seu circunspecto ridículo e do seu maquiavelismo quase ao final do segundo e último ato, visitando os donos da casa onde toda a ação da peça transcorre. Visivelmente inspirado em Idi Amin (sanguinário ditador de Uganda de 1971 a 1979), Mageeba é uma caricatura digna do Evelyn Waugh de Furo (Scoop), memorável sátira à infausta Abissínia de Hailé Salassié e à irresponsabilidade de certa imprensa britânica nos anos 1930. O uniforme salpicado de medalhas, óculos escuros Christian Dior, braguilha desabotoada, Mageeba nem parece ter estudado na prestigiosa London School of Economics.Mas o fato é que não só lá estudou como aprendeu até noções básicas de jornalismo. Na entrevista informal que concede a um dos protagonistas, Dick Wagner, veterano jornalista australiano enviado do fictício diário londrino Sunday Globe (qualquer semelhança com o Sunday Times não é mera coincidência), o ditador cita verbatim dois legendários editores de jornais do final do século 19, John Delane (do Times) e C.P. Scott (do Manchester Guardian). A um aforismo do segundo ("Os comentários são gratuitos, mas os fatos são sagrados"), o cínico Wagner contrapõe uma paráfrase: "Os comentários saem de graça, os fatos, não". Wagner e um fotógrafo britânico, George Guthrie, foram a Kambawe para entrevistar o líder da guerrilha, mas acabaram furados por um jovem free lancer, Jacob Milne. Os três se defrontam na casa de Ruth e Geoffrey Carson, que se sustentam com os lucros de uma mina de cobre e mantêm relações mais do que cordiais com o poder local. Ruth despreza a imprensa em geral, tem birra com a palavra mídia, que associa a mediunidade ("me soa como uma convenção de espiritualistas"), e mantém com o idealista Milne uma das mais interessantes trocas de idéias da peça, no final do primeiro ato. "Ele acha que o Globe nada mais é que uma fábrica de produzir jornais cujos donos, meros homens de negócios, só vêem os jornalistas como força de trabalho" desabafa Milne, a quem o invejoso Wagner considera um ingênuo de marca maior. Ruth concorda: "Mas o Globe é isso mesmo". Milne replica: "Não é não." Ele sabe das limitações do veículo em que trabalha, das vulgaridades que em suas páginas predominam, mas admite: "É o preço que a gente paga pela publicação das coisas que realmente importam". E o que mais importa, afinal de contas, é a liberdade de expressão, "a última linha de defesa das demais liberdades". Com uma imprensa livre, Milne insiste, tudo é corrigível ("correctable"), e sem ela, tudo é ocultável ("concealable"). Quando, um ato depois, cair o pano, Milne não estará mais vivo para prosseguir em sua luta diuturna para salvar a imprensa de seus detratores, de seus algozes e de seus vendilhões.

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