HarperCollins
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Uma nova história sobre os conflitos do Brasil

‘Guerras da Conquista’ fala do massacre de nativos brasileiros pelos europeus

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2021 | 16h00

“Quando o português chegou/Debaixo de uma bruta chuva/Vestiu o índio/Que pena!/Fosse uma manhã de sol/O índio tinha despido/O português.” Erro de Português, o já gasto poema de Oswald de Andrade, é talvez a única visão dissonante que as escolas costumam oferecer a respeito do desembarque dos portugueses no Brasil. De resto, o que se aprende sobre a relação entre colonizadores e índios é a narrativa da “descoberta” e a glorificação de personagens que hoje nomeiam ruas, estradas, praças, instituições: José de Anchieta, Mem de Sá, Estácio de Sá, Manuel da Nóbrega. O livro Guerras da Conquista, de Felipe Milanez e Fabricio Lyrio Santos, oferece uma visão que rompe com a historiografia escolar, desmistificando muitos desses heróis nacionais.

O livro faz parte da série Guerras do Brasil, publicada pela editora HarperCollins e originada na série documental homônima da Netflix. A obra traça um panorama extenso dos principais conflitos travados entre os europeus e os povos originários do Brasil, colocando em xeque a ideia de que havia algum tipo de supremacia militar por parte dos portugueses e mostrando como a formação de alianças com lideranças locais e o estímulo de rivalidades já existentes entre tribos foram estratégias fundamentais para a conquista do território. 

A obra inclui a transcrição de uma entrevista com o intelectual indígena Ailton Krenak, que oferece um ponto de vista diverso da visão laudatória dos colonizadores: “Quando os brancos chegaram, foram admitidos como mais um na diferença. E, se os brancos tivessem educação, poderiam ter continuado a viver aqui no meio daqueles povos e produzido outro tipo de experiência”. Abaixo, a entrevista com Felipe Milanez e Fabricio Lyrio Santos:

Qual foi o papel das alianças entre portugueses e chefes indígenas na conquista territorial do Brasil?

Fabrício: Anchieta chega a dizer que não teve uma guerra em que Mem de Sá não usasse tupinambás para poder vencer. Do ponto de vista indígena era uma aliança de igual para igual. Só mais tarde ficou claro que os portugueses estavam almejando a conquista definitiva do território com essas alianças.

Felipe: Construiu-se o mito da superioridade bélica, não só no Brasil. “A Europa conquistou o mundo porque tinha superioridade militar e exércitos mais bem treinados.” Se percebeu que isso é um mito. J.C. Sharman, no livro Empires of the Weak, faz essa análise, trabalhando nas conquistas da África e da Ásia. O que a Europa teve preponderantemente foi um domínio logístico dos mares, e não um domínio territorial. Fizeram alianças com reinados locais, ajudaram dominados a combater inimigos. Aqui é muito parecido, como os tupinambás que eram poderosos na costa e se aliam com outras tribos para enfrentar tupiniquins. Isso não ficou no passado. Trabalhando com as lutas indígenas contemporâneas, me chama a atenção como fomentar a divisão é uma estratégia atual de conquista de territórios demarcados. O atual governo trabalha as divisões também. Todas as invasões contemporâneas são feitas com a colaboração de uma minoria, seja com garimpeiros, madeireiros, grileiros.

Em que medida a cosmovisão ameríndia determinou o resultado dessas guerras?

Fabricio: Eu acho que esse é um aspecto que favorece quem está invadindo. Os índios estavam sendo atacados em seus próprios lares, tinham mulheres, crianças. Não era uma guerra no campo. Os portugueses atacavam as aldeias e os índios tinham de sair correndo. Para além da visão indígena, na prática uma guerra de conquista é mais arrasadora do que a guerra indígena. Havia uma diferença de visão sobre a guerra, mas também me preocupa o resultado prático disso, o que significava uma guerra de conquista para aquele momento. Eles não queriam demarcar uma terra, eles queriam continuar vivendo.

Felipe: Hoje tem-se muito mais acesso às visões sobre essas guerras. Lemos documentos, mas discutimos as interpretações a partir de visões indígenas contemporâneas e de antropólogos não indígenas para ver como eles estavam reportando aquele tempo. Se os indígenas logo no início soubessem que a intenção era de conquista, os barcos teriam sido comidos com muita facilidade. Mas eles estavam interessados na troca. Os portugueses estavam guerreando pela riqueza e os índios não guerreavam por isso. Montaigne escreve sobre os canibais, ele admira o seu modo de vida. Vários europeus pensaram: ‘Porque guerrear com eles se podemos conviver como numa utopia de Thomas More?’ Mas o que aconteceu foi trágico, até para os europeus.

Qual foi a influência da derrota portuguesa no Marrocos para as guerras travadas no Brasil?

Fabricio: A principal consequência foi a perda da soberania portuguesa, porque Sebastião morreu sem deixar herdeiros e a coroa espanhola tinha a prerrogativa de herdar o trono português. A gente pensa pouco nesse período por causa do nacionalismo português. A história brasileira nasce no século 19 comprometida com a ideia de inventar um passado para um país que estava sendo inventado e nasce com essa perspectiva nacionalista. Tinha que ser uma história patriota, para exaltar uma nação que estava nascendo como filha da nação portuguesa. No livro didático, a invasão holandesa tem esse nome, mas a invasão portuguesa é chamada de descobrimento. 

Felipe: Essa foi uma derrota europeia, não eram só portugueses. Havia espanhóis e italianos também, contra um exército africano. Se existisse uma superioridade militar europeia, Portugal jamais iria perder uma guerra tão importante, inclusive com a morte do próprio rei. É importante desmistificar a superioridade europeia. A gente identificou várias batalhas que os portugueses perderam aqui. 

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